Numa cidade onde a oferta noturna segue caminhos rotineiros, o Bons Augúrios continua a ser o sítio onde o inesperado acontece. O bar setubalense prepara-se para receber mais uma edição do seu Cabaret de Variedades, desta vez em versão de primavera, numa noite que junta magia, burlesco, dança do ventre, comédia e hula hoops no mesmo palco.
São sete artistas numa só noite, vindos de Setúbal, Évora, Torres Vedras e até do Brasil, cada um com dois números preparados para um espetáculo que promete durar cerca de duas horas.
“É uma iniciativa que tentamos fazer sempre que possível”, explica Ju Sofia Prata, fundadora do Bons Augúrios, atriz e comediante. “É uma maneira de dar palco a vários artistas e criar um espetáculo ligeiramente diferente daqueles que normalmente existem em Setúbal, com várias artes misturadas com comédia”.
Para fazer isto acontecer, os artistas apresentam a candidatura, a organização seleciona um de cada área, para garantir a maior diversidade possível, e o resultado é uma noite onde ninguém sabe o que pode vir a seguir.
Um cartaz que promete uma noite sem repetições
O cartaz desta edição promete ser um dos mais variados do Cabaret de Variedades. A noite é conduzida pela própria Ju Sofia Prata, que assume a apresentação do espetáculo e traz consigo a componente de stand-up comedy, uma marca registada destes cabarés. É ela quem une os diferentes momentos, quem dá ritmo à noite e quem garante que o humor nunca desaparece, mesmo quando o palco muda de registo.
Do lado da magia, sobe ao palco o Mágico Gongas, ilusionista conhecido pelo estilo excêntrico e humor imprevisível. Combinando truques clássicos com uma abordagem criativa, transforma cada atuação numa experiência envolvente e cheia de ritmo, com um visual marcante e uma presença que conquista a sala.
O burlesco vai estar representado em dose dupla. La Luna LucyFear, que se apresenta como “demónia burlesca, bruxa mística e feiticeira underground do caos e destruição, com desbunde e glitter”, traz ao palco a sedução e a teatralidade.
Já Sara Freitas, que dança desde os seis anos e passou por estilos tão distintos como ballet, contemporâneo e heels, junta a sua experiência em videoclipes, filmes e festivais de dança à vertente burlesca, que tem vindo a explorar mais recentemente. Estas são duas abordagens diferentes ao mesmo universo, o que garante que nenhum número se repete.
Do circo à dança do ventre, passando por Évora e Brasil
A diversidade geográfica é outro dos marcos desta edição. João Farinha, natural de Évora, apresenta-se como palhaço no palco dos Bons Augúrios. Formado em teatro no curso profissional da sua cidade natal, foi estudar durante três anos em Turim. Trabalha atualmente como palhaço, tanto a solo, como com a companhia de circo Malatitsch. Este é o tipo de artista que consegue arrancar gargalhadas sem dizer uma única palavra e que traz ao cabaret a tradição circense, que raramente se vê nos palcos setubalenses.
Do Brasil chega Isis Maria, produtora, artista e educadora, que constrói a sua trajetória entre a performance, a pedagogia e a produção cultural. O seu trabalho tem por base o território político e poético e já a levou a festivais e encontros na Alemanha, Holanda, Espanha, Uruguai e agora Portugal. No cabaret, apresenta números de hula hoops que combinam técnica, expressão corporal e uma energia que promete contagiar toda a sala.
A fechar o leque de variedades, Yiskah Lilith traz a dança do ventre numa versão que nada convencional. Pós-graduada em dançaterapia e mestranda em artes cénicas, a sua estética transita entre o cabaret neoclássico, o universo gótico e um conceito autoral a que chama Temple Dark Fusion, o divino feminino sombrio.
Cada uma destas atuações é pensada como uma experiência cénica completa, onde corpo, presença, artista e intenção dialogam com o público. É o tipo de performance que promete ficar na memória muito depois de a cortina fechar.
“Tentamos sempre escolher um artista de cada área, para diversificar a noite”, explica Ju Sofia Prata. “Queremos apresentar ao público um pouco de cada arte e novos artistas do País que fazem este tipo de espetáculo”. O resultado é uma noite onde se passa do riso ao espanto, da sedução à poesia do corpo, sem que nenhuma transição perca o sentido, porque é essa mistura improvável que define o espírito do cabaret.
Num País onde ser artista é, muitas vezes, um exercício de resistência financeira, o Bons Augúrios faz questão de entregar o valor dos bilhetes aos artistas. Esta filosofia é, aliás, uma das razões pelas quais o cabaret atrai artistas de fora de Setúbal e até internacionais. A reputação do evento tem crescido, os artistas candidatam-se espontaneamente e a organização consegue, edição após edição, criar cartazes cada vez mais diversificados.
Novas bebidas que celebram a primavera
Além do espetáculo, esta edição de primavera traz uma novidade no bar. Cinco cocktails especiais criados para a ocasião, todos inspirados em flores. Há opções com e sem álcool, entre os 4€ e os 8€. São receitas novas, que vão ser estreadas na noite do cabaret.
O espetáculo arranca às 22 horas e os bilhetes custam 12€, podendo ser adquiridos presencialmente no bar, por reserva através do e-mail bonsaugurios@nullgmail.com ou online na plataforma All Events. Num panorama cultural concentrado em Lisboa, o Bons Augúrios prova que Setúbal sabe acolher projetos alternativos e com identidade própria. Dois anos depois, o bar continua a ser aquilo que se propôs: um lugar onde a arte acontece, o risco é bem-vindo e a cultura se vive de perto.
E se os primeiros dois anos foram feitos de resistência e afirmação, os próximos prometem ser de consolidação. O bar abriu a 12 de janeiro de 2024 e é onde está a companhia de teatro com o mesmo nome, Bons Augúrios, criada em 2014, sendo também um espaço cultural. “Surgiu do amor pelo rock e pelo teatro, assim como pela vontade de providenciar cultura à comunidade de Setúbal, ao sabor de cocktails de autor”, conta Ju Sofia Prata, proprietária do espaço e diretora da companhia.
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