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Trabalhadores da RTP condenam participação de Portugal na Eurovisão

A notícia surge depois da confirmação da presença de Israel no festival, que se realiza na Áustria no próximo ano.

Os trabalhadores da RTP e o artista Salvador Sobral tornaram público esta sexta-feira, 5 de dezembro, o descontentamento sobre a participação de Portugal na Eurovisão, depois de Israel ter tido a presença confirmada no festival na quinta-feira, 4.

Os trabalhadores da estação portuguesa estiveram reunidos em plenário na tarde de sexta-feira para preparar a greve geral da próxima quinta-feira, dia 11, e aproveitaram também para apresentar uma moção, citada pelo “Público”, sobre a decisão do festival.

“Os trabalhadores da RTP reunidos em plenário condenam a decisão”, pode ler-se no documento. Em causa, estão “graves violações dos direitos humanos amplamente denunciadas pela comunidade internacional”.

O documento alega ainda que a Kan (emissora pública israelita) está “alinhada com a estratégia oficial do Governo de Israel” e que a manter “no certame contribui para a legitimação e normalização de um Estado acusado de crimes de guerra”.

Os trabalhadores acrescentaram ser “incompreensível que a RTP tenha confirmado a participação”, instando “o conselho de administração a reavaliar urgentemente a sua posição e a pronunciar-se publicamente contra a participação de Israel em 2026”. Por fim, frisam que a emissora “deve afirmar-se, sem ambiguidades, como serviço público comprometido com a ética, a coerência e os direitos humanos” 

Salvador Sobral, vencedor da Eurovisão em 2017, também criticou a decisão, num vídeo partilhado no Instagram. “A RTP, o canal do Estado, decidiu participar na Eurovisão mesmo com a participação de Israel. Aquela expressão dar uma no cravo e outra ferradura nunca teve tanto sentido como ontem à noite”, disse. “A televisão nacional transmite um concerto por Gaza e, ao mesmo tempo tem medo de fazer a coisa certa.”

O descontentamento com a decisão da emissora surgiu na quinta-feira, 4 de dezembro, quando a Assembleia-Geral da União Europeia de Radiodifusão (UER), responsável pelo festival Eurovisão, anunciou que Israel vai mesmo participar na competição em 2026.

A RTVE já garantiu que Espanha não vai participar. “O que se passou na Assembleia da UER confirmou que a Eurovisão não é um concurso de canções, mas também um festival dominado por interesses geopolíticos e fraturados”, disse o presidente José Pablo López no X (antigo Twitter). Também a AVROTROS, a estação pública dos Países Baixos, revelou que não participará no evento.

 
 
 
 
 
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A polémica com Israel

A edição de 2026 da Eurovisão vai decorrer em Viena, na Áustria. Nos últimos meses, a presença de Israel tem sido discutida devido ao conflito na Faixa de Gaza e as supostas fraudes cometidas pela emissora israelita na edição passada.  

Em 2025, a cantora israelita Yuval Raphael, que ficou em segundo lugar, recebeu o maior número de votos do público. Ainda assim, a Áustria, com JJ e o tema “Wasted love”, acabou por vencer o concurso. Na altura, o governo de Israel foi acusado de financiar anúncios e recorrer a contas estatais para incentivar os votos a favor de Yuval.

A polémica intensificou-se no verão deste ano, quando países como Espanha, Eslovénia, Países Baixos, Irlanda e Islândia avisaram que ponderavam um boicote. O peso de Espanha nesta equação é ainda maior por ser um dos países do chamado grupo dos Big Five, os principais financiadores do festival.

Apesar de se apresentar como um evento apolítico, a Eurovisão tem sido cada vez mais pressionada a posicionar-se em relação a temas sensíveis. A presidente da UER, Delphine Ernotte Cunci, chegou mesmo a admitir, numa carta enviada em setembro, que “a união nunca enfrentou uma situação tão divisiva”.

Em novembro, estava agendada uma votação sobre a participação de Israel no festival, mas a UER cancelou-a devido aos “desenvolvimentos recentes no Médio Oriente”, incluindo o cessar-fogo em Gaza. 

Leia também o artigo da NiT sobre as novas regras de votação para a edição de 2026.

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