Há obras que atravessam séculos sem perder a capacidade de nos tocar na alma. A Sinfonia nº 3 de Beethoven, conhecida como “Heroica”, é uma delas. No próximo dia 8 de março, às 16 horas, o Fórum Luísa Todi recebe um concerto que promete muito mais do que uma tarde de música clássica. Será uma viagem emocional entre o ideal heroico de Beethoven e a reflexão sombria de Richard Strauss sobre a humanidade.
Promovido pela Câmara Municipal de Setúbal e integrado na programação da Orquestra Metropolitana de Lisboa, o espetáculo junta duas obras que, apesar de separadas por mais de um século, dialogam de forma intensa sobre poder, transformação e condição humana. Com direção do maestro Sylvain Gasançon, a Orquestra Metropolitana de Lisboa propõe um programa exigente, profundo e arrebatador.
A Sinfonia nº 3 de Ludwig van Beethoven pode ser compreendida como “o retrato de um herói”. No entanto, não ilustra uma narrativa concreta, nem descreve ações específicas. O que faz é muito mais subtil e poderoso, expressando, através da música, emoções e estados de espírito de uma figura idealizada.
Inicialmente dedicada a Napoleão Bonaparte, Beethoven rasurou o nome do líder francês quando este se proclamou imperador. A desilusão foi profunda. A figura que o compositor idealizara como símbolo de liberdade e renovação política transformava-se, afinal, numa réplica das monarquias que prometera combater. A obra deixou então de ser uma homenagem pessoal, para se tornar numa evocação universal do heroísmo e do espírito reformista.
Do ponto de vista musical, a “Heroica” representou uma verdadeira rutura. Beethoven virou definitivamente a página do período clássico e anunciou o século romântico. A dimensão da obra, a intensidade dramática, o tratamento temático e a carga emocional eram inéditos para a época. Não era apenas mais uma sinfonia, era uma declaração estética, quase política, que alteraria para sempre o rumo da música ocidental.
Mais de 200 anos depois, continua a soar atual. Porque o conceito de herói, idealizado, questionado, desconstruído, continua a fazer parte da nossa própria reflexão coletiva.
Se Beethoven escreveu num tempo de esperança revolucionária, Richard Strauss compôs as “Metamorfoses” num dos períodos mais sombrios da história contemporânea. Entre agosto de 1944 e março de 1945, precipitava-se o fim da Segunda Guerra Mundial. A vitória dos Aliados era já evidente e a Europa encontrava-se devastada.
Neste contexto, Strauss escreveu uma obra de caráter confessional e pessimista. Em vez de exaltação heroica, encontramos questionamento. Em vez de celebração, introspeção. O compositor refletia sobre o presente e o passado, interrogando-se acerca da transfiguração da alma humana em espírito de crueldade.
As “Metamorfoses” foram escritas para 23 cordas solistas, que se entrelaçam numa teia densa de melodias. Strauss repartiu a escrita em 23 partes distintas, criando uma textura sonora de grande complexidade e intensidade emocional. O resultado é uma peça de profunda melancolia, quase um lamento coletivo perante a destruição cultural e humana causada pela guerra.
Colocada antes da “Heroica” no programa, esta obra estabelece um contraste poderoso. Se Beethoven projeta um herói idealizado e transformador, Strauss confronta-nos com as consequências trágicas de ideais que, ao longo do tempo, se deturparam.
O concerto realiza-se a 8 de março, às 16 horas, na Sala Principal do Fórum Luísa Todi. A duração prevista é de 60 minutos e as portas abrem às 15h30. O espetáculo está classificado para maiores de seis anos, embora a entrada seja permitida a partir dos três anos.
Os bilhetes para o concerto, disponíveis online, custam 14€, tanto para 1.ª Plateia, como para 2.ª Plateia e Balcão. Num momento em que Setúbal continua a afirmar-se como um polo cultural de referência na região, receber a Orquestra Metropolitana de Lisboa com um programa desta dimensão é também um sinal da vitalidade artística da cidade.

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