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Nicolas Cage esteve quase a ser o Super-Homem mais estranho da história do cinema

O projeto foi cancelado após milhões gastos, fatos alienígenas e um guião onde o herói nem podia voar.

Nicolas Cage passou quase três décadas à espera de entrar no universo dos super-heróis. Agora, estreia-se como protagonista de “Spider-Noir”, série que chegou esta quarta-feira, 27 de maio à Prime Video. Esta não é, no entanto, a primeira vez que o ator está ligado a uma das personagens mais icónicas da banda desenhada. Muito antes de vestir gabardinas, resolver crimes e combater gangsters com poderes como se fosse uma aranha, Cage esteve prestes a tornar-se no Super-Homem mais inusitado da história do cinema.

O projeto chamava-se “Superman Lives” e tornou-se uma das produções canceladas mais famosas de Hollywood. O filme esteve em desenvolvimento entre 1996 e 1998 e teria Tim Burton como realizador, Nicolas Cage no papel principal e um orçamento gigantesco para a época. A ideia da Warner Bros. era relançar o herói após o impacto da banda desenhada “A Morte do Super-Homem”, publicada em 1992.

Na altura, Cage vivia um dos melhores momentos da carreira. Tinha acabado de vencer o Óscar de Melhor Ator Principal por “Leaving Las Vegas” (1995 ) e era já um fã assumido de banda desenhada — em 2005 chegou mesmo a dar ao filho o nome Kal-El, o verdadeiro nome kryptoniano do Super-Homem.

Segundo vários relatos de bastidores, foi o próprio ator que insistiu para que Tim Burton fosse escolhido como realizador, revela o site “Yahoo”. O cineasta vinha do sucesso dos filmes “Batman” e queria criar uma versão completamente diferente do herói tradicional.

A ideia passava por transformar Clark Kent numa figura mais melancólica, isolada e quase alienígena. Em vez do típico salvador musculado e perfeito, Burton imaginava um Super-Homem estranho, introspetivo e alienado do mundo humano. Nicolas Cage chegou mesmo a fazer testes de guarda-roupa com fatos biomecânicos de silicone e cabelo comprido — imagens que acabariam por se tornar virais anos depois.

O projeto entrou rapidamente numa espiral caótica. O primeiro argumento ficou a cargo de Kevin Smith, realizador de “Clerks”, que mais tarde contou várias histórias surreais sobre o processo de produção. Segundo Smith, o produtor Jon Peters impôs regras caricatas: o Super-Homem não podia voar, não podia usar o fato clássico azul e vermelho e tinha obrigatoriamente de enfrentar uma aranha gigante no terceiro ato.

A obsessão pela aranha tornou-se tão famosa que acabaria reaproveitada mais tarde em “Wild Wild West” , o filme protagonizado por Will Smith lançado em 1999. O guião foi reescrito várias vezes e chegou a incluir Brainiac, Lex Luthor e Doomsday como vilões. Numa das versões mais bizarras, Brainiac e Luthor fundiam-se numa criatura híbrida chamada “Lexiac”.

Apesar de toda a pré-produção, “Superman Lives” acabou cancelado em abril de 1998, apenas semanas antes do arranque das filmagens. Segundo várias fontes ligadas ao projeto, a Warner Bros. já tinha gasto cerca de 30 milhões de dólares sem sequer começar a rodar o filme, revela.

O fracasso comercial de “Mars Attacks!”, também realizado por Burton, ajudou a aumentar o receio do estúdio em relação ao tom excêntrico do projeto. O orçamento continuava a disparar e os executivos acabaram por travar definitivamente a produção.

Durante anos, “Superman Lives” transformou-se numa espécie de mito de Hollywood. Em 2015, o documentário “The Death of ‘Superman Lives’: What Happened?” reuniu entrevistas com Tim Burton, Kevin Smith e Jon Peters, além de revelar imagens reais dos testes de Nicolas Cage com o fato do herói.

O ciclo acabou por fechar de forma inesperada em 2023. Em “The Flash” (2014), Cage apareceu finalmente como Super-Homem numa breve participação especial criada digitalmente — e, numa piscadela de olho aos fãs, surge precisamente a combater uma aranha gigante.

Agora, quase 30 anos depois daquele projeto falhado, Nicolas Cage regressa finalmente ao universo dos super-heróis como protagonista de “Spider-Noir”. E talvez faça sentido que tenha acabado por interpretar um herói estranho, sombrio e alienado, exatamente o tipo de Super-Homem que Tim Burton queria criar nos anos 90.

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