A primeira vez que a Camila Audrey pediu uma mota não foi por causa de um vídeo viral, nem de um desenho animado. Foi porque viu “uma menina a andar de moto” e decidiu que queria sentir exatamente o mesmo. “O meu pai deu uma mota de gasolina e eu fiquei ainda mais contente porque dava para andar nas pistas”, conta a jovem setubalense à New in Setúbal.
Hoje, com 11 anos, Camila (que muitos já conhecem como Camila “Danger” Audrey) não está só “a experimentar”. Está a competir, a cumprir objetivos e a traçar um plano ambicioso para 2026, com um sonho muito concreto: comprar a sua própria mota, para deixar de depender da equipa e ganhar as horas de treino que fazem a diferença neste desporto.
E se 2025 foi o ano em que percebeu que isto era mesmo a sério, 2026 pode ser o ano do salto, literalmente.
Como tudo começou
A história de Camila tem aquela simplicidade que costuma estar na origem das paixões duradouras: ver alguém a fazer e querer fazer também. “Tinha visto uma menina a andar de moto e queria fazer o mesmo”, explica a jovem atleta de motocross. O pai, João Assembleia, confirma que o início foi quase uma brincadeira, daquelas que, sem aviso, mudam o rumo dos fins de semana.
Há poucos anos, a jovem não conseguia largar as rodinhas da bicicleta e, na mesma altura, foi diagnosticada com défice de atenção e hiperatividade. Para ajudar, os pais, João Assembleia e Neise Trigueiros, foram à procura de uma atividade que pudesse trabalhar o seu foco. Em pouco tempo, tornou-se atleta de motocross.
“Comprámos-lhe uma mota de 50 centímetros cúbicos, das pequenas e, num espaço de duas semanas, a Camilla já estava na pista a brincar”, explica o pai. “Estamos ligados a esse mundo porque sempre tivemos motas a título pessoal e queríamos ver se ela gostava”.
Houve um dia em que estavam no FMX Spirit, um complexo de treinos em Setúbal para desportos relacionados com motas, quando foram aconselhados a entrar em contacto com Bruna Antunes, atleta, treinadora e fundadora da BA Motopark Riding School, uma escola de motocross em Paio Pires.
“Fomos umas duas ou três vezes até que começámos a levá-la aos treinos há cerca de um ano e meio”, recorda. “Acabou por passar para uma mota superior e mais potente. Tudo foi progredindo muito rápido e é tudo recente, está a ser difícil acompanharmos a evolução dela”, confessa, entre risos.
E Camila, que agora divide o tempo entre escola e treinos, encaixou na rotina como quem encontra o seu lugar. “Tenho sempre a escola de manhã, mas depois à tarde vou treinar”.
A organização do dia a dia é meio mundo quando se tem 11 anos e se quer competir num desporto técnico. As provas são ao fim de semana e Camila garante que não deixa a escola para trás. E enquanto a maioria das amigas escolhe “dança ou ginástica ou futebol”, ela prefere capacete, luvas e a linguagem das curvas.
2025: um pódio na estreia e um Troféu Yamaha
O “palmarés” da Camila, como o pai lhe chama, começa em abril de 2025. A primeira prova foi em Gáfete, numa Mini Baja, para perceberem se ela queria mesmo competir. Resultado foi um impressionante pódio, conseguindo o 3.º lugar feminino na categoria TTR e 4.º lugar geral, num contexto com “cerca de 30 atletas”, com várias motas e categorias misturadas.
Esse desempenho foi o empurrão para o passo seguinte. Em maio, avançaram para o Troféu Yamaha, descrito pelo pai como “o troféu com mais história em Portugal” e com um nível de exigência claramente superior. Camila entrou como estreante, e isso faz diferença quando estamos a falar de grelhas competitivas com miúdos dos 10 aos 15 anos e com provas em que muitos ficam pelo caminho.
E aqui vem uma daquelas conquistas que, para quem está de fora, pode passar despercebida, mas no motocross vale ouro: Camila conseguiu completar as quatro provas. “Ela fez o troféu completo”, sublinha o pai, explicando que há desistências por avarias, quedas, medos e tudo o que faz parte da modalidade. No fim, ficou em 6.º lugar feminino na categoria e 27.º da geral, num universo de cerca de 40 atletas, sendo “a única estreante na categoria dela”. A época terminou em outubro, depois do calendário típico do troféu.
2026: o salto para as 125, a ambição de ganhar e a urgência de uma mota “dela”
Se 2025 foi o ano da estreia, 2026 está a ser desenhado como o ano do salto e, neste caso, até o corpo entrou no plano sem pedir licença. “A Camila, a meio do troféu Yamaha, deu um salto a nível físico. Cresceu muito e a moto onde estava tornou-se uma moto pequena para ela”, explica o pai. Diz mesmo que já fez duas provas “um pouco em sofrimento”, uma vez que a mota já não acompanhava o crescimento, apesar de continuar a ter resultados positivos.
O objetivo para 2026 é subir para a categoria 125, onde a realidade muda. “Já estamos a competir uma categoria onde entram os adultos, pessoas com 20, 25 anos, 30 anos”. Ainda assim, a decisão está tomada: querem fazer as Mini Bajas (as quatro provas) e voltar ao Troféu Yamaha, agora numa categoria acima, com a treinadora Bruna Antunes e a equipa.
Só há um problema que está a travar estes objetivos: não ter mota própria. Neste momento, Camila depende da mota da equipa, o que significa que só anda quando treina com a equipa e só participa no que a equipa decidir fazer. E isso, num desporto onde “são precisas muitas horas em cima da moto”, cria um atraso inevitável. “Ela está um pouco atrasada a nível de horas acima da moto porque não temos mesmo hipótese de comprar uma”, admite o pai.
No entanto, Camila mantém-se focada nos seus sonhos. Quando lhe perguntámos qual é o seu maior objetivo, responde sem hesitar: “Ter a minha nova moto.” E, se pudesse escolher uma vitória, aponta ao topo: “É vencer o troféu Yamaha”.
Quanto custa continuar (e como ajudar Camila)
A parte menos romântica do motocross é também a mais importante, o investimento monetário. Segundo o pai, uma mota nova pode chegar aos 8 mil euros (já preparada para competir). A alternativa passa por comprar uma em segunda mão “por cerca de 3.600 euros”, e é para esse objetivo que a família está a angariar fundos, com uma campanha onde já tinham “30 por cento do objetivo atingido” (em angariação há um ano).
Depois há a manutenção do sonho mês após mês, onde os treinos rondam “260€ de dois em dois meses”, mas o valor pode duplicar quando se aproxima a fase de preparação para os troféus. E as inscrições anuais em competições podem chegar perto dos 1.400€. A família assume que quase tudo é suportado pelos pais, com ajuda de família e amigos, e que o apoio monetário é “muito pouco”.
Com o Campeonato Nacional de Mini Baja 2026 a bater à porta (com data de início a 14 de março), e com o objetivo de participar em mais provas este ano, Camila precisa de ajuda. A família lançou um GoFundMe para conseguir comprar a “Yamaha TTR-125 (3.650€)”. Também é possível contribuir através do MB WAY (911 522 694) e IBAN (PT50 0035 0700 0006 5289 7302 1).
E há uma razão que vai além dos números: com uma mota dela, a jovem atleta poderia treinar fora do calendário da equipa, experimentar outras pistas, ganhar ritmo com outros atletas, e acelerar a evolução que já mostrou em 2025. Porque, como ela própria resume: “quero mostrar que, mesmo sendo pequena, posso fazer coisas grandes, acreditar e trabalhar todos os dias para isso.”
Carregue na galeria para ver algumas fotografias de Camilla Audrey em ação.

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