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O arrepiante documentário da Netflix sobre o pesadelo dos encontros online

"Amor, Perseguição, Assassínio" conta história de um pai solteiro que acaba por ser apanhado num tsunami de tragédias impensáveis.
Uma história assustadora (mas muito real).

“Adoro estar em frente à tua janela a olhar para ti” e “Odeio-te tanto que quero atravessar uma faca no teu coração” são frases que assustariam qualquer um. Porém, Dave Kroupa recebia mensagens deste tipo todos os dias.

O norte-americano mudou-se de Nova Iorque para Omaha em 2012, após arranjar um emprego como mecânico numa oficina. Tinha-se separado recentemente de Amy Flora, a sua ex-namorada de longa data com quem tinha tido dois filhos. Era a primeira vez que estava solteiro há muito tempo.

“Não sabia como voltar ao mundo dos encontros, então fui para sites conhecer pessoas novas. Estava muito enferrujado e a Internet era a opção certa”, conta à ABC News. O que parecia ser uma escolha inocente acabaria por lhe mudar a vida por completo. A sua história é agora contada em “Amor, Perseguição, Assassínio“, um novo documentário sobre encontros online da Netflix — que estreou sexta-feira, 9 de fevereiro.

A primeira ligação do homem de 40 anos foi Liz Golyar. Embora tenha havido uma química quase imediata, Dave deixou claro desde o início que não estava interessado numa relação monogâmica.

A mulher aceitou os seus termos e passaram seis meses a falar. O que parecia estar a correr bem mudou repentinamente quando Cari Farver entra na oficina do mecânico. Kroupa afirma que foi “atração à primeira vista”, conta à “Vanity Fair”. 

No primeiro encontro foram logo para sua casa. Quando a convidada saiu, já ao fim da tarde, garantiu ter visto Golyar na parte de fora do apartamento. Ambas sabiam que o pai de dois filhos não se queria comprometer, então Dave não se preocupou com o encontro inesperado entre as duas. Aquela foi a última vez que Cari foi vista.

Tentava-se afastar de Liz (ou Elizabeth), mas nunca o conseguiu fazer. A sua relação era conturbada, mas “havia amor ali”, explica. Para ter a certeza que tinha a dedicação total de Dave, a mãe solteira usurpou a identidade de Cari através de aplicações. “Odeio-te. Estou a namorar outra pessoa. Nunca mais te quero ver. Vai-te embora”, escreveu-lhe numa mensagem enviada em nome “da sua concorrente”, como a descrevia.

Aquela foi a primeira de dezenas de milhares de SMS enviadas por Liz, mas em nome de Farver. As ameaças também tinham Amy Flora e os amigos de Dave como destinatários. Só tinha um objetivo: arruinar as suas vidas.

O assédio resultou em vandalismo, assaltos e incêndios. Em 2012, alguém que afirmava ser Cari começou a destruir carros e propriedades detidas pelo protagonista do documentário. Um ano depois, a casa de Golyar, com quem Dave ainda mantinha uma relação intermitente na altura, foi destruída pelo fogo, matando os seus cães, gato e cobra de estimação.

Assustado, o homem mudou de cidade, mas após criar outro perfil numa aplicação de encontros, a stalker voltou a entrar na sua vida. A polícia não conseguia identificar de onde vinham as mensagens, apesar de saberem que a culpada estava sempre perto de Kroupa, Golyar, Amy Flora e dos filhos do mecânico. 

Acabou por ter de aprender a lidar com aquela situação. Em abril de 2015, porém, foram feitos alguns avanços. Inspetores de Pottawatomie, onde vivia, começaram a investigar o desaparecimento de Farver. Chegaram à conclusão de que tinha sido assassinada em novembro de 2012 — altura em que começaram a ser enviadas as mensagens.

Com a ajuda de Anthony Kava, um especialista forense digital, as forças de autoridade descobriram que todos os e-mails e textos apontavam para uma morada pertencente a, nada mais, nada menos, que Liz Golyar.

“Isto é um caso único numa carreira. Tenho a certeza de que a Elizabeth era fria como o gelo. Tudo o que fazia para mostrar compaixão ou carinho era apenas um teatro, e tinha sempre um outro motivo para tudo o que fazia. Ela é uma péssima pessoa”, contou um sargento à “People”.

Já tinham uma culpada bem definida, mas, infelizmente, não tinham provas fortes o suficiente para a prenderem imediatamente. Em dezembro de 2015, contudo, Golyar, sem se aperceber, ajudou no avanço da investigação.

Chamou a ambulância e a polícia após ter levado um tiro na perna. Garantia que tinha sido Amy Flora (a ex de Dave), mas rapidamente descobriram que se tinha alvejado a si própria e que queria apenas incriminar a mulher, tal como tinha feito com Cari no passado.

Armados com mandados de busca, os investigadores invadiram a casa da stalker e descobriram dezenas de aplicações que usava para mascarar a sua identidade, algo que fazia há anos. Acima de tudo, chegaram à conclusão de que tinha assassinado Farver — apesar do corpo da vítima nunca ter sido encontrado.

“Até àquela altura, quando ouvia o nome da Cari, ficava com vontade de vomitar. Depois descobrir que a culpa não era dela e que tinha sido assassinada? E que a Liz, a pessoa em quem confiei, era a minha perseguidora e uma homicida? Continua muito difícil de processar”, afirma à mesma publicação. A criminosa acabou por ser condenada a prisão perpétua.

“Para nós, detetives, é uma vitória porque pusemos alguém atrás das grandes. Mas, ao mesmo tempo, tivemos de dizer a uma mãe que a sua filha foi assassinada. É um desfecho muito trágico. Tenho a certeza de que alguma parte dela ainda achava que havia possibilidade da filha estar viva”, diz o sargento Doty, responsável pelo caso.

Kroupa conseguiu, face a todas as adversidades e traumas, encontrar a felicidade. Atualmente namora Margie Hover, e vivem juntos no Nebraska (EUA). “Disse-me, durante uma viagem à Califórnia, que já não tinha de viver com medo”, conta à revista.

Carregue na galeria para conhecer as séries (e regressos) que chegaram em fevereiro às plataformas de streaming e à televisão.

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