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Teatro Estúdio Fontenova resiste à pandemia e prepara novos eventos online

Apesar das restrições, a companhia setubalense manteve os postos de trabalho e continua a ensaiar a peça “A Paz Perpétua”.
Ensaios de "A Paz Perpétua": Foto: Helena Tomás.

No final de março de 2020, o Teatro Estúdio Fontenova preparava-se para estrear a sua nova produção, “A Paz Perpétua”, uma adaptação do texto do dramaturgo espanhol Juan Mayorga. Faltavam duas semanas para o evento quando foi decretado, a 18 de março, o primeiro estado de emergência em Portugal por causa da pandemia de Covid-19.

O espetáculo foi cancelado e reagendado para 13 de janeiro deste ano. No entanto, no dia seguinte, o País entrou num novo período de confinamento, o que fez com que a produção da companhia setubalense fosse suspensa novamente.

Ainda sem uma nova data marcada, a New in Setúbal falou com Patrícia Paixão (produtora e atriz) e Graziela Dias (atriz e diretora de produção) para perceber como a companhia está a lidar com as restrições da pandemia decretadas pelo governo para o setor das artes. Segundo a produtora, uma das principais dificuldades sentidas nesta fase são as recalendarizações dos eventos, uma vez que o Teatro Estúdio Fontenova não tem um espaço próprio para apresentar as produções.

“Tanto no primeiro como no segundo confinamento, deparámo-nos com uma série de recalendarizações não só da nossa parte, mas também de outras companhias que nos podiam acolher nas suas salas de espetáculos. Ou seja, temos que jogar com o nosso calendário e com o das restantes companhias e salas, o que torna mais difícil conciliar as datas”, explica Patrícia Paixão à New in Setúbal.

Apesar das quebras dos rendimentos das bilheteiras por causa da redução da lotação das salas e do cancelamento de alguns espetáculos, o Teatro Estúdio Fontenova conseguiu manter os seus postos de trabalho, uma vez que conta com o apoio da Câmara Municipal de Setúbal e da Direção-Geral das Artes.

“Estamos com saldos muito difíceis, mas sentimos que há pessoas muito pior do que nós. E, neste momento, temos de ser solidários com os nossos colegas das artes, música e teatro. Sentimo-nos quase na obrigação de fazê-lo”, afirma Graziela Dias à NiS.

Em relação aos apoios do governo, Patrícia Paixão considera que é preciso fazer muito mais. “Apesar de as pessoas das artes estarem habituadas a lidar com o ‘não’ e com a falta de apoios, a necessidade de fazer é tão grande que acabamos por avançar mesmo contra todas as adversidades. Ainda assim, acho que somos demasiado permissivos e esquecemo-nos dos nossos direitos, como trabalhadores de qualquer área. E o facto de, neste momento, os apoios do Estado estarem a ser feitos através de concurso não me parece que seja a forma mais adequada, porque as pessoas já estão tão mal e estar a colocar companhias em concurso não faz muito sentido”, sublinha.

“A Paz Perpétua”: uma metáfora sobre a condição humana e a liberdade

Mesmo num clima de incerteza, a companhia setubalense continua a trabalhar na estreia da peça “A Paz Perpétua”, em formato online. “O que temos estado a fazer é a bater texto e a manter os aquecimentos, uma vez que este é um teatro muito físico”, explica Graziela.

Patrícia Paixão adianta à NiS que ‘“A Paz Perpétua” pretende mostrar como certas situações de risco e de segurança pública como o terrorismo podem ser usadas como desculpas para o estado fazer leis, que colocam em causa as liberdade e as escolhas dos cidadãos”.

No palco, a metáfora é feita com cães de luta. Basicamente está a ser realizada uma prova para eleger um cão capaz de identificar terroristas. Com tradução de Luísa Monteiro, encenação de José Maria Dias, o elenco conta com as participações de Carlos Pereira, Fábio Nóbrega Vaz, Graziela Dias, Patrícia Paixão, Sara Túbio Costa

Enquanto a peça não estreia, o Teatro Estúdio Fontenova propõe conversas online para discutir tópicos relacionados com o texto. Nestes “Diálogos Imediatos”, a equipa de “A Paz Perpétua” vai escolher um tema que a obra aborda e convidar em cada sessão um especialista na área a aprofundar esse assunto.

 “Conflito Externo e Interno”, “Competitividade e Cooperação”, “Violência e Não Violência”, “O Teatro e a Geografia da Paz”, “Autoritarismo e Agenda Securitária em Nome da Democracia”, “Ética e Estética”, “Soft Power e Hard Power” são alguns dos temas em discussão.

Os streamings decorrem entre os dias 2 de março e 8 de abril, às terças e quintas-feiras, a partir das 17 horas, na página de Facebook do Teatro Estúdio Fontenova. O programa completo será divulgado em breve.

O Teatro Estúdio Fontenova foi fundado em 1984 e já conta com 77 criações artísticas e 22 Festas do Teatro. Atualmente é composto por Graziela Dias (atriz e diretora de produção), José Maria Dias (diretor artístico e técnico), Leonardo Silva (fotografia, vídeo e produção técnica), Eduardo Dias (ator) e Patrícia Paixão (produtora e atriz).

O Teatro Estúdio Fontenova preparava-se no dia 13 de Janeiro para estrear (pela segunda vez) "A Paz Perpétua", de Juan…

Posted by Teatro Estúdio Fontenova on Friday, February 19, 2021

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