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Morte, luto e arte: a dramática história do regresso de “Liga da Justiça”

Zack Snyder volta finalmente para retomar o percurso interrompido por um drama e um desastre de bilheteira.
É um dos regressos mais esperados do ano.

Quando um acidente trágico matou a filha de Zack Snyder, o realizador encontrou no trabalho o seu único alento. Terminar “Liga da Justiça” era tudo o que restava. Mesmo isso caiu: acabou por sair em conflito com a Warner Bros. e o filme foi entregue a outro realizador.

No computador pessoal trouxe apenas a sua versão por terminar, uma edição crua, com cerca de quatro horas de filmagens. Uma velha recordação, pensou. Algo para mostrar aos amigos que passavam lá por casa.

Quatro anos depois, a pedido de muitas famílias, a reunião fez-se: Snyder voltou, a versão do realizador foi recuperada e “Liga da Justiça de Zack Snyder” tenta fazer o que não fez à primeira tentativa: encantar os críticos e fãs.

“Liga da Justiça de Zack Snyder” mantém intacto o enredo: a morte de Super-Homem leva Bruce Wayne, Batman, a juntar forças com a Mulher Maravilha e um grupo de super-heróis para defender o mundo de uma catástrofe. O filme chega esta quinta-feira, 18 de março, à HBO Portugal.

É o culminar de anos de rumores e campanhas dos fãs que conseguiram finalmente convencer os estúdios a reatarem relações com Snyder. Mais importante ainda: queriam tirar o mau gosto da boca, deixado pela versão lançada em 2017, arrasada por críticos e com reflexo disso mesmo nos resultados de bilheteira.

Zack Snyder era, à época, a grande esperança da DC Comics para tentar bater-se com a Marvel. Tudo parecia promissor. As filmagens terminaram no final de 2016 e dizia-se que haveria material para dois filmes completos.

A versão que Snyder montou não agradou ao estúdio e foi mandada para trás para ser trabalhada. Entre o tumulto e a confusão, a tragédia familiar abalou a vida do realizador que foi forçado a afastar-se temporariamente.

Joss Whedon, realizador ligado ao mundo cinemático da Marvel, trocou de trincheira e ajudou a avançar o projeto. Foi o primeiro passo do fim do caminho de Snyder à frente do filme.

Foram regravadas várias cenas, o argumento sofreu inúmeras alterações e o filme tornou-se numa criatura muito diferente daquela que Snyder tinha imaginado.

A chegada aos cinemas foi uma absoluta desilusão. De tal forma que nem Whedon quis colar o seu nome ao projeto que arrecadou mais de 600 milhões de euros em bilheteira — e mesmo assim conseguiu perder dinheiro. Dois meses depois, o golpe final: o novo capítulo da saga “Vingadores”, da Marvel, arrecadava mais de dois mil milhões.

Alguns meses depois do desastre épico, Christopher Nolan, produtor-executivo, e Deborah Snyder, mulher de Zack, reuniram-se numa sala para ver finalmente o que tinham feito a “Liga da Justiça”. “Foi uma experiência estranha (…) Trabalhas numa coisa durante tanto tempo e depois sais e acabas por ver mais tarde o que lhe aconteceu”, explicou Deborah à “Vanity Fair”.

Do visionamento, tiraram apenas uma conclusão: Zack Snyder nunca deveria passar pela experiência de ver o que havia sido feito ao seu filme. “Sabia que ia partir-lhe o coração.”

A tragédia familiar

No meio da já complicada produção do filme, entre conflitos com a Warner Bros., aconteceu o impensável. A filha do realizador, apenas com 20 anos, suicidou-se. Snyder não hesitou e deixou os trabalhos, já na fase de pós-produção.

“Foi uma espécie de relâmpago no centro de toda esta saga. E de muitas formas, isso acabou por influenciar tudo o que fizemos desde então”, explica Snyder à “Vanity Fair”.

Apesar de ter tentado manter-se no cargo de realizador, os sucessivos conflitos com os executivos do estúdio tornaram a situação insustentável. Foi tomada a decisão de terminar a relação.

Um desastre anunciado

As decisões disruptivas de Snyder foram sempre um problema para o estúdio, desde que decidiu optar pelo look de Jason Momoa para Aquaman e deixar para trás os tradicionais olhos azuis e cabelos loiros.

Apesar das escolhas inusitadas, recebeu quase sempre carta branca para transformar os filmes à sua medida. Mas os executivos estavam atentos e cada vez mais preocupados. Começaram a enviar agentes para supervisionar as gravações — ou como explica Snyder, para fazerem “de babysitters”.

“Não me incomodava muito porque sabia que não eram grande ameaça. Sentia que as ideias que eles lançavam, para tentar acrescentar mais humor, não eram escandalosas.”

Snyder foi substituído por Joss Whedon.

A verdade é que o argumento sofreria com essa intrusão. Num dos casos, Snyder teve que desistir da ideia de criar um conflito interno em Bruce Wayne, que se apaixonaria por Lois Lane depois da morte de Super-Homem, até perceber que teriam que ressuscitar o super-herói. A ideia foi recusada pela Warner.

Outro dos problemas? A duração do filme. Do topo da cadeia alimentar chegava a diretiva que mandava que não ultrapassasse as duas horas. “Como é que se apresentam seis personagens e um alien com potencial para dominar o mundo em apenas duas horas? Quer dizer, eu posso fazê-lo, é possível ser feito. Claramente que foi — mas eu não o vi”, diz, referindo-se à versão de 2017.

Já com uma relação desgastada e com Joss Whedon como terceiro elemento, cada vez mais poderoso e intrometido, a situação implodiu. “[Eu e a Deborah] perdemos a força para lutar essa luta. Todos nós, como família, estávamos de rastos pela perda da Autumn, que ter essas conversas no meio de tudo aquilo… Fiz a coisa certa porque das duas uma: ou seria uma guerra ou teríamos que obedecer.”

A segunda chance

Com Snyder afastado e depois do desastre de bilheteira da versão de Whedon, o assunto parecia definitivamente enterrado. A verdade é que os fãs sabiam que a edição de Snyder existia e que estava guardada no disco rígido do seu computador.

Os fãs mais fanáticos começaram a criar uma vaga de fundo e a fazer ruído nas redes sociais. Chegaram a alugar aviões para sobrevoarem os estúdios da Warner Bros. com a mensagem: “Libertem a versão do Snyder”.

Os meses passaram e, contrariamente ao que se previa, o movimento não esmoreceu. Ganhou força. As estrelas do elenco colocaram-se do mesmo lado da barricada, entre elas Ben Affleck e Gal Gadot. O forcing mexeu com a estrutura diretiva do estúdio e o presidente, Toby Emmerich, acabou por ceder e ligar a Snyder.

“Sempre nos sentimos mal que o Zack não conseguisse terminar a sua visão para o filme”, explicou à “Vanity Fair”. Snyder, contudo, hesitou, sobretudo porque pretendiam apenas partilhar a versão crua que tinha guardada.

“Disse logo que não e expliquei-lhes porquê. Três razões: só o fazem para se livrarem dos chatos da Internet que pedem o filme, que é provavelmente a razão pela qual querem fazer isto; conseguem desculpar-se e justificar os erros que cometeram; e divulgam uma versão merdosa do filme, para que depois possam dizer ‘Viram? Nós bem dissemos que não valia nada. Tínhamos razão’. Preferia que a edição do Snyder se tornasse numa espécie de unicórnio mítico”, explica o realizador.

A aliança está de volta.

Mas Snyder acabaria por dizer que sim. Gastou mais de 60 milhões a terminar o filme da forma como sempre o quis fazer — e pôde alongá-lo até às quase quatro horas de duração. Salário? Zero. Tudo em troca de controlo criativo total.

“Não recebi nada. Não queria ficar preso a ninguém e isso permitiu-me manter o meu poder negocial.” Assim fez, nesta sua versão exibida no formato 4:3, e recriou o fim com uma surpresa para os fãs — aqueles que realmente lhe deram a oportunidade de encerrar o capítulo mais difícil da sua vida.

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