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O novo livro do setubalense João Fernandes é uma bizarria futurista sobre androides

“O Estúdio das Memórias” vai ser apresentado no dia 17 de dezembro, na Casa da Cultura. A NiS conversou com o autor sobre a obra.
Já está em pré-venda.

Durante grande parte da sua vida, foi uma pessoa “mediana”. Para o setubalense João Fernandes, 35 anos, ser mediano é, por vezes, um desafio maior “do que ser brilhante ou menos brilhante”. Ficamos numa posição neutra, onde “não existe muito a melhorar, mas ao mesmo tempo há pouco de válido”.

Foi precisamente por isso que mudou de vida e transformou a “passividade mediana numa coragem inabalável” e seguiu em frente. Agora, garante que não tem medo de arriscar porque sabe que pode falhar e foi esse pensamento que o levou a escrever o seu segundo livro.

Depois de, em 2022, ter autopublicado a coletânea de contos “Um Mundo Aqui Tão perto”, surge neste final de ano o livro “O Estúdio das Memórias”, que vai ser apresentado por João Fernandes, no domingo, 17 de dezembro, na Casa da Cultura, às 16 horas. Trata-se um romance de ficção científica sobre uma andróide, Robin, que tem um programa de podcast onde partilha as memórias de uma rapariga que viveu há vários anos.

O livro explora questões de identidade pessoal e de género, recordações, e também “a forma como o capitalismo destruiu a sociedade mundial”. A história acontece num mundo com poucos humanos, que provocaram a própria extinção, e muitos robots. Pode ser adquirido no site do escritor e no dia da apresentação. Custa 15€.

A New in Setúbal entrevistou o autor para saber mais sobre a sua carreira e da inspiração para o novo lançamento.  

O livro fala do futuro, mas vamos recuar ao passado. Sempre quis ser escritor?
Sempre tive o bichinho, mas a minha geração cresceu sob o lema de “se não fores licenciado nunca serás ninguém na vida.” Uma falácia que se compreende, tendo em conta que para as gerações anteriores ter ou não uma licenciatura era um diferenciador bastante significativo. De certa forma, fez-me não seguir um caminho mais profissional, provavelmente em vídeo, e viajar por vários anos de faculdade sem aprender como realmente funciona o mundo do trabalho.

Então, em que área se formou?
Terminei o secundário em Economia, na Escola Secundária Sebastião da Gama, em 2006. Não fazia ideia o que queria fazer profissionalmente, algo que ainda não descobri e provavelmente nunca vou descobrir. Tentei estudar Direito, na Faculdade de Direito de Lisboa, mas a falta de disciplina pessoal não ajudou e acabei licenciado em Comunicação e Cultura na Faculdade de Letras de Lisboa, em 2013, algo natural para quem adorava escrever, entrevistar pessoas e organizar eventos culturais.

Sei que criou uma associação em Setúbal. Qual foi o seu papel na vida cultural da cidade?
Em Portugal, a aposta pública na cultura sempre foi praticamente nula, por isso decidi, desde 2009, criar a minha própria independência. Nesse ano, criei uma associação cultural, chamada Ecos, que mais tarde evoluiu para Fábrica de Artistas de Setúbal. Organizei vários concertos e festivais em Setúbal até começar a fazer o mesmo em Lisboa, algures em 2012. Cofundei o site cultural “Arte-Factos” e desenvolvi mais uns quantos projetos culturais até abandonar o país em 2015 rumo a Amesterdão, Holanda. Sempre olhei para o mundo sem quaisquer fronteiras, então sempre soube que não queria passar a minha vida no local onde nasci. Em 2016 decidi ir estudar Marketing Digital na EDIT, em Lisboa e em 2017 mudei-me para Estocolmo.

O que tem feito na Suécia, profissionalmente?
Desde 2017, até hoje, trabalhei em três empresas, todas elas finlandesas, embora com escritórios também em Estocolmo. Ao longo destes seis anos, tenho trabalhado nas áreas de marketing digital e E-commerce, mas no futuro vou provavelmente trabalhar em algo diferente, porque estou sempre a mudar e a vida só acontece uma vez.

Como é que aparece o interesse pela escrita?
Não consigo identificar um momento específico da minha vida que esteja relacionado com o meu interesse pela escrita. Consigo identificar que sempre fui uma pessoa criativa. Talvez o facto de ser filho único e de ter crescido perto da floresta, em Aldeia Grande, me tenha obrigado a criar outras narrativas. Sempre fui uma pessoa extremamente curiosa, então quase tudo sempre me atraiu.

Onde é que essa curiosidade o levava?
Quando era novo fazia de tudo, jogava jogos de computador, jogava futebol, via desenhos animados, via todo o tipo de filmes, lia todo o tipo de livros e dava-me com todo o tipo de pessoas. Talvez isso venha do tipo de educação que tive, pelo facto de viver com os meus pais e avós maternos e ter sempre convivido com muitas pessoas de todas as idades. Mais tarde fui capaz de transpor essa curiosidade e criatividade para escrita de forma natural e acho que nunca parei de o fazer. Creio que em certa medida o meu interesse pela escrita está associado à minha curiosidade em observar o ser humano e todos os seus pequenos detalhes.

Quais são as principais fontes de inspiração?
Sou essencialmente inspirado pelo cinema, anime e por pessoas. A minha escrita tem um ritmo algo visual, no sentido em que há sempre algo a acontecer, a mover-se. Muitos dos temas estão relacionados com alguns filmes que admiro, assim como alguns animes que me inspiram que são produzidos para todas as idades, ao contrário da maioria dos casos no ocidente. Exploram temas desafiantes como a depressão, solidão, suicídio, morte e outros sentimentos complexos.

Muitos desses temas, estão presentes na vida das pessoas. Elas também o inspiram?
Inspiram a procurar mais e ser sempre diferente. O ser humano é um animal profundamente complexo, por isso nunca me canso de procurar pessoas que me inspirem e motivem a ser algo diferente, a ser mais. Questões relacionadas com identidade são também algo que me inspira bastante, talvez porque, como cresci sendo uma criança mediana, entenda perfeitamente a necessidade de se ter voz, de se ter a sua própria personalidade e ser quem queremos ser, em vez de sermos quem nos obrigam a ser porque alguém não sei quando na história decidiu criar certas caixas para encaixar cada um de nós. Posso nomear também, a nível de escritores, Hergé devido ao seu tom cómico/sarcástico, algo que é bastante claro em muito do que escrevo.

Como foi o processo criativa da nova obra, “O Estúdio das Memórias”?
Este livro era, na verdade, para ser uma coletânea de diversos contos, assim como o meu livro anterior. Contudo, a determinado momento achei que tinha de fazer algo diferente e tentei criar apenas uma história, mas incluir diversos elementos na narrativa. Neste livro existe um conto infantil que foi inserido na própria narrativa. Há um momento em que a personagem principal decide ler este conto. Há uma entrevista, feita à DJ, produtora cultural e ativista Luísa Cativo, onde decidi inseri-la também na própria história como uma personagem. Há uma música criada por Zé Quintino, um músico de Setúbal, que existe no livro através de um QR code e finalmente foi também criado um boneco em amigurumi, por uma artesã de Setúbal, Alfarrobinha, baseado num personagem do livro.

E toda a criatividade fluiu? Quantas vezes teve de apagar o que escreveu?
Tentei, de certe modo, criar uma extensão do próprio livro, inserir elementos que por norma não existem num livro. O processo de composição pré-escrita do livro demorou algum tempo, porque hesitei muito entre prosseguir com essa coletânea ou escrever apenas uma história. Mas assim que decidi que seria uma história acho que escrevi tudo em cerca de três semanas, sem contratempos. Algo curioso sobre a minha forma de escrever é que eu nunca sei como será o final de uma história até lá chegar. Nunca faço um planeamento narrativo, simplesmente decido o que fazer quando estou a escrever. Obviamente que volto atrás para emendar certos aspetos e tornar tudo mais coeso, mas o tom, a ação e tudo o resto é apenas decidido quando escrevo.

Qual é a principal mensagem que quer passar aos leitores com este livro?
Quero acima de tudo que se questionem sobre tudo, principalmente sobre aquelas questões que consideram essenciais e para as quais acham que não têm quaisquer dúvidas. A verdadeira mensagem do livro é que precisamos de mais empatia uns para com os outros, entender melhor o outro lado, entender quem é diferente de nós e perceber que não perdemos nada em deixar outros serem felizes ou terem direitos que a maioria da população toma por garantidos. Tento também passar um alerta face à forma como os seres humanos se tentam agredir uns aos outros e ao seu próprio planeta.

A apresentação em Setúbal será dia 17 de dezembro. O que espera do evento?
Espero que as pessoas saiam da apresentação com mais questões do que respostas, que fiquem mais curiosas sobre os temas retratados no livro, sobre si próprias e sobre as outras pessoas. Por norma são as questões que levam à procura de mais conhecimento ou de conhecimento diferente, e em muitos casos não há respostas objetivas para algumas questões que o meu livro coloca, por isso só o próprio exercício de raciocínio já é bastante positivo.

E já tem novos projetos?
Não sei exatamente se será o próximo livro, mas sei que irei editar um livro de entrevistas a certo ponto. Estou também a escrever uma história que será adaptada a guião para uma peça de teatro. E a nível de produção cultural irei coorganizar um festival de música apenas com bandas que já não existem (já não tocam há muito tempo).

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