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“Pôr do Sol”: segunda temporada estreia em agosto (e vai ter mais episódios)

A NiT falou com o argumentista Henrique Dias, que explica que desta vez decidiram arriscar mais com as piadas.
Gabriela Barros interpreta uma das protagonistas.

Um ano depois da estreia do fenómeno televisivo “Pôr do Sol”, a série que satiriza as novelas regressa à RTP1 a partir de agosto. Ao todo serão 20 episódios, transmitidos aos dias úteis à noite — que estão a ser editados neste momento, adiantou à NiT um dos criadores do projeto, o argumentista Henrique Dias.

“Pôr do Sol” chegou também neste mês de junho à Netflix Portugal, onde tem obtido bons resultados e alcançado novos públicos. Toda esta expetativa — bem como o “nível acima” de toda a produção — faz com que a segunda temporada seja muito mais esperada. Leia a entrevista da NiT com Henrique Dias.

Como surgiu a oportunidade de “Pôr do Sol” ir para a Netflix?
Já sabíamos disto há algum tempo, tínhamos de estar calados, mas foi fantástico. Ainda por cima, o bom disto foi o facto de ter estado 16 dias — e continua a fazer bons resultados — no top 10 das séries na Netflix. Depois de ter sido um sucesso na RTP, de ter sido a série mais vista de sempre na RTP Play, conseguir estar 16 dias no top 10 da Netflix em Portugal é uma coisa completamente absurda [risos]. Continuamos sempre a ficar espantados com o sucesso que isto tem. Apesar de gostarmos, é uma coisa que nos ultrapassa e ficamos surpreendidos. 

E significa que, além de quem viu a série na RTP, há pessoas que só agora a veem na Netflix.
Há o fenómeno de aquilo ter ido para o ar em agosto, o que fez com que muitas pessoas vissem depois na RTP Play e daí ter-se tornado também a série mais vista de sempre lá. E na Netflix há esse fenómeno que estavas a dizer… Hoje em dia é completamente diferente o público das plataformas e o da televisão linear. Então houve um público que descobriu o “Pôr do Sol”, e ainda houve um público que viu aquilo pela segunda vez, que é uma coisa [risos]… Para nós é incrível, ficamos contentíssimos, mas ao mesmo tempo é estranho.

No ano passado, quando estreou, apareceram de imediato todas aquelas reações, o burburinho nas redes sociais, muito no Twitter. Agora, com a Netflix, também sentiram algum impacto desse género? Ou tem sido mais silencioso?
É diferente porque é outro público. E aquele grande buzz já foi. Mas é como te digo, o facto de estar nas séries mais vistas da Netflix ao lado de “Peaky Blinders” ou “Stranger Things”, é muito estranho [risos]. O que isto tem de muito bom é para a segunda temporada. A Netflix conseguiu que isto chegasse a um público que não tinha visto no linear e provavelmente isto será bom para a segunda temporada. Ou seja, há um leque maior de pessoas que já conhece o “Pôr do Sol”.

Diria que as pessoas que descobriram o “Pôr do Sol” na Netflix são mais jovens?
Sim, acho que sim. Não tem a ver com o nosso produto. Naturalmente, a televisão linear funciona para um público mais velho e as plataformas para um público mais novo. Quem tem filhos e está em casa à hora de jantar, já estamos naquela coisa quase clássica de que o pai ainda é capaz de ver o noticiário, se vir, e os miúdos estão nos tablets e nos computadores, se calhar a ver uma série. Muito raramente passam pela televisão. De vez em quando há umas coisas que os fazem ver, mas é raro. Já não é como dantes em que havia a família toda sentada a ver. O “Pôr do Sol” trouxe isso um bocadinho, mas acho que a coisa nunca vai acontecer como há uns anos. E não tenho nada contra isso. Acho que essa estratificação de públicos é normal e temos que nos adaptar aos novos meios, nada vai extinguir nada. Ou seja, as plataformas de streaming não vão acabar com a televisão ou o cinema, vão segmentar públicos e cada vez mais as coisas vão ser mais direcionadas.

E, no caso do “Pôr do Sol” que pode ser vista em diferentes plataformas, quanto mais as pessoas virem, melhor.
Claro, exatamente. Para quem escreve, para quem realiza, para quem produz e interpreta, são sempre boas notícias. São mais formas de chegares às pessoas. Na verdade é para isso que trabalhamos, para chegar às pessoas.

E, de certeza, quando começaram a imaginar este projeto — que por si só já era bastante fora da caixa na RTP —, nunca pensaram que estaria agora na Netflix. Deve ser uma jornada meio surreal.
É muito surreal, mas eu, o Manuel [Pureza], o Rui [Melo] e a Andreia [Esteves] estamos fartos de dizer a mesma coisa sempre que falamos entre nós. Que nada disto teria acontecido sem a aposta do José Fragoso e da RTP. Ou seja, a importância de um canal de serviço público notou-se aqui. Porque isto era um projeto em que as televisões privadas não arriscariam. E o facto de a RTP ter arriscado é que permitiu todo este crescimento. Imagina que chegaríamos à SIC ou à TVI com uma segunda ou uma terceira temporada, provavelmente até aceitariam, mas isso só aconteceria porque a RTP investiu no início. Este trabalho da RTP é muitíssimo importante, principalmente por causa deste tipo de conteúdos um bocadinho mais disruptivos, para um público diferente. Porque as televisões privadas funcionam com uma lógica comercial, não tenho nada contra, têm de funcionar nessa lógica mais abrangente. Mas cada vez mais o público está a mudar. E a partir do momento em que começámos a ver conteúdos nas plataformas, tornámo-nos mais exigentes e a querer outro tipo de conteúdos, mais atuais e apelativos. Acho que a RTP é o único que em Portugal o está a fazer: os outros continuam a fazer aquelas coisas seguras porque é o negócio deles.

Esta mudança de paradigma é boa para um argumentista?
É bom para produtores, realizadores, atores, argumentistas… Nunca foi tão aliciante ser argumentista como é hoje em Portugal. E já estou nisto há alguns anos, desde 1998, para aí. Tens uma série de meios para chegar às pessoas que, quando comecei, não havia. Tinhas três canais e pouco mais. Ou seja, tudo o resto era muito marginal. Agora, tens imensas formas de chegar às pessoas. E há outra coisa: se acertares num jackpot, podes chegar não só a Portugal, mas ao mundo inteiro. Que era uma coisa que nem sequer imaginavas. Mesmo os grandes sucessos da altura, o “Herman Enciclopédia” e essas coisas que foram — e ainda são — brilhantes, nunca houve uma tentativa de se pensar que poderia ser internacionalizado. E hoje em dia, com os bons produtos, as pessoas já pensam nisso. Existe esse sonho e ainda bem. É um motor para todos nós que trabalhamos nisto.

O “Pôr do Sol” também tem essas características? Ou por ser uma sátira às novelas portuguesas acaba por ser um projeto de natureza mais nacional?
Tem muitas piadas portuguesas, mas pelo facto de ser uma sátira à novela ganhas um mercado gigantesco que é o sul-americano. Isso tudo terá que ver com as métricas que a Netflix vai fazer agora dos resultados. Eles é que tomarão alguma decisão, já nos ultrapassa e não foi nada a pensar nisso que fizemos isto. Aliás, quando partes para uma coisa a pensar no mercado internacional, estás condenado. Vês as séries que chegam a um mercado mais abrangente, como o “Squid Game”, e são feitas numa lógica muito local. Aquilo é profundamente coreano. Sabes aquele fenómeno das bandas de música, quando querem cantar em inglês para se internacionalizarem? E depois quem consegue são os Madredeus, a Mariza… São os músicos profundamente portugueses que conseguem. E os que cantam em inglês…

Muitas vezes ficam vistos como uma cópia de outras coisas.
Exatamente. Acho que podem ter esse sonho, obviamente, e é legítimo e qualquer pessoa que trabalha no meio provavelmente o terá, mas sentares-te a um computador e achares que é para o mercado internacional, não faz sentido e é uma receita para o desastre.

Sei que não pode desvendar nada sobre a segunda temporada, mas da última vez que falámos explicou que, desta vez, poderiam arriscar um pouco mais em termos criativos — uma vez que já existe um público que compreende o que é “Pôr do Sol”. Isso concretizou-se?
Sim, sim. Eu já estou mais à vontade a escrever, o Roberto [Pereira] também se juntou a mim mais ativamente e estamos os dois muito mais por dentro do produto, os atores estão mais dentro das personagens, o Manuel também já perdeu aquele medo — que todos tínhamos no início — sobre se aquilo vai resultar, do “será que as pessoas vão compreender?”. Todos nós estamos mais libertos e isso deu-me coragem para arriscarmos mais. Os espectadores percebem o código, o medo que tínhamos de que não iam perceber não aconteceu, porque as pessoas perceberam e gostaram, portanto vamos dar um bocadinho mais. Não seremos tão cautelosos.

Chegaram a receber reações de pessoas que não perceberam o “Pôr do Sol”?
Não, não, mas era o nosso medo. Quando estávamos a filmar, ia tendo esse feedback porque normalmente à noite juntávamo-nos numa conversa de Zoom, víamos as cenas e íamos acompanhando o processo. E eu ria-me, achava imensa graça, mas ficava sempre com dúvidas. Será que as pessoas vão apanhar? Isto é um humor tão ao lado, já não se faz isto em Portugal desde o “Herman Enciclopédia” ou “O Tal Canal”, são as últimas coisas de que me lembro onde se fazia non sense, e o Manel sentia isso durante as filmagens. Toda a gente se ria — os atores, os técnicos — mas a seguir a reação era “mas será que as pessoas vão perceber?” [risos]. O que é estranho, porque tu rias-te.

Desta vez, acompanhou mais as gravações?
Um bocadinho mais do que a outra vez. Na primeira temporada estava a escrever outra coisa ao mesmo tempo e agora acompanhei um bocadinho mais. Mas mesmo assim é muito difícil. Fui lá umas quantas vezes. Mas a partir do momento em que os guiões são entregues e discutidos entre nós, há um consenso, e a partir daí passas um bocadinho a bola a quem lá está. Passa a ser o Manuel a voz hierárquica. Mas quase todas as noites falávamos sobre questões do dia a seguir. Mas desta vez fiz questão de ir à Herdade do Pôr do Sol [risos].

Era o mínimo [risos].
Sim, e é uma coisa muito estranha entrares ali e veres aquilo [risos]. Estranho e bom. E fui à Madragoa também, mas a esse já tinha ido, e fui ver os Jesus Quisto. Fiz questão de ir aos sítios emblemáticos e aos vários núcleos. Foi um prazer estar lá.

E o prazer de escrever uma segunda temporada é também reforçado e diferente em relação a escrever uma série do início?
Não, não foi prazer… Foi um medo descomunal. Andei a procrastinar umas duas semanas no início. Tinha marcado um prazo, vou começar a escrever no dia X, e ia dizendo “começo amanhã”, “ainda tenho tempo”. E depois percebi, a certa altura, que estava com medo. É aquele medo do segundo álbum. Fazes um álbum muito bom, a malta gosta, e depois o segundo? Estás sempre naquela expetativa. E esse medo assolou-me muito no início. Depois, quando comecei a escrever, tive ali os primeiros dois e três episódios super vigilante daquilo que escrevia — com o Roberto também. A partir de certa altura começas a perceber e a ganhar confiança e começa a ser divertido e prazeroso. Mas o início é muito assustador.

Neste momento, está confiante?
O “confiante” é uma palavra estranha para quem faz o que faço. Estou feliz com aquilo que fiz. Agora, a confiança é diferente. Isto é uma roleta, nunca se sabe o que vai acontecer e isso é que é interessante. Fazes uma coisa de que não estás à espera como o “Pôr do Sol” e de repente é um sucesso. E fazes uma coisa que toda a gente diz que vai ser um sucesso e corre muito mal [risos], é típico. Mas acho que na segunda temporada o trabalho de toda a gente subiu tremendamente de nível. A direção de fotografia está excelente, os atores estão muito bem, o Manuel teve uma liberdade completamente diferente e tentou arriscar fazer outras coisas, que estão muito giras.

Qual é que diria que é a principal diferença da primeira para a segunda temporada?
Não digo isto para tentar fugir à pergunta, mas é claramente o arriscar um bocadinho mais que marca esta segunda temporada. E, depois, acho que não estou a cometer nenhuma inconfidência: vocês perceberam pelo final da primeira temporada que havia uma personagem que se pensava que tinha morrido mas não morreu, e vai fazer um caminho muito interessante. 

Há também novas personagens e núcleos?
Há novas personagens, sim, que quisemos ter. E vão surgir novas relações entre eles.

Neste momento, está expectante em relação à estreia?
Neste momento, estou expectante a ver os episódios a serem editados e a ver como é que a coisa está a crescer — estou nessa expetativa. Quando tiverem todos vai começar a expetativa de “nunca mais chega o dia de estrear isto”.

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