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“Naked Attraction”: os segredos do programa mais manhoso e viciante da televisão

Os concorrentes passam horas despidos ao frio, não recebem dinheiro e são alvo de interrogatórios exaustivos.
Admita: não perde um episódio.

É um dos mais estranhos, originais e viciantes dating shows da televisão. Os concorrentes despem-se para todo o mundo ver e, enquanto o fazem, são julgados por outro concorrente que terá de escolher um par para conhecer pessoalmente. Mais transparente do que isto, seria quase impossível.

Criado no Reino Unido, onde estreou em 2016, no Channel 4, provocou uma reação imediata de repulsa entre os espectadores mais conservadores. “Cinco pénis e duas vaginas por minuto”, anunciava o “Mirror” no dia seguinte à estreia na televisão.

Alguém fez as contas e só no primeiro episódio, foram transmitidos 96 planos de vaginas e 282 de pénis. A segunda temporada traria ainda mais nudez: 363 vaginas e 166 pénis. “Quão baixo pode chegar o novo dating show?”, questionava o “Telegraph”, que revelava mais de uma centena de queixas à entidade reguladora, logo no primeiro dia.

Apesar da polémica, 1,4 milhões de pessoas sentaram-se em frente à televisão para saber como tudo funcionava. Nem todos viram em “Naked Attraction” um espetáculo de nudez gratuita e de atentado ao pudor — embora seja difícil contrariar os críticos que o apelidaram de “um programa de encontro às cegas num bordel”.

Enquanto uns explicavam que o conceito era libertador, promovia a diversidade e melhorava a autoestima de pessoas com diferentes tipos de corpo, outros sublinhavam que não há nada de redentor num concurso onde os outros são julgados pelo tamanho dos seios ou dos pénis.

A verdade é que, por entre muitas críticas, o programa britânico encontrou sempre uma audiência fiel que o levou a regressar, ano após ano. Vai já na sétima temporada e prepara-se para produzir mais uma edição em 2021 — a quarta temporada está a ser transmitida em Portugal na “SIC Radical”. E fora do Reino Unido, o programa foi replicado em mais quatro países: Itália, Dinamarca, Alemanha e Finlândia. Deverá chegar à Polónia em 2021.

Pródigo em momentos inesperados, tatuagens bizarras e trocadilhos sexuais, apesar de os concorrentes mostrarem absolutamente tudo, há muitas coisas que ficam por desvendar. Nos bastidores, nem tudo é o que parece — e se pensa que aqueles curtos minutos em que os concorrentes estão despidos numa caixa são angustiantes, prepare-se para ter uma surpresa. É muito pior do que imagina.

Participar em “Naked Attraction” não é propriamente um passeio. Os dias de gravações são absolutamente brutais, revelam os ex-concorrentes. Tudo começa às sete da manhã e as sessões podem durar mais de 12 horas.

“É um dia longo. Ainda por cima eu cheguei aos estúdios em Manchester de ressaca”, revelou um ex-concorrente à “ITV”, em 2018. Ao contrário do concorrente que recebe o direito de escolher o par, que normalmente não surge nu por mais do que 15 minutos, todos os outros passam a maior parte do dia sem roupa. 

“Ficas cerca de duas horas nu dentro da caixa, isto antes de tudo começar. Para filmar meia hora de televisão, estivemos nisto das sete às três da tarde. A produção está sempre a tirar fotos para a edição. É um processo longo, mas engraçado”, explica.

Parece fácil concorrer, mas não é.

A temperatura também era um pequeno grande problema. Os focos aqueciam os concorrentes, que ficavam transpirados. “Mas depois sentia-se uma corrente de ar que punha toda a gente a tremer”, revela Gavin.

O ​frio, claro, obrigava a medidas drásticas para não passarem vergonhas à frente das câmaras: “Sempre que a câmara não estava a agravar, toda a gente se sacudia para parecer maior.”

Todo o segredo do programa assenta na revelação das caras dos concorrentes, apenas e só depois de avaliado cada um dos corpos. Para que esse momento seja o mais genuíno possível, cada um dos participantes tem que estar isolado. Isso obriga a que os produtores tenham que fazer de guarda-costas de cada um deles. Cada concorrente é constantemente acompanhado por dois elementos da produção que estão sempre ao seu lado durante todo o dia.

Como bom reality show que é, nem tudo pode ser deixado ao acaso. Apesar de não existir um guião pré-definido, os concorrentes são aconselhados a fazer algumas referências, revela uma ex-concorrente.

“Antes de entrares como concorrente principal, eles ajudam-te a rever as coisas que querem que tu menciones e as perguntas que te vão fazer em frente à câmara, mas não há guião. Davam-te deixas como ‘podes mencionar o tamanho dos pulsos de algum deles para que possamos falar do facto de gostares de algemas?'”, explicou Millie Norris ao “The Sun”.

“Eles mandaram parar a gravação e disseram-me: ‘Podes certificar-te de que falas sobre o pénis dele?’

“A certa altura, elogiei todas as partes do corpo de todos os concorrentes, exceto uma. Eles mandaram parar a gravação e disseram-me: ‘Podes certificar-te de que falas sobre o pénis dele?’.”

E nesta preparação milimétrica, nem as roupas escapam. Muitas vezes os concorrentes recebem outras roupas que têm que usar nos breves momentos em que não surgem despidos. No final e ao contrário do que se possa pensar, ninguém recebe qualquer prémio monetário pela participação. Bem, isso só é válido para quem acaba por aparecer no ecrã.

Revelado também por um ex-concorrente, os extras que ficam de reserva caso aconteça alguma coisa, recebem perto de 90€. Para os outros, a aparição televisiva é suficiente.

Terminada a dura escolha, a dupla final parte para a vida (mais ou menos) real e juntam-se num bar num encontro romântico. Cada um recebe cerca de 60€ para cobrir as despesas que nem sempre são gastas. Millie Norris, por exemplo, gastou apenas 10€ numa rodada e embolsou o resto. O encontro, segundo consta, não terá corrido lá muito bem.

O processo de recrutamento

A produção está sempre à procura de candidaturas. E quando isso não acontece, são eles que vão à caça. Gavin, por exemplo, inscreveu-se depois de ser identificado pelos amigos num anúncio do Facebook colocado pela produção.

“Puseram um anúncio que dizia que havia uma falta de interesse dos escoceses no programa. Uns amigos identificaram-me e disseram que era perfeito para mim porque metade da população de Edimburgo já me tinha visto nu — tenho uma tendência para tirar a roupa — e por isso aceitei o desafio”, conta.

A produção sabe que aparecer despido perante as câmaras e um país inteiro não é para todos. Para evitar situações mais delicadas para os concorrentes, todos eles são sujeitos a uma avaliação psicológica logo no início da fase de seleção.

“Eles avisam-nos que depois do programa vamos inevitavelmente espreitar os comentários negativos feitos sobre os nossos corpos. E perguntam-nos se vamos conseguir lidar com isso”, explica Millie.

A famosa tatuagem do elefante que chocou os espectadores.

Os questionários de inscrição são simples, mas é na fase seguinte que o processo se torna mais rigoroso. Nas entrevistas presenciais, procura saber-se tudo.

“Era eu e mais duas pessoas numa sala. Um era um homem, que me filmou para ver como é que eu ficava na câmara. Depois de algumas perguntas, pediram para me despir e a entrevista continua, contigo completamente nu”, recorda. “Nunca me disseram que ia ter logo que me despir (…) Não tive problemas em fazê-lo, não sou tímida, mas foi esquisito.”

Sempre à procura do lado mais bizarro dos concorrentes, uma pergunta é obrigatória: quais são os talentos especiais de cada um. E segundo Millie, o talento mais recorrente é fazer o pino. Totalmente despidos.

Calma, porque depois desta entrevista há ainda mais uma entrevista final, essa sim ainda mais invasiva, que procura saber tudo, de problemas familiares a preferências sexuais. Da última fase à gravação do programa é um instante. Millie diz que no seu caso, passou apenas uma semana.

Depois da nudez

O regresso à vida real, depois da emissão do programa, nem sempre é fácil — sobretudo quando é preciso encarar o resto da família. Foi o caso de Matty Roche, que participou no episódio piloto.

“Pensei que ia passar ao lado da Internet e a minha mãe não iria descobrir. Mal sabia que ia parar a todos os jornais e que se tornaria numa sensação mundial”, explicou ao “RadioTimes”. A mãe descobriu tudo num grupo de WhatsApp, quando os amigos e amigas a avisaram que tinham visto “o filho e a sua tatuagem” na televisão. “Ela não reagiu muito bem.”

Melissa Edden trabalha hoje como modelo mas quando participou no programa, trabalhava num escritório. “Toda a gente com quem trabalhava viu o programa. Foi um bocadinho constrangedor — ninguém falava sobre o assunto no trabalho depois do episódio de ir para o ar, tive que ser eu a falar sobre isso. Estavam todos com medo”, revela.

“Foi constrangedor quando contei ao meu patrão, mas ele apoiou-me. E de certeza que viu o episódio.” Nem tudo correu bem. Pouco tempo depois, a produção foi contactada por um médico que viu o programa e queria entrar em contacto com Edden para a aconselhar a fazer um mamografia porque suspeitava que eu tivesse cancro da mama. Afinal, era apenas a cicatriz dos meus implantes. “Reclamei e agora fizeram nova cirurgia de borla.

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