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Pedro Monchique: uma entrevista de vida ao emblemático DJ setubalense

Tem 41 anos mas uma carreira de quase 30. E um sem número de histórias para contar.
Foto de Sousa Fotografia.

O final de tarde estava ameno e a pedir que a conversa fosse numa esplanada, mas não podíamos correr o risco de sermos interrompidos demasiadas vezes. Afinal, a New In Setúbal preparava-se para entrevistar Pedro Monchique, o DJ mais conhecido de Setúbal.

Mesmo no canto mais confortável do Moscatel de Setúbal Experience parámos algumas vezes para que este homem, que põe toda a gente a dançar há quase 30 anos, pudesse cumprimentar quem por ali passava.

Durante mais de duas horas Pedro Monchique relembrou o gira-discos oferecido pelo avô Luís, os planos que a avó Isabel tinha para ele e o amor incondicional que o une a Lina há 25 anos. Contou-nos também como fez todo o seu percurso profissional e como nem sempre as coisas foram fáceis — mas soube dar a volta por cima.

Neste momento, Pedro Monchique é DJ residente do Absurdo, organiza as festas de barco Ballet (que esgotam nos primeiros dias) e marca presença em várias festas por todo o País. É, também, desde quinta-feira, 26 de setembro, Embaixador de Setúbal. 

À New in Setúbal deu uma entrevista de vida. Leia-a a seguir.

Quando e onde é que nasceu?
Nasci a 3 de abril de 1978 no ‘ainda’ hospital de São Bernardo de Setúbal, na maternidade antiga. Fui um caso difícil porque nasci grandalhão, com cinco quilos e 100 gramas.

Quando pensa na sua infância, qual é a primeira memória?
Fui desde sempre criado pelos meus avós Luís e Isabel. Lembro-me automaticamente do gira-discos que o meu avô me ofereceu, tinha eu cerca de quatro anos. O primeiro disco que recebi para ouvir era do Marco Paulo, o saudoso disco de ouro de Marco Paulo que tinha sucessos como “Eu Tenho Dois Amores”. Recordo-me de ouvir aquilo durante o dia inteiro. O meu avô era carpinteiro e fez uma caixa em madeira toda bonita que pôs à volta do gira-discos. Eu passava horas de volta daquilo.

Em casa?
A minha avó era costureira e tinha um atelier na rua da Palhavã. Passava lá os dias com ela e levava-o. Ela dizia-me que as clientes gostavam de viver muitos anos para poderem ver no que é que ia dar esta minha paixão pela música. Hoje em dia, as crianças com quatro anos já passam a vida agarrados aos telemóveis e computadores, eu só queria o meu gira-discos.

Entretanto entrou para a primária aos seis anos e começou a partilhar os dias com outras crianças. Mostrou-lhes logo essa paixão pela música?
Quando entrei na primária aconteceu uma situação muito curiosa. Nasci só com três dedos na mão esquerda e isso sempre foi natural para mim. Mas naquela atura tudo mudou e fui completamente castigado por não ter a mão igual a todos os outros. Nunca mais me esqueço do episódio em que a professora nos pediu para desenhar a mão esquerda. Levantei-me e fui perguntar se podia desenhar a direita. Ela quando percebeu o porquê esteve a chorar o intervalo todo. A partir daquele momento passei a ser conhecido pelo ‘três dedos’ e aquilo não me fez bem. Não estava habituado àquele bullying, achava totalmente normal ser assim. Acabei por me fechar e a minha avó teve de ir inclusive lá à escola.

De repente, o menino que era conhecido no bairro como alegre e apaixonado por música retraiu-se…
Exato. Continuei sempre a ouvir muita música, inclusive porque o meu pai também sempre esteve ligado a essa área. Foi vocalista da banda Contágio no final dos anos 70 e tinha muito sucesso aqui na cidade. Depois foi DJ numa discoteca conhecida, a Ostra, que atualmente é o Palmo e Meio, um infantário. Mas o facto de me darem aquela alcunha não me fez nada bem.

Quando é que conseguiu dar a volta à situação?
Quando cheguei ao quinto ano fui para a preparatória do Bocage e mudou tudo. Deu o click àquele menino bem comportadinho. A situação dos três dedos passou a ser diferente. A malta começou a olhar para mim e a chamar-me ‘E.T.’, que era a personagem científica da altura.

Aproveitou-se disso?
Acho que sim, acho que sim. Ele tinha a mão muito semelhante à minha e era muito conhecido na altura. Então, deixei de levar a mal e comecei a ver aquilo como algo positivo. Aliás, ainda hoje quando encontro alguns colegas daquele tempo chamam-me por essa alcunha. 

Nessa altura, como é que incluía a música na sua vida de adolescente?
Eu era viciado no “Top+”, uma rubrica que dava aos domingos à hora do almoço. Depois apareceu um programa alemão que era o “Peter’s Pop Show” e eu vi todos. Não havia televisão por cabo, por isso estávamos restringidos àquilo que a RTP nos dava. Quando apareceu a “MTV” por cabo ia para a casa dos amigos que tinham antena parabólica. Lembro-me dos videoclipes da Samanta Fox, da Sabrina, dos Video Kids.

Continuava a ouvir os gira-discos todos os dias?
Entretanto, os meus avós perceberam que a música estava cada vez mais presente na minha vida e ofereceram-me a minha primeira aparelhagem no Natal. Nessa altura, comecei a fazer uma coleção de CD. Mas a minha avó não concordava muito com tudo isto.

Tinha medo do quê?
Ela já tinha um mau exemplo em casa. O meu pai também tinha optado pela música, quando os amigos deles eram todos doutores e engenheiros. Acho que a minha avó queria que eu fosse aquilo que o filho não tinha sido e já estava a ver-me escapar-lhe. Mas por outro lado sabia que tinha de me dar aquela aparelhagem.

Onde é que a guardou?
Estava no meu quarto sempre. Eu acordava a ouvir música, deitava-me a ouvir música, o pouco que estudava era a ouvir música. Ela estava presente nos momentos bons e maus.

Qual é que foi o primeiro CD que comprou?
Foi a banda sonora do “James Bond”.

Quanto é que custou?
Bem, na altura foram cerca de três contos. Estamos a falar em 1992/93.

E na escola, os seus amigos sabiam deste gosto pela música?
Sim, sim. Nessa altura começo a dar nas vistas nas listas para as associações de estudantes. Havia aqueles grupos que eram os mais conhecidos, que andavam com os blusões da Duffy e calças da El Charro e eu era um puto mais simples. Tinha os meus jeans e uns ténis All Star, mas mesmo assim comecei a dar nas vistas, a entrar no meio da malta e a pôr umas musiquinhas nos intervalos. Dividia-me entre as listas porque não havia confusões, era tudo saudável, a malta divertia-se.

Naquela altura já sabia que ser DJ ia ser a sua profissão?
Não, não. Além da música, eu gostava muito de jogar à bola. Era miúdo e não pensava muito no futuro. A minha vida era andar na escola, ouvir música e jogar futebol perto do café da minha outra avó, no bairro Santos Nicolau. Tive ali uma juventude muito feliz, foi lá que fiz o meu verdadeiro grupo de amigos. Aliás, foi lá, no café da minha avó, que percebi que a música ia fazer para sempre parte da minha vida.

Como assim?
No verão eu e os meus amigos tínhamos muitas coisas para fazer ao ar livre. Mas depois chegava o inverno e era sempre a mesma pergunta: ‘onde é que nos reunimos?’. O café da minha avó tinha uma cave ampla que não usava e que em tempos tinha sido um sítio onde a malta se reunia para fazer festas de Carnaval. Aliás, ainda lá estava a bola de espelhos. Então, perguntei-lhe se podíamos ficar com aquele espaço. Íamos juntar dinheiro para comprar o material para as remodelações e ela aceitou. Aos 15 anos juntei os meus amigos todos, fizemos umas obras à cave, comprámos um sistema de luzes e uma mesa de mistura e demos-lhe o nome de ‘Underground’. Começámos a reunir lá a malta a partir de setembro de 1993. 

O que é que faziam lá?
Havia malta de todo o lado. Fazíamos lá as chamadas festas de garagem e eu punha música o dia todo. Aí sim, comecei a perceber que era a sério. A malta gostava do que ouvia, ia lá de propósito para isso. 

Nessa altura já tinha algum material de som, mas não tinha tirado nenhum curso sobre isso…
À partida não sabia mexer em nada, era um universo completamente novo para mim. Acontece que eu já ia, com 15 anos, às discotecas com os meus pais. Ia muito à Cubata e observava o que os DJ faziam. Aliás, aquelas mesas também não davam para fazer o que se faz agora. Aprendi a brincar com aquilo porque passava ali dias e dias.

Mas continuava na escola?
Sim, sim. Aliás, fizemos lá a festa de Passagem de Ano, depois voltei para a escola e ia para lá aos fins de semana. No verão de 1994 já não consegui passar lá muito tempo.

Então, o que mudou?
Tinha um amigo do bairro Santos que trabalhava em Tróia. Na época, a Torralta passava uma fase muito complicada de ordenados em atraso. Então, a empresa abriu a possibilidade dos colaboradores recuperarem grande parte do dinheiro através de concessões. Eles abriram espaços que tinham fechados para que os funcionários os gerissem e ficassem com o lucro. Esse meu amigo ficou com um bar lá, o Scotch, e lembrou-se de levarmos para lá toda a dinâmica que tínhamos no Underground. Achei super divertido e sabia que muita gente me ia ficar a conhecer, mas sabia que a minha avó não me ia deixar fazer isso porque eu só tinha 16 anos. A solução foi convidar o meu pai para ir comigo gerir o espaço. Ele estava desempregado e aceitou. Lá fomos…

E como é que correu essa nova fase?
Começámos no Scotch Bar em maio e ficámos até setembro. Em julho, quando me apercebo que o DJ era o centro das atenções de qualquer sítio comecei logo a pensar em não voltar à escola. A noite que se vivia naqueles tempos era muito diferente da de agora.

Como é que era?
Nem tenho palavras para qualificar. Naquela altura vivia-se a noite, as pessoas saiam para se divertirem. O homem não saía para engatar, a mulher não saía para engatar, nada disso. As pessoas, sobretudo, vestiam-se a rigor para sair à noite. Agora não. A partir do momento em que eu vejo um gajo a entrar de jeans e chinelos de praia numa casa, para mim, enfim.

Trabalhava todos os dias?
Foi naquele verão, aos 16 anos, que eu ganhei estas olheiras. Posso dizer que em três meses dormi 72 horas. Praticamente havia semanas que de quarta a domingo não dormia. 

O bar estava aberto todo o dia?
Não, não. Abríamos às 18 horas e fechávamos às três da manhã. Só que Tróia naquela altura tinha uma grande vida. Tinha uma empresa que trazia do mercado nórdico, da Finlândia, Suécia, Noruega, Islândia muitos turistas. Todas as semanas Tróia tinha entre 10 a 15 mil turistas. Aquilo estava sempre, sempre cheio. Passava-se tudo em Tróia.

Nessa altura achou que já estava a fazer o caminho para o seu futuro profissional?
Bem, eu tinha 16 anos. Também queria conhecer raparigas e dar muitos beijinhos na boca [risos]. Mas claro que deu-se o click e percebi que aquilo estava a começar a dar frutos. Que o meu caminho podia ser por ali.

Mas entretanto chega setembro e o fim da concessão…
Exato e o bar tinha de fechar. Só que apaixonei-me por uma rapariga filha de um GNR de lá e acabei por ficar lá. Ia e vinha para Setúbal todos os dias. Comecei a trabalhar a servir às mesas com ela. Foi o meu primeiro namoro a sério. Fiquei lá o ano todo de 1995. Ia pondo música em casa de amigos de lá aos fins de semana. Eles sabiam que eu tinha muitos CD e convidavam-me. Até que o namoro acabou e vim embora para Setúbal.

Sem namorada, mas com os CD, espero.
Sim, claro [risos]. Nessa altura, o meu pai teve uma conversa comigo e perguntou-me se queria dar seguimento à minha vida como DJ. Respondi-lhe logo que sim, que gostava. Então, consegui arranjar trabalho num bar que era o Ideia Fixa, na Avenida Jaime Cortesão, onde agora é uma casa de meninas, o Filipinas. Aquilo era muito giro, tinha uma esplanada brutal. Comecei por ir lá pôr umas músicas, eles gostaram e fiquei lá. 

Esse trabalho era todos os dias? Quanto é que ganhava por noite.
Não, não. Era à sexta e ao sábado. Ganhava entre dois a quatro contos por noite, dependia da faturação. Estive lá uns bons meses. Entretanto as pessoas começaram a conhecer-me, a falarem de mim e comecei a ter outros objetivos. Naquela altura, estava a haver o boom dos bares em Setúbal, eles estavam no auge. Havia o Postigo da Pedra, o Aldrabar, o Absurdo, a Coluna Lilás, o ADN, tudo casas porreiras. E claro que comecei a pensar que gostava de trabalhar na avenida. As pessoas iam para o Ideia Fixa das nove à meia-noite e depois iam para baixo e o bar ficava com pouca gente. Então, comecei a pensar numa forma de chegar ao centro da noite setubalense.

E o que é que fez para consegui-lo?
Mais uma vez recorri ao meu pai que era muito bon vivant e dava-se muito bem com toda a gente em Setúbal. Um dia, perguntei-lhe se ele não conhecia alguém que estivesse à procura de um gajo para pôr música e ele disse-me que íamos dar umas voltas até aos bares para ver o que se arranjava.

Demorou muito até arranjar?
Houve um fim de semana que entrei com ele num bar, o Hardurio, e o meu pai, quando me apresentou, disseram-me logo para ir lá pôr música numa noite.

Como é que podíamos classificar o Hardurio nessa altura?
Era o bar onde toda a gente iniciava a noite na Baixa. Aquilo estava sempre cheio. Depois de lá as pessoas ou iam ao Absurdo, ou para o Aldrabar ou para o Seagull, que ainda estava aberto nessa altura.

Como é que correu essa tal primeira noite a pôr lá música?
Antes de ir, perguntei ao meu pai que género de música é que eu devia passar porque ele ia lá sempre e deu-me duas ou três dicas. Fui bem sucedido e no final do fim de semana o Joaquim Sobrinho, que era o dono, perguntou-me se queria ir para lá. E assim foi. Passei a ser o DJ do Hardurio às sextas, sábados e vésperas de feriados.

Como foi a experiência lá?
Foi brutal. Eu punha música de costas para os clientes, dentro do balcão. Tinha uma mesa de mistura e um sistema de som novo e correu tudo super bem.

Na altura, as pessoas iam ter consigo a pedir músicas?
Não, não era como é agora que chegam lá com o telemóvel, com o Spotify. Eu dava às pessoas aquilo que elas queriam ouvir. Esta foi talvez das residências mais felizes. Já nessa altura era tradição os staff dos outros bares irem lá beber café no início da noite e comecei a dar nas vistas. Lembro-me que o DJ do Aldrabar, o bar da altura, me ter dito: “Epá, puto, tu és daqueles DJ que se faz. Tu sabes, tens leitura, nota-se que gostas daquilo que fazes. Tens de aparecer ali”.

Mais um convite, portanto…
Sim, as coisas começaram a correr bem. Entretanto, saí do Hardurio porque comecei a ser convidado para outras casas. E entre 1997 e 99 também fiz noites no Aldrabar. Tinha a confiança do DJ residente, o Nuno Cruz, para tocar lá e isso para mim foi espetacular. É do género ‘não estás no Real Madrid, mas estás no Benfica, que também é um clube de peso’. Apesar de eu não ser benfiquista, atenção [risos].

Pode dizer-se que estava, finalmente, no centro do mundo setubalense?
Sem dúvida. Já estava na avenida onde toda a gente ia e onde todas as pessoas se conhecem. 

E a escola?
Deixei a escola a meio do décimo ano, mas ainda conheci lá aquela que é hoje a minha mulher, a Lina. Ela era de Algeruz e saía pouco à noite. Às vezes ia comigo e chegou a trabalhar também umas noites no Hardurio. Entretanto, voltámos a estudar os dois porque ela incentivou-me. Fizemos um curso profissional e nessa altura deixei de fazer residências. Ia fazendo algumas festas para poder comprar a minha música e as minhas coisas.

Como é que voltou à noite?
Nessa altura, já estava inserido no meio da noite em Setúbal, por isso deu-me para pensar mais alto e começo a pensar no centro da noite em Portugal, que era o Algarve. Os grandes DJ iam ao Algarve, toda a gente ia ao Algarve. A Páscoa no Algarve enchia as discotecas todos os dias da semana. Agora já não acontece isso. Então, pensei que tinha mesmo de chegar lá.

E como é que chegou?
Através do Zézé Camarinha, por incrível que pareça. A SIC teve um programa, os “Os Acorrentados”, e eu tinha uma amiga que participou, a Magda. Conhecemo-nos no bar Infante Sagres, ela trabalhava lá. O primo dela tinha uma discoteca no Algarve e perguntou-me se queria ir para lá na Páscoa. Disse logo que sim. Entretanto ela disse-me que íamos com um amigo, mas não me disse quem era. Quando dou por mim estou com o Zézé Camarinha. Estou no Algarve a trabalhar na Horta 2, uma casa que já estava numa fase descendente. Fiquei lá a semana da Páscoa, mas depois o dono pediu-me para ficar até ao verão.

Aceitou o convite?
Sim. Ia à sexta-feira para baixo e vinha domingo para cima.

Que música é que passava na altura?
Passava música de dança. A discoteca era muito virada para as festas de house e de techno, para as promotoras de eventos que já existiam no Algarve.

Ficou lá até quando?
Acabei por não ficar muito tempo porque entretanto recebi um convite para vir para Setúbal abrir o KGB. Tinha cerca de 22, 23 anos. Aí sim, percebi que era esta a profissão que ia seguir.

Quanto é que se ganhava nessa altura?
Eu tirava 25 contos por noite. Ou seja, era cerca de 125€. Era muito bem pago. Ganhava 250 contos por mês.

O que é que o KGB significou para a noite de Setúbal?
O KGB pauta, sem dúvida, a noite de Setúbal. Nessa altura, ia muito para Lisboa também para perceber o que se ouvir na capital. E na altura que o KGB aparece, a noite de Setúbal estava a precisar de um espaço para as pessoas se divertirem. O período entre o Seagull explodir e o KGB abrir, as pessoas iam para o Paellas que era engraçadíssimo, com muita música latina. Mas era aquele conceito. O KGB abrir mentalidades na noite de Setúbal, num aspeto muito positivo e noutro negativo.

Quais?
Setúbal ganhou um espaço onde as pessoas se divertiam a sério. Por outro lado foi criado um conceito que acabou um bocado com a noite de Setúbal, que foi a Ladies Night. Nós instituímos isso lá às sextas-feiras. As mulheres pagavam 5€ e tinham cinco bebidas, mas isso rebenta com qualquer casa. Na altura foi muito bom, mas com o tempo tornou-se muito prejudicial porque, por exemplo, agora as pessoas estão sempre a dizer ‘ já paguei duas bebidas, não ofereces qualquer coisa’?.

Lembra-se de algum episódio em especial?
Há um que nunca vou esquecer e é nele que nasce a força da marcha do nosso Vitória de Setúbal. Ela sempre passou na noite de Setúbal, de gerações em gerações. Ouvi a primeira vez na Cubata, em 1991, num Carnaval. O meu patrão do KGB na altura, o Pedro Gamito, disse-me que tínhamos de criar ali qualquer coisa que indicasse às pessoas que a noite ia acabar. Do género ‘quando der aquela música as pessoas sabem que a casa vai fechar e encaminham-se para a caixa para pagar’. Então eu criei uma coisa que apelidaram da ‘Hora da Cinderela’ que começava sempre com a Marcha do Vitória. Depois passava a música “Começar no A” da Ana Malhoa, o “Burrito” do Fernando Correia Marques. Eu fazia ali um mix pimba que as pessoas adoravam. Só que aquilo começou a ganhar uns contornos tão grandes que havia pessoas que vinham de Lisboa só para ouvirem aqueles 10 minutos de pura loucura. Eu baixava o som e via as pessoas cantarem aos altos berros. 

Quanto tempo é que esteve no KGB?
Estive lá quatro anos. Eu vesti mesmo a camisola daquele sítio. Costumamos dizer que ‘quando um barco vai ao fundo, quem não se salva vai atrás’ e eu fui atrás. Fui mesmo atrás. Fui completamente espezinhado pelas pessoas que saiam à noite em Setúbal que, claro, apontaram o dedo ao DJ. Quando uma casa não tem sucesso é fácil apontar o dedo ao DJ. 

Como é que reagiu a esses comentários?
Fui muito abaixo. O KGB fechou em setembro de 2004 e foi das piores fases da minha vida. Estive três meses fechado no meu quarto. A minha mulher é que foi a minha pedra basilar. Eu nem saía do quarto para comer. 

Sentia-se de alguma forma culpado?
Não. Sabia que não era culpado. A casa levou o destino que tinha de levar e tudo tem um fim. Os meus patrões entenderam muito bem porque é que o KGB tinha de fechar. As pessoas de Setúbal é que não compreenderam e achavam que eu tinha culpa. Especularam muito.

Como é que conseguiu dar a volta à situação?
Um dia, a minha mulher chegou ao pé de mim e disse-me que tinha de reagir, que tinha de sair de casa. Se não até a ela acabava por perder. Isto na altura do Natal. 

Quando é que voltou a sair?
Na Passagem de Ano liguei a um amigo, o Luís Carvalho do Comporta Café, e perguntei-lhe se ia fazer festa de final de ano. Contei-lhe, inclusive, o que se tinha passado. Ele convidou-me para ir ter com ele no 31 de dezembro e eu fui.

Como correu esse regresso à noite?
Quando lá cheguei quem é que estava lá a fazer a Passagem do Ano? Grande parte das pessoas que fizeram questão de me apontar o dedo. Muitos deles amigos meus. Não posso dizer que foi mau porque consegui reagir e dar a volta por cima.

Depois disso já não voltou a isolar-se?
Não. Janeiro foi um ponto de viragem e comecei a tentar entrar no mercado da noite novamente. Ia falando com pessoas e ia fazendo coisas fora de Setúbal. Estava traumatizado com a cidade e estive praticamente os dois anos seguintes a trabalhar fora. Ia fazendo festas privadas, casamentos, trabalhei com o Pedro Beato, uma pessoa muito ligada ao Herman José, e estive um verão inteiro na Bolina, em Sesimbra. Aí as minhas performances chegaram a muitos lados, inclusivamente a Setúbal. Nessa altura, a minha mulher tinha engravidado e eu achei que estava na hora de voltar a Setúbal.

E como foi voltar?
O regresso dá-se de uma forma pacífica e inteligente. Comecei por fazer coisas pequenas, mas o meu objetivo era voltar a trabalhar para o meu ex-patrão do KGB. Mas antes tive a trabalhar com o Vítor Gaio, o rei da noite em Setúbal durante alguns tempos, num espaço dele que era o Clube do Rio. Até chegar onde queria, ao Avenue Café.

Como é que foi recebido pelos setubalenses?
Houve quem perguntasse ‘o que é que este gajo está aqui a fazer?’, mas foi tudo diferente. Encontrei uma equipa brutal que me deu um apoio gigante, principalmente o Mané que era o DJ na altura.

E o Absurdo [casa onde Pedro Monchique é DJ residente] como é que entra na sua vida?
O Absurdo abriu em 1988, mas eu nunca tinha lá ido. Quando comecei a trabalhar no Avenue passei a ir ao Absurdo porque assim que o bar fechava as pessoas iam diretamente para lá. O Avenue funcionava como o warm up do Absurdo. E eu acabei por começar a gostar daquilo. Mas não trabalhei logo lá. No Natal de 2008 surgiu o convite para ir inaugurar o RS Dreams, do grupo Remédio Santos, em Corroios. Aí sim, já estamos a falar da Liga dos Campeões da noite. Fiquei no Avenue até esta discoteca abrir e fui para lá, onde estavam os grandes homens da noite. 

Os grandes homens da noite como assim?
Os donos das discotecas com mais sucesso da altura. Isso fez com que começasse a fazer noites em Lisboa, no Art, festas em barcos. Tinha muitos convites. Entretanto, mantive-me no RS Dreams até 2010.

E Setúbal, cabia na agenda?
Nessa altura já fazia as noites académicas de Setúbal também. E começo a ser convidado pelo Absurdo para fazer algumas festas com eles, em 2011. Não só aquelas que eles organizavam noutros sítios, como algumas noites quando o Jovi, o DJ, não estava lá. 

Começou aí um amor para a vida?
Fui logo muito bem recebido, eram espetaculares. E devagarinho comecei a namorar com o Absurdo. 

Ainda no Absurdo antigo?
Exato. No final de 2014 sou confrontado com a notícia de que o bar ia fechar para abrir noutro sítio. Quando eles fizeram a transição de sítio, o Jovi não quis continuar no projeto e eu fui automaticamente convidado para ficar com a residência. É claro que não ia dizer que não. Portanto, o namoro passou a casamento.

Qual foi o dia da “cerimónia”?
Foi a 19 de dezembro de 2014 quando o Absurdo abre no novo espaço que passei a DJ residente do Absurdo.

Como é que agora é uma noite no Absurdo?
É completamente diferente daquilo que era. O Absurdo mudou muito. Cresceu muito, mas não foi fácil. Foi um ano para conseguir fazer crescer esta nova casa, embora estivesse sempre cheia. Uma noite no Absurdo hoje nós conseguimos trabalhar a casa duas vezes. Começamos por receber até às duas da manhã pessoas dos 30 aos 55 anos, algumas acabam por ficar, claro, e depois a partir dessa hora vem uma geração mais nova que já pede outro género musical. Todas as noites faço uma viagem musical muito, muito interessante entre as onze e meia da noite e as quatro da manhã, desde os anos 80 até aos dias que correm.

Continua a fazer outras festas?
Sim, sim, No Absurdo deram-me a liberdade para fazê-lo. Eles são fantásticos e estou à vontade para isso. Felizmente já estou dentro do panorama nacional, já percorro o País de Norte a Sul. Nunca pensei ser tão reconhecido de Viana do Castelo a Vila Real de Santo António. Este verão é que tive mesmo a percepção disso. À parte disso fico muito feliz por ser reconhecido na minha cidade, as pessoas gostam de mim.

Era mesmo aí que queria chegar. Como é que recebeu o convite para ser Embaixador de Setúbal?
Quando vi a primeira edição dos Embaixadores de Setúbal guardei religiosamente uma fotografia que tirei a uma publicação que fiz que dizia o seguinte: ‘Um dia vou fazer parte desta lista porque é um dos grandes objetivos da minha carreira enquanto DJ’. Quando recebi o convite não acreditei. Fiz questão de telefonar a alguém da Câmara para confirmar se era verdade. 

Como é que se sentiu?
Dever cumprido. Em 1997 tive uma conversa com a minha mulher e disse-lhe que um dia ela ia olhar para mim e ia sentir-se orgulhosa de ouvir as pessoas dizerem que eu sou o DJ mais conhecido de Setúbal. E ela agora cada vez que ouve isso fica mesmo orgulhosa. Afinal de contas é a Primeira Dama, não é? [risos].

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