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O arrepiante documentário português que quer mudar o mundo

É o primeiro projeto nacional a focar-se na alimentação plant based. "Carne: A Pegada Insustentável" vai chegar ao streaming em breve.
É arrepiante.

“Os animais percebem o que lhes é feito durante todo o processo, desde o nascimento até ao abate. Mesmo assim, há um grande bloqueio da indústria agropecuária para melhorarmos os regulamentos.” Quem o diz é Francisco Guerreiro, eurodeputado que também tem uma faceta de cineasta.

O seu projeto mais recente chama-se “Carne: A Pegada Insustentável”. Francisco, de 39 anos, ficou com o cargo de produtor, ou seja, tratou do financiamento e coordenou toda a produção “para agregar todos os elementos necessários”, como as entrevistas aos vários intervenientes do documentário.

A obra foi financiada com a ajuda do Grupo Parlamentar Europeu Verdes/Aliança Livre Europeia, do qual Francisco é membro. “Nós temos verbas para organizarmos conferências, eventos ou ações para promover os Verdes. Achei que a melhor maneira de comunicar este tema seria com um documentário e, assim, torna-se mais acessível uma matéria que é bastante complexa”, conta à NiT.

Este “é o primeiro documentário português a abordar a urgência de uma mudança nos padrões de alimentação da população mundial, privilegiando uma dieta plant based (origem vegetal) em detrimento de uma assente em proteína animal”, lê-se na sinopse.

O filme estreou a 25 de novembro no cinema Fernando Lopes, em Lisboa. Se tudo correr conforme planeado, vai chegar no final de abril ou no início de maio a uma plataforma de streaming gratuita, para que seja facilmente acessível a toda a população.

Este é um projeto que vai muito ao encontro do trabalho de Francisco Guerreiro no dia a dia. Afinal, o eurodeputado tem trabalhado “para garantir que o sistema agroalimentar seja o mais sustentável e regenerativo possível”. “Infelizmente, o lobby agroindustrial recebe milhares de milhões de euros para manter o mesmo sistema”, lamenta.

Segundo o que explica, esta indústria é a principal responsável pela destruição da biodiversidade terrestre, enquanto a indústria da pesca é a maior causa da devastação no mar. O seu objetivo é reverter esta tendência.

O documentário foi construído para falar sobre três grandes áreas: o impacto da agropecuária e das pescas na preservação dos ecossistemas, os riscos que o consumo excessivo de carne traz para a saúde humana e, por último, os direitos dos animais.

Desde o início que sabia que a mensagem apenas seria bem passada se os espectadores percebessem que isto também é um problema na Europa e não apenas nos Estados Unidos ou na China. Para isso, usaram imagens reais da indústria do nosso continente e mesmo de Portugal. “No nosso País há muito transporte de animais vivos. As imagens que usamos foram todas feitas na União Europeia, para as pessoas se conseguirem relacionar com esta proximidade”.

Pedro também está ciente de que, muitas vezes, estes documentários são demasiado negativos. “Carne: A Pegada Insustentável” tenta mostrar um lado mais positivo e apresentar ao público que “é possível transitar para um modelo mais ético baseado no consumo predominante de produtos não animais”.

Para reforçarem este ponto, os responsáveis pelo projeto levam-nos numa viagem académica. “A história do veganismo já não é nova e vem de filósofos, pensadores e médicos de longa data, desde o Renascimento, Iluminismo e até do século XX em Portugal, mas depois foi abafada pelo Estado Novo”, comenta Francisco. Queria, no fundo, mostrar que “isto não é uma moda”.

Além disso, a obra pretende desconstruir a ideia de que a alimentação plant based tem de ser cara. Em várias cenas (e através do próprio site do documentário) mostram-nos o quão fácil é construir uma refeição sem a necessidade de recorrermos a produtos de origem animal. “Também mostramos que o sistema atual é altamente subsidiado. Esses valores nunca aparecem nas etiquetas, mas o dinheiro sai de todos nós.”

Tudo isto só foi possível graças à colaboração com Hugo de Almeida, o realizador. O cineasta já tinha trabalho com Francisco na série documental “RBI: Um Caminho de Liberdade”, sobre a implementação de um rendimento básico incondicional, para combater a desigualdade. “Achei que seria um excelente desafio focarmo-nos nesta temática que tem muita sensibilidade social.”

Para o produtor, a alimentação é um tópico que mexe muito com as emoções das pessoas, visto que está relacionado com experiências emocionais profundas. “Também era necessário mostrar a realidade e o Hugo fez isso de uma forma muito sublime”, descreve. O documentário apresenta propostas aos espectadores e depois cabe a ele “a decisão de fazer algo ou não”.

A obra foi filmada ao longo de seis meses, foram feitas viagens até diferentes países, como o Reino Unido, onde a equipa falou com George Monbiot, um biólogo e jornalista do “The Guardian”. Na produção também entram Ivone e Joep Ingen Housz, fundadores do santuário animal localizado em Paredes de Coura, a Quinta das Águias, que mostram que “nas zonas rurais também é possível fazer algo de diferente”.

Francisco Guerreiro reforça, mais uma vez, que espera que o documentário consiga ajudar a mudar o estilo de vida dos portugueses e não só porque, se não o fizermos, avizinha-se um “colapso ecológico”. “Não digo isto de ânimo leve. Quando deixarmos de ter alimentos nas prateleiras e acesso a água potável, vamos ver que já será tarde demais. Os grupos políticos não têm noção da destruição que está a ocorrer e isso preocupa-me.”

Carregue na galeria para conhecer outras estreias de abril.

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