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Os franceses que querem fazer esquecer Daft Punk — e estão em guerra com Bieber

Desvendamos quem são os Justice, uma das bandas eletrónicas mais rock do planeta, que querem arrasar o novo disco do cantor americano.
Conheça a história.

Um era fã de Metallica e chegou a fazer parte de uma banda de post-rock experimental. O outro delirava com hip hop e pop. Juntos e de forma improvável, Gaspard Augé e Xavier de Rosnay formaram uma das bandas de eletrónica mais entusiasmantes da última década. As comparações com os eternos (e agora reformados) Daft Punk não tardaram.

Ambos parisienses e músicos talentosos, percebem-se as semelhanças, mas sobretudo as diferenças. Os Justice, nome da dupla criada em 2003, tinham um ar menos polido, mais embrutecido, mais rock. Mas eram, tal como Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Cristo, uma máquina bem oleada.

Se soam e parecem cool, é porque assim o quiseram. Augé e Rosnay trabalharam como designers gráficos e sabiam da importância de garantir uma boa imagem. Em conjunto com a editora Ed Banger, criaram um símbolo marcante: a cruz, pelo qual ficaria conhecido o seu primeiro e mais bem-sucedido disco. E foi precisamente essa cruz que os trouxe até às manchetes — e a uma guerra com Justin Bieber.

O lançamento do novo disco do cantor americano, curiosamente chamado “Justice”, fica marcado pelo arranque turbulento, sob ameaça de um processo em tribunal por violação de direitos de autor interposta pela dupla francesa. Em causa está o lettering e o símbolo usado no álbum, que Rosnay e Augé consideram ser uma espécie de fotocópia.

Assim que foi anunciado, a 26 de fevereiro, os fãs dos Justice enraiveceram-se com as semelhanças evidentes. A editora, a Ed Banger Records, primeiro brincou com o assunto — e depois levou-o a sério ao torná-lo numa batalha legal.

As imagens da discórdia.

Pior: a acusação revelou que, em 2020, os representantes dos Justice terão recebido um email da equipa de Bieber, que tentava chegar ao autor da arte usada pela banda francesa. A resposta foi dada, mas do lado do cantor nunca mais houve sinal de vida. Prova de que saberiam que poderia haver uma disputa.

“Os Justice não são um artista obscuro. Ganharam um Grammy para Melhor Disco de Eletrónica em 2019 e encabeçaram festivais por todo o mundo”, disse Tyler Goldberg, representante dos Justice nos Estados Unidos da América, à “Rolling Stone”. Com ou sem processo, parece que Bieber avançou com o lançamento do disco e de uma linha de roupa com os logótipos em causa.

A confusão pode até funcionar a favor dos Justice, apesar de não necessitarem de ser apresentados ao público americano. Fizeram-no com estrondo em 2007, logo no ano do lançamento do disco de estreia, no palco de Coachella — numa performance que surpreendeu o público e precisamente um ano depois da passagem pelo festival dos compatriotas Daft Punk, na épica Alive Tour.

Rock no coração, eletrónica nas veias

Um concurso de remixes promovido por uma rádio de uma universidade foi o primeiro objetivo de Rosnay e Augé, pela primeira vez identificados como Justice. Perderam o concurso, mas ganharam em tudo o resto. E foi numa outra remistura que descobriram ouro.

Agarraram no refrão de “Never Be Alone”, dos Simian, banda inglesa de Manchester, deram-lhe ritmo, força e tornaram “We Are Your Friends” num dos coros mais repetidos do verão. Explodiu nas discotecas, na Internet e finalmente na televisão.

Nesse mesmo ano, o de estreia, fizeram o impensável: roubaram descaradamente o prémio de melhor videoclipe do ano a Kanye West nos MTV Europe Music Awards. O americano, claro, protestou. Mas os Justice estavam lançados.

Haviam sido contratados anos antes pela Ed Banger Records, dirigida por um homem chamado Pedro Winter, também conhecido por Busy P. O que muitos descobriram na altura é que este foi um dos primeiros agentes de Bangalter e Homem-Cristo, que os acompanhou durante vários anos — esses mesmo, os Daft Punk.

O sucesso de “We Are Your Friends” levou-os às remisturas de dezenas de artistas famosos. Nos bastidores, preparava-se tudo para a estreia a solo, que aconteceu com “Waters of Nazareth”, em 2005. Mas mais especial era o que estava a ser preparado para os espetáculos ao vivo.

Quando em 2007 aterraram na Califórnia, não passavam de um pequenino nome no habitual recheado cartaz de Coachella. Um daqueles que quase só se vê à lupa. Depois do concerto numa tenda a abarrotar pelas costuras, ninguém esqueceu o abanão de uma eletrónica musculada e com traços de um bom rock. Não era tudo.

No palco brilhava Valentine, nome carinhosamente dado ao gigantesco aparato de sintetizadores usados pela dupla, recheado de fios e luzes e divididos por uma enorme cruz luminosa — “um símbolo potente da pop dos anos 90 e usada por Madonna e George Michael”, revelaria mais tarde Augé, sem esconder o piscar de olho ao ambiente mais gótico e metaleiro.

De cada lado, uma enorme parede de amplificadores clássicos da Marshall. De cigarro na boca, copo na mão e blusão de cabedal, Augé e Rosnay demonstraram, tal como os Daft Punk, que a imagem e o conceito são quase tão vitais como o som que sai das colunas.

A imponente Valentine.

A abordagem menos clássica dos Justice não agradou a muitos dos seus ídolos, heróis da velha guarda. Os Daft Punk, por seu lado, olhavam para o percurso com bons olhos: “A maioria destes músicos tinha seis ou sete anos [durante a primeira vaga da eletrónica francesa]. Essa não é a sua história. Estão talvez a começar do zero, de uma tela em branco”, explicaram em 2007 ao “The New York Times”.

A agitada digressão americana deu mais um impulso à imagem rock dos Justice. Um ano depois lançavam “A Cross the Universe”, um disco ao vivo que incluía um documentário do realizador Romain Gavras. Mais rock era impossível: o filme mostrava as festas, as cenas de pancadaria, as groupies, os bastidores, álcool, drogas, muito fumo e até o casamento improvisado de Augé com uma groupie.

Nem tudo era rude e duro. O segundo enorme êxito que correu o mundo, “D.A.N.C.E”, soa mais a pop. É, afinal, um tributo a Michael Jackson. “Queríamos fazer um tributo simples. Não é um ataque, é sincero. A maioria das letras nos temas techno andam à volta do ‘can you feel the love’ ou algo do género. Queríamos evitar isso”, explicaram.

Depois, encontraram o padrão. De lá para cá lançaram mais dois álbuns de originais, para um total de três. E a todos eles se seguiram discos gravados ao vivo, com os temas remisturados, na tentativa de replicar a verdadeira loucura que se sentia nos espetáculos ao vivo.

Foi, tal como os Daft Punk, nos espetáculos que apostaram muitas das suas fichas. Os eventos tinham que ser únicos, a música era importante, mas as luzes, a sincronização, o ambiente, tudo isso era absolutamente vital. Fazia parte do charme.

Foi precisamente isso que quiseram reunir naquele que seria a sua obra-prima, “IRIS”, uma ópera espacial como os próprios lhe chamaram: um espetáculo de 60 minutos ao vivo, gravado para ser projetado nas salas de cinema. “Um triunfo sensorial”, chamaram-lhe.

Desde 2003 que os Justice vinham a aperfeiçoar a coreografia dos concertos. Na Woman Worldwide Tour, em 2014, levaram o conceito dos amplificadores e das luzes muito mais além. Toda uma preparação para este “IRIS”, uma espécie da sua versão pessoal da lendária pirâmide dos Daft Punk.

No bolso há mais de uma década, a gigantesca operação estava finalmente ao alcance da dupla. “Olhámos para isto como uma ópera espacial porque crescemos com elas, com coisas como ‘Blade Runner’, ‘Alien’ ou mesmo ‘Star Wars'”, confessava Xavier de Rosnay à “Flood Magazine”. “Mas o ‘Encontros Imediatos do Terceiro Grau’ foi a primeira direção que tomámos quando desenhamos o set de luzes.”

A música continua a ser o foco, apesar dos Justice se manterem humildes na sua arte. “Não é difícil”, explicava Rosnay em 2007. “Qualquer um pode carregar no botão de distorção.”

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