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Vítor Gaspar, alfaiate setubalense com 90 anos, vai lançar novo livro cheio de histórias

“Petrónio” é o nome da obra sobre alfaiataria que Vítor Gaspar está a desenvolver, a profissão que desempenhou toda a vida.
Vítor Gaspar está a trabalhar no novo projeto.

É um verdadeiro guardião da alfaiataria e um mestre na arte de desenhar. Das cores, à silhueta cintada, com pormenores de botões e lapelas, tem centenas de desenhos de fatos. O mais caricato que o antigo alfaiate, Vítor Gaspar, se recorda de confecionar foi um dourado, muito vistoso, feito à medida — como todos os outros — para uma celebridade. E chegou a ter de arranjar meio centímetro de bainha, para ficar ao gosto do cliente.

Estamos a falar de um ofício que o acompanhou durante mais de meio século. A primeira alfaiataria que abriu, em Setúbal, foi no final dos anos 50, tendo fechado na década de 90. Além dos clientes habituais, tinha pessoas que vinham do estrangeiro, nomeadamente de França, só para visitá-lo e ter um fato com a sua assinatura. Todas estas histórias estão a ser escritas no novo livro de Vítor Gaspar, “Petrónio”, que sucede à primeira obra publicada “Manual para o Alfaiate”.

Vítor Gaspar nasceu em janeiro de 1934 num edifício junto ao Quebedo, em Setúbal. A mãe Lúcia Gaspar, natural da cidade do Sado, sempre trabalhou como costureira, por isso Vítor cresceu no meio dos fatos, agulhas e linhas. Já o pai Joaquim Gaspar era soldador e oriundo de Sines.

Quando surgiu a crise das conservas, em Setúbal, muitos soldadores foram trabalhar para Lisboa, incluindo o pai de Vítor. Com apenas 12 anos e numa “cidade grande e muito mais movimentada” que Setúbal, o miúdo foi para aprendiz de alfaiate na Alfaiataria Fonseca no Rossio, na Praça D. João de Câmara, junto ao Teatro Nacional D. Maria II.

Na oficina, aprendeu muitas das técnicas, que guarda na memória, com as costureiras e o oficial. Com 20 e poucos anos tornou-se mestre. “Como já sabia fazer fatos e tirei depois o curso técnico de alfaiate de homem e senhora, respondi a um anúncio e fui selecionado para ser mestre e dirigir uma secção de alfaiataria, em Lisboa”, conta à New in Setúbal.

Fez também um estágio de três meses em Vila Franca de Xira, na Alfaiataria Horta, especialista em trajes ribatejanos. Com provas dadas e talento de sobra, decidiu voltar à cidade do Sado e fundar a sua própria alfaiataria, no final de 1958. Dois anos mais tarde, na inauguração do Cineteatro Luísa Todi, passou um anúncio publicitário da sua casa — foi a chave para o sucesso durante 30 anos.

O espaço Vítor Gaspar Alfaiate ficava junto à drogaria dos Pachecos, na Baixa de Setúbal. Lá fazia dezenas de fatos para homem e também peças de vestuário de senhora. O processo era simples, tal como se via nos filmes portugueses de Vasco Santana (tirando a parte da prova dos nove, escrita a giz nas costas dos fatos). “Os clientes iam tirar as medidas, escolher a fazenda e os figurinos, que podiam ser franceses ou ingleses. Depois era só fazer os ajustes necessários ao corpo e ao gosto do cliente”, revela.

O domingo era o dia de descanso, mas também o escolhido para começar a trabalhar nos modelos. Assim, normalmente ao fim de uma semana, tinha o trabalho pronto para entregar. Além da vida que levou, entre pedidos, tecidos, texturas e muita criatividade, a verdade é que sentimos alguma amargura quanto à importância dada ao ofício da alfaiataria no século passado.

Modelo inovação e criatividade.

As regras do estilo e da inovação

“Petrónio” é o título escolhido para o novo trabalho e assume-se como um árbitro da arte de bem-vestir. “O que despertou a minha atenção para este nome foi a forma de gratidão e o reconhecimento de que deve os louros do seu sucesso às mãos hábeis do alfaiate”, explica. Se hoje quaisquer calças, sapatilhas e blusa branca servem para usar, antigamente o requinte e a elegância tinham prioridade. No livro, que ainda não tem data de lançamento, além das histórias que vivenciou e dos modelos que desenhou nos anos 50 e 60, partilha curiosidades sobre o desenvolvimento e as inspirações da profissão.

“Este documento não é só uma história do passado. É um elo que liga o passado ao presente e ao futuro, porque são o passado e o presente que conferem a validade e a importância que assume a arte e o estilo do alfaiate, que já vêm de longe, e isto não é só uma frase feita. A moda é passageira, mas o estilo que o alfaiate imprime à sua obra, ultrapassa os limites de uma época e os pormenores que são inovação constante, dão a esta arte atualidade e modernidade”, assume.

É importante perceber que cada peça feita num alfaiate é única e individual. E foi assim que Vítor trabalhou toda a vida, sempre com noções do que estava a ser usado, dos tecidos, mais leves ou mais pesados, clássicos e românticos, das cores e das estações do ano e até da influência da Era Vitoriana. Em 1989, numa viagem ao estágio que fez, em 1957, um grupo de forcados amadores de Lisboa pediu para Vítor confecionar de 20 jaquetas de ramagens como era a tradição. “Foi recordar que se passaram 30 anos dessa época em que fiz o meu último trabalho nesta área”, confessa.

Na obra vai encontrar ainda muitos exemplares do modelo “inovação” e que até podem ser inspiração para os atuais criadores de moda. “São modelos da minha criação e nos padrões dessa época, tendências inovadoras no estilo alfaiate, em que os clientes chegavam a esperar três meses para ter o fato dos seus sonhos. Comparando com a confeção tradicional da época, já era inovação, por isso, costumo chamar moda de sempre. Ainda hoje, são os fatos que mais gosto de vestir”, acrescenta. E atenção: apresentar-se com o melhor não quer dizer que esteja bem vestido.

“Pode estar vestido com elegância e requinte, mas estar desenquadrado do ambiente. É evidente que nem todos os que agora têm possibilidades, tiveram tempo para conhecer as condições em que deviam usar-se estes trajos. Uma consulta ao alfaiate estava indicada para estes casos e deixaria de ser a confusão que se estabeleceu neste campo”, diz Vítor.

Das suas vivências, recorda um cliente com três filhos, com oferta de um fato pelos 20 anos e um outro que vestiu pela primeira vez um modelo de alfaiataria quando se licenciou em Medicina. “Cada cliente tinha o seu gosto pessoal, outros vestiam pelo figurino, mas havia muitos que deixavam isso ao critério do alfaiate e até era o alfaiate que escolhia a fazenda, o padrão mais indicado e o modelo”, revela.

Desenhou casacos para os funcionários da Secil, cinzentos, para não se notar o pó do cimento, e depois em bege, para “desanuviar da cor ambiente”. Na época alta do Vitória Futebol Clube, era a assinatura de Vítor Gaspar que levavam vestido. “A minha etiqueta estava em todas as atividades empresariais”, revela.

No novo livro, vai encontrar dezenas de histórias, desde o “Zé Manel, humilde e solidário”, à Rua dos Almocreves, sem esquecer os jovens que vestiam os fatos dos pais. Termina com a opinião do Petrónio, “que com autoridade descreve que é graças ao alfaiate que os sucessos o perseguiram”, e ainda uma alusão aos cerca de 40 alfaiates setubalenses que conheceu, “indispensáveis”, e que enumera como merecedores “do reconhecimento da cidade de Setúbal, como autores desta metamorfose”.

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