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“Peixe Pó Gato”: exposição que nasce de histórias reais sobre fome chega a Setúbal

A mostra que vai estar patente n'A Gráfica dá continuidade a um projeto artístico que já percorreu as ruas da cidade.

Setúbal prepara-se para receber uma exposição que não vai deixar ninguém indiferente. “Peixe Pó Gato” não é apenas um projeto artístico, é um mergulho na memória coletiva da cidade, onde histórias de fome, vergonha e resistência ganham forma através da arte.

Depois de uma estreia em formato itinerante pelas ruas, no passado dia 18 de abril, o projeto ganha um novo espaço, mais íntimo e reflexivo, onde o público é convidado a parar, olhar e sentir.

O projeto “Peixe Pó Gato” parte de uma expressão enraizada na história local de Setúbal. Durante décadas, era assim que muitas pessoas pediam peixe no mercado, de forma discreta, quase sussurrada, justificando que o peixe era para o animal de estimação, de forma a esconder uma realidade dura: a fome.

Esta memória serve de ponto de partida para um trabalho artístico que cruza diferentes disciplinas e linguagens. Com direção artística de Leonardo Silva e dramaturgia assinada em conjunto com Patrícia Paixão, o projeto constrói-se a partir de investigação histórica e testemunhos reais.

O resultado é uma narrativa que não romantiza o passado, mas também não o ignora. Pelo contrário, confronta o público com a pobreza vivida e escondida nas entrelinhas do quotidiano, que, muitas vezes, foi silenciada.

A exposição surge como uma extensão natural desse trabalho. Depois de ocupar o espaço público e envolver a cidade numa caminhada performativa, instala-se agora num ambiente que permite uma leitura mais demorada e introspectiva.

Uma experiência artística que cruza disciplinas e emoções

Antes de chegar à galeria, “Peixe Pó Gato” apresentou-se como espetáculo itinerante, com início no Largo da Misericórdia e percurso até à A Gráfica – Centro de Criação Artística. A caminhada performativa convidou o público a percorrer a cidade, enquanto refletia sobre temas como desigualdade, privação, resistência e dignidade humana.

A componente musical teve um papel central, com composição de João Mota (Et toi Michel) e Tozé Bexiga (Raia), numa fusão que reforça a dimensão emocional do projeto. Na rua juntaram-se intérpretes como Carlos Pereira, Gonçalo Poeiras, Graziela Dias, Inês Oliveira e Sara Túbio Costa, acompanhados pelas Vozes da União e pela Banda da Capricho Setubalense.

Agora, na exposição, essa multiplicidade de linguagens mantém-se. A ideia não é apenas mostrar, mas envolver. Não é apenas observar, mas sentir. Cada elemento foi pensado para prolongar a experiência e aprofundar a reflexão iniciada no espetáculo.

Uma exposição para ver devagar (e sentir ainda mais)

A exposição “Peixe Pó Gato” é inaugurada a 9 de maio, às 16 horas, na A Gráfica – Centro de Criação Artística, onde ficará patente até 6 de junho. O espaço, já conhecido por acolher projetos contemporâneos e experimentais, transforma-se num ponto de encontro entre arte, história e comunidade. Aqui, o público poderá revisitar os temas do espetáculo num formato mais contemplativo.

A visita pode ser feita de segunda a sexta-feira, entre as 15 e as 17 horas, e ao sábado, das 15 às 19 horas. Um horário que convida a uma pausa para absorver cada detalhe. Mais do que uma exposição, trata-se de um convite à memória individual e coletiva. Ao que foi vivido, mas muitas vezes não contado.

Ainda assim, “Peixe Pó Gato” não termina na exposição. O projeto inclui o lançamento de um livro, previsto para junho, que reúne a dramaturgia e a investigação desenvolvida ao longo do processo. Esta continuidade reforça a dimensão documental e artística do trabalho, garantindo que as histórias recolhidas não se perdem, mas permanecem acessíveis e partilháveis.

A iniciativa é da associação Dar Cor à Vida, em parceria com o Teatro Estúdio Fontenova, e conta com financiamento da DGArtes e da Câmara Municipal de Setúbal, além do apoio de instituições locais e académicas.

Num tempo em que muitas histórias se perdem na velocidade do presente, “Peixe Pó Gato” faz exatamente o contrário: abranda, escuta e devolve à cidade uma parte da sua própria identidade.

Carregue na galeria para ver algumas imagens do espetáculo itinerante do projeto.

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