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Setúbal dedica mês de março ao teatro com programação exclusiva. Conheça o guia completo

A iniciativa "Comemorar Teatro 2026" traz peças, workshops e formações a vários espaços da cidade, a partir do dia 4.

Março não vai ser apenas mais um mês cultural em Setúbal. Vai ser um manifesto, um gesto coletivo, uma ocupação da cidade pela palavra, pelo corpo, pela memória e pela liberdade. O ciclo “Comemorar Teatro”, promovido pela Câmara Municipal de Setúbal, regressa com uma programação extensa e pensada ao detalhe, espalhada por vários espaços da cidade.

A edição deste ano tem como mote a liberdade e o papel da mulher no teatro, e o programa sublinha essa intenção ao afirmar que o teatro é “um espaço de pensamento, de encontro e de resistência” e que, em 2026, o ciclo coloca “a mulher no centro da criação artística, da memória e da reflexão”.

Também se assinala neste ciclo o 40.º aniversário do Teatro Estúdio Fontenova, “uma estrutura artística de referência, não apenas pela reconhecida qualidade do seu trabalho, mas também pela sua notável resiliência, capacidade de resistência e pela coragem com que aborda temáticas exigentes, frequentemente sensíveis, convocando o público à reflexão crítica e ao questionamento da realidade contemporânea”, referiu Maria das Dores Meira, presidente da autarquia.

Este não será apenas um alinhamento de espetáculos. É um percurso. Ao longo de todo o mês, Setúbal transforma-se num palco múltiplo, com apresentações no Fórum Municipal Luísa Todi, A Gráfica – Centro de Criação Artística, Casa da Cultura, Casa d’Avenida, Cinema Charlot – Auditório Municipal, Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense, Museu do Trabalho Michel Giacometti, escolas e outros espaços da cidade. O teatro sai das salas tradicionais e instala-se onde há comunidade.

Teatro como trincheira: memória, mulheres e resistência

“O Teatro nunca foi apenas entretenimento. É exercício de liberdade e ferramenta de transformação social”, é a ideia que atravessa toda a programação de março, onde a criação contemporânea dialoga com a memória histórica e com as lutas do presente.

O ciclo arranca no dia 4 de março com “O Caminho para a Liberdade”, no Museu do Trabalho Michel Giacometti, que traz à cena as mulheres do Bairro dos Pescadores, inspiradas no poema “A Arte da Palavra”. A peça parte da história real de mulheres que ficaram sozinhas, com filhos pequenos, à espera do regresso dos homens do mar. O espetáculo fala de resistência, de trabalho invisível e de luta por dignidade, assumindo explicitamente que este “caminho é de todas e carrega a eterna luta pela Liberdade”. A entrada é gratuita.

Entre os dias 6 e 8 de março, vai estar em cena “O Marinheiro”, de Piscadur di Letras, na Casa da Cultura — Sala José Afonso. A história é uma adaptação da peça de Fernando Pessoa, escrita em 1913. Nesta versão, a ação passa-se na Guiné-Bissau, onde o foco é a utilização de músicas, cantos e preceitos tradicionais aos quais se junta “um redizer e repensar do teatro estático”. Os bilhetes custam 5€.

A temática feminina volta a entrar em cena em “Vida Doméstica é para os Gatos”, a 8 de março, Dia Internacional da Mulher, no Teatro de Bolso. O espetáculo, agendado para as 16 horas, apresenta oito monólogos, quatro atrizes e coloca em causa “muitas mulheres, de muitas injustiças, de muitas perplexidades”, questionando papéis herdados e desigualdades persistentes. A entrada é livre mediante reserva através do email geral@nulltas.pt ou do contacto 932 563 905.

No dia 9, “Resistência e Liberdade”, de Ana Sofia Paiva, no Instituto Politécnico de Setúbal, reúne vozes femininas que cantam a resistência e transformam silêncio em força coletiva. Já “Penélope, Helena e Outras Mulheres”, um teatro narrativo apresentado a 24 de março, na Escola Secundária Sebastião da Gama, revisita mitos gregos a partir de um olhar feminista contemporâneo.

O teatro surge aqui como espaço de reinterpretação da História e de reescrita simbólica das narrativas que moldaram gerações.

Estreias e criações contemporâneas que interrogam o presente

Março traz também várias estreias e criações originais. “Nos Mares do Fim do Mundo”, do Teatro Estúdio Fontenova, sobe ao palco do Fórum Municipal Luísa Todi entre 13 e 22 de março. A dramaturgia parte das obras “Nos Mares do Fim do Mundo” e “Lugre”, de Bernardo Santareno, explorando o universo marítimo e “a solidão em terra e a solidão no mar”, num ambiente onde as mulheres voltam a ocupar um lugar central. Os bilhetes estão à venda por 8€, sendo que estudantes, desempregados, menores de 25 anos, maiores de 65 anos e profissionais do espetáculo podem obter bilhetes por 6€.

Já “Vaga Luz”, do UMCOLETIVO, apresentado a 14 e 15 de março em A Gráfica, mergulha na obra de Fiama Hasse Pais Brandão e convoca “os fantasmas de um teatro-futuro que Fiama pressentiu, mas não chegou a erguer”. A peça assume-se como uma exploração de identidade e memória, cruzando arquivo, texto e presença. A entrada é gratuita mediante reserva através do email dicul@nullmun-setubal.pt.

“Em Alto Mar”, do Teatro Animação de Setúbal, estreia a 26 de março e fica em cena até dia 28, apresentando uma sátira mordaz sobre poder, manipulação e democracia. Através de um jogo político num bote salva-vidas, questiona-se até que ponto a sobrevivência e a autoridade moldam comportamentos humanos. Os bilhetes estão à venda através da Bilheteira Online.

No dia 27, “Uma Brancura Luminosa”, com Ricardo Pereira e Sandra Barata Belo, adapta o texto de Jon Fosse, Prémio Nobel da Literatura, e convida o público a entrar num território existencial onde passado e presente se confundem. São propostas muito diferentes, mas todas partilham a vontade de provocar, interrogar e abrir espaço ao pensamento crítico.

Teatro para todas as idades: infância, escola e comunidade

O ciclo não esquece o público mais jovem. “As Coisas e o Som”, de Ana Raquel, apresentado a 20 e 21 de março na Casa d’Avenida, é um espetáculo-oficina para miúdos a partir dos quatro anos e famílias. Parte da memória da casa da avó e explora o som como elemento de descoberta sensorial e afetiva. Os bilhetes custam 10€ para duas pessoas, mediante reserva através do email dicul@nullmun-setubal.pt.

A 28 de março, às 11 horas, na Casa da Cultura, “Os Piores Contos do Mundo… Recarregados”, por Rodolfo Castro, assume-se como uma versão renovada de um espetáculo de contos provocadores, num registo que mistura humor, imaginação e literatura universal. Os bilhetes custam 5€.

No dia 31, “Mil e Uma Noites”, do UMCOLETIVO, ocupa o rooftop do Fórum Municipal Luísa Todi com teatro radiofónico inspirado na tradição oral portuguesa. Com duas sessões (uma às 15 horas, exclusiva para escolas, e outra às 21 horas, para o público em geral), o projeto de longa duração resgata do esquecimento a obra de mulheres portuguesas do século XX. Os bilhetes custam 5€.

Há ainda espetáculos em escolas, sessões para alunos e uma forte ligação ao programa “O Teatro Vai à Escola”, reforçando a ideia de que o teatro é ferramenta pedagógica e instrumento de formação crítica.

Formação, reflexão e celebração de percursos

O mês inclui também workshops e momentos formativos. A 4 de março, o RAIA Laboratório Criativo promove “Identidade e Memória”, explorando a ligação entre prática artística e transformação coletiva. Estão previstas sessões de 90 minutos para alunos da Escola Secundária D. João II, com o objetivo de promover a cidadania ativa, a escuta empática e a reflexão coletiva.

A 14 e 15 de março, das 10 às 16 horas, Lídia Franco orienta um workshop de teatro na Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense, focado em técnica de ator, voz, improvisação e construção de personagem. Os bilhetes custam 10€ na Bilheteira Online.

No dia 25, Joana Reis conduz uma formação sobre Arte, Deficiência e Gestão Cultural, debatendo inclusão e acessibilidade nos espaços culturais, na Casa da Cultura. Os bilhetes custam 20€, para o público em geral, e 15€ para profissionais do espetáculo, maiores de 65 e reformados, menores de 25 e estudantes e pessoas com deficiência. As inscrições podem ser feitas através do e-mail. teatroestudiofontenova@nullgmail.com

E a 27 de março, Dia Mundial do Teatro, celebra-se o lançamento do catálogo dos 40 anos do Teatro Estúdio Fontenova, na Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense, num momento de balanço histórico e partilha de memória coletiva. A entrada é livre.

Mais do que uma proposta cultural, o ciclo é um posicionamento. Setúbal afirma o teatro como lugar de liberdade, reflexão e comunidade, e, num tempo em que a rapidez domina quase tudo, março convida a parar, sentar, ouvir e sentir.

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