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“Madame Claude”: a história real de prostituição que inspirou o novo filme da Netflix

O argumento é baseado na figura mítica (e real) de uma proxeneta parisiense.
Tem 1h52 de duração.

“Há duas coisas pelas quais as pessoas vão sempre pagar: comida e sexo. E eu nunca fui muito boa a cozinhar.” Esta frase infame ficou para sempre associada à francesa Madame Claude, nome profissional de Fernande Grudet, que ao longo de anos foi uma das chulas mais conhecidas do mundo.

Depois da Segunda Guerra Mundial, trabalhou como prostituta, mas cedo percebeu que podia ser mais do que isso. No início dos anos 60 já geria uma rede exclusiva de prostituição que se especializava em clientes milionários e altas figuras políticas ou sociais.

Alegadamente, tinha nos seus contactos os nomes de políticos, membros da máfia, grandes empresários e até mesmo figuras de renome mundial, como o presidente americano John F. Kennedy, o ator Marlon Brando ou o xá do Irão.

Tendo em conta os seus clientes poderosos e influentes, Madame Claude — apesar de ser conhecida — continuou a operar durante vários anos, pelo menos até metade dos anos 70, quando começou realmente a ser perseguida pela justiça francesa. Com tudo isto, tornou-se uma personalidade icónica, associada ao mundo boémio e luxoso, aos hotéis caros e aos vestidos deslumbrantes.

Madame Claude morreu aos 92 anos em 2015, na sua casa em Nice. Chegou a estar presa por evasão fiscal nos anos 80 — após ter fugido temporariamente para Los Angeles. No início dos anos 90, quando retomou a atividade e tentou criar uma nova rede, foi novamente detida, mas já por crimes associados à prostituição.

A sua vida foi contada no filme de 1977 “Madame Claude”, dirigido por Just Jaeckin. Esta sexta-feira, 2 de abril, estreia um novo “Madame Claude” na Netflix — um filme que reconta a sua história, embora de forma distinta.

A verdadeira Madame Claude.

Realizado e escrito por Sylvie Verheyde, a ideia nesta produção foi apresentar a história de uma maneira mais realista e obscura — e menos glamourosa. 

Por trás da tal imagem de luxo e sedução, havia uma rede de prostituição ligada ao crime organizado, uma vida de miséria emocional e uma falta de escrúpulos quase patológica. Madame Claude ficou conhecida por ser implacável com as mulheres que trabalhavam para si. Mesmo que tivessem sido agredidas pelos clientes, tinham sempre de pagar a comissão de 30 por cento que lhe deviam.

“A Madame Claude construiu a sua mitologia. Ela era uma grande mentirosa, uma fraude que disse que queria ‘embelezar o vício’, o que significava esconder todas as coisas feias para debaixo do tapete”, disse a realizadora à “AFP”, citada pelo canal “France24”.

A cineasta francesa tem uma relação de alguma proximidade com o mundo da prostituição — a sua avó e uma prima trabalharam como prostitutas durante algum tempo. E Verheyde já tinha abordado o tema no seu filme “Sex Doll”, de 2016.

“Acho que a nossa época está muito mais preparada para a realidade e para acabar com os estereótipos daqueles anos”, acrescentou ainda, referindo-se à década de 70, quando estreou o tal primeiro filme de “Madame Claude”.

Nesta nova versão, as cenas de sexo foram gravadas de forma propositadamente pouco erótica: “Isto não é amor, elas estavam a trabalhar”.

Sylvie Verheyde disse ainda que a própria mãe, oriunda de uma classe trabalhadora que se mudou de um meio humilde para Paris, olhava para Madame Claude como sendo algum tipo de exemplo feminino. 

“Eu achei surreal, mas, na verdade, para uma mulher daquela geração e classe, havia poucos exemplos femininos com que ela se pudesse identificar.”

A personagem principal é interpretada por Karole Rocher. “Os papéis de gangsters mulheres ainda são muito raros”, disse a atriz de 46 anos à mesma agência de notícias.

“É interessante interpretar, uma vez que seja, uma personagem feminina que tem este ódio, esta raiva, que normalmente associamos aos homens. Um papel que é tão amargo, tão pouco relacionável, sem ser sexualizado — adoro.”

Depois do enorme sucesso de “Lupin”, cuja segunda parte chega ainda este ano, este pode ser o próximo grande hit francês da Netflix. Tem 1h52 de duração.

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