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Liberdade além-fronteiras: Tatiana celebra o 25 de Abril com origamis em forma de cravos

Depois de viajar durante anos, a artista com raízes japonesas decidiu homenagear os 50 anos da Revolução dos Cravos.
É um trabalho minucioso.

Tatiana Arazaki tem descendência japonesa, mas nasceu no Brasil. Quando era pequena, a sua fisionomia não enganava e, por isso, cresceu a ouvir comentários negativos de outros miúdos, que a deixavam triste. Apesar disso, nunca se deixou influenciar, e, anos mais tarde, os vínculos que sempre teve com a família foram fortalecidos, ao ponto de criar um negócio em homenagem à cultura e à tradição nipónicas.

A artista, de 38 anos, está a morar em Setúbal desde 2022. Começou o projeto TATINOTABI — que, em japonês significa “A jornada de Tati” — no início de 2023, depois de perceber que era a fazer pequenos exemplos de arte manual japonesa, como o origami, furoshiki e mizuhiki, através de workshops e demonstrações, que era feliz. No Dia da Mulher, a 8 de março, elevou o talento para uma homenagem às celebrações dos 50 anos do 25 de Abril.

Tatiana fez 25 cravos e oito pombas brancas para colocar na montra como exposição do restaurante Kamagami, na Baixa da cidade. Os trabalhos vão ficar expostos até ao final do mês de abril. Tal como o seu negócio, este é um trabalho de interculturalidade. A New in Setúbal falou com a artista, para saber tudo acerca do seu percurso, do projeto e do último trabalho realizado.

É de descendência japonesa, mas nasceu no Brasil. Como foi a experiência?
Nasci no sul do Brasil, em Londrina, no estado do Paraná. Frequentei um infantário/pré-escola privado, coordenado por uma família de japoneses e, por isso, desde pequena tive contacto com a cultura japonesa (músicas infantis, origami, por exemplo), além de ter influência da minha própria família japonesa (pais, tios e avós). Já no primeiro ciclo, fui para uma escola pública, onde era uma das únicas com ascendência japonesa, apesar da cidade de Londrina ter uma grande comunidade japonesa. Tive uma primeira infância tranquila. Passávamos os fins de semana com os meus avós, que viviam numa quinta.

E toda a sua família viveu no Brasil?
Depois da Segunda Guerra Mundial, houve um grande movimento imigratório de japoneses para o Brasil, fazendo com que o país tenha a maior comunidade de japoneses, fora do Japão. Na década de 90, o Japão estava em grande crescimento económico, precisava de mão-de-obra, o que permitiu que os descendentes dos japoneses que foram ao Brasil, tivessem a oportunidade de fazer o caminho inverso e trabalhar no Japão. O meu pai, apesar de estar empregado na época (trabalhava com informática), decidiu aproveitar essa oportunidade para trabalhar no Japão um ano e depois construir a nossa casa de sonho.

Essa casa, foi um objetivo que sempre quiseram cumprir?
Na minha infância, apesar de não nos faltar nada, vivíamos numa casa de madeira, simples, que era dos meus avós paternos e os meus pais tinham o desejo de construir uma nova casa, naquele terreno.

E o seu pai ficou só um ano?
Foi sozinho e aquele ano acabou por tornar-se em muitos outros. Em 1995, quando tinha nove anos, viajei de avião pela primeira vez, com a minha mãe e irmão. Fomos visitar o meu pai, nas férias de verão. Um ano depois, a minha mãe decidiu ir para o Japão também e eu e o meu irmão (um ano mais velho que eu), decidimos que não queríamos sair da escola no Brasil e que queríamos morar na casa dos nossos tios, enquanto a minha mãe estivesse apenas um ano no Japão com o meu pai.

A Tatiana ficou no Brasil, então…
Com dez anos, fui morar para a casa de uma tia que eu gostava e o meu irmão escolheu a casa de outro tio (em cidades diferentes a 500 quilómetros de distância). Passou um ano e fui morar na casa do mesmo tio, onde estava o meu irmão, pois a minha mãe decidiu ficar mais tempo no Japão. Nessa fase da adolescência, o meu irmão começou a mostrar que precisava dos meus pais e foi aí que o meu pai voltou. Fomos morar com o meu pai, construímos a tão sonhada casa e quando tinha cerca de 14 anos e terminei o equivalente ao ensino médio no Brasil, fomos os três para o Japão, viver com a minha mãe. Finalmente, nós os quatro.

Foi um recomeço…
Uma nova vida, feliz, mas com os seus desafios. Apesar de eu e o meu irmão termos tido contacto com a cultura japonesa desde cedo, somos brasileiros. Não falávamos, na altura, japonês fluentemente e a minha mãe tinha receio que sofrêssemos bullying na escola japonesa. Como nessa época já havia uma grande comunidade brasileira no Japão, também existiam escolas brasileiras, mas não na cidade onde morávamos. No final de contas, eu e meu irmão, por vontade própria, começámos a trabalhar numa fábrica de bicicletas. Apesar de termos plena consciência de que não é o ideal para os jovens dessa idade, começar a trabalhar, no nosso caso, foi a melhor coisa que podia ter acontecido.

Uma das peças que Tatiana produz.

E depois disso, o que é que fez? Ficou nesse trabalho?
Depois dessa fase boa onde fizemos grandes amizades, houve muitas idas e vindas ao Japão. E também descobri o gosto por viagens e por explorar novas culturas. Em 2004, fui morar para Londres para estudar inglês durante dois meses. Em 2009, finalizei o bacharelato em Turismo e Hotelaria, no Brasil. Depois, ganhei uma bolsa de estágio pelo governo do Japão e fiz um ano de estágio num grande hotel, em Yokohama. Voltei novamente ao Brasil e comecei a minha carreira na hotelaria, em 2011. Trabalhei durante alguns anos, mas vi que não era isso que queria para a minha vida. Então, comecei a concorrer a concursos públicos até que fui chamada para um e trabalhei durante dois anos no departamento de património histórico-cultural, que faz parte da Secretaria de Cultura de Londrina.

Sentiu-se sempre “bem-vinda”, tendo em conta que, apesar de ter nascido no Brasil, é descendente de pais japoneses?
Na cidade onde nasci e cresci, há uma grande comunidade de japoneses e, por isso, não me sentia a única. Apesar disso, nas escolas que frequentei, por não haver muitos descendentes de japoneses, chamavam-me de “japinha” ou “japonesa” devido à minha fisionomia e confesso que isso me incomodava quando era miúda, porque na altura não queria ser a diferente. O interessante é que cresci no Brasil a ser chamada de japonesa, mas quando fui morar para o Japão, percebi que, apesar dos traços orientais, ninguém me via como japonesa.

Porque é que diz isso?
Percebiam pela maneira de vestir ou pelos gestos. Sabiam que eu era estrangeira sem precisar abrir a boca. Anos mais tarde, percebi que cresci sem aquele sentimento de pertença, o que me fez querer viajar e explorar novas culturas para, talvez, descobrir um lugar onde eu me sentisse “em casa”.

Como foi viver e crescer entre “duas culturas” tão diferentes? Aprendeu tudo acerca de ambas?
Apesar dos meus pais serem fluentes em japonês, em casa falávamos em português. Os meus avós, por outro lado, ainda que estivessem há muitos anos no Brasil, nunca se tornaram fluentes em português. Era estranho, às vezes, porque nos fins de semana quando nos encontrávamos com os meus avós, os meus pais tinham de traduzir o que eles diziam.

O que aprendia era, no fundo, aquilo que a sua família transmita.
Sempre tive contacto com a cultura japonesa (o meu avô cantava e dançava danças japonesas) e com a língua, mas era algo meio superficial. Conhecíamos vários elementos do Japão, como livros, animes, comidas, mas não posso afirmar que aprendi as duas culturas na mesma proporção. Sobre o origami, lembro-me que sempre tive interesse. Tinha alguns livros do Japão e fazia as figuras sozinha, a seguir as instruções.

A Tatiana mudou-se para o Japão, aos 14 anos. Foi um choque cultural e de tradições ou sempre viveu com elas?
Quando fui para o Japão, fui mais com o objetivo de reunir a família. Não tinha na altura tanta noção das diferenças culturais. Mas tinha um sentimento de que parte de mim pertencia àquele lugar. Entretanto, por ser uma cultura totalmente diferente de onde eu cresci, no dia a dia, percebia que muitas coisas eram diferentes, mas essa “diferença cultural” creio eu, foi relativamente amenizada pelo facto dos meus pais conhecerem as duas realidades e poderem de certa forma “explicar” ou contextualizar, como se não houvesse um certo e errado e sim apenas “aqui é assim” e “ali é diferente”.

E porque é que veio para Portugal?
No final de 2016, conheci o meu marido em Cusco, no Peru. No início de 2017, decidi sair do meu trabalho na Secretaria de Cultura para aventurar-me e viajar com ele, que na época era apenas namorado. Iniciámos a nossa viagem em março de 2017 e Portugal foi um dos primeiros países que passámos (do total de uns 25 países). Fomos para uma cidade do interior no Algarve, para fazer workaway (trabalho voluntário em troca de estadia e alimentação).

E regressaram antes de ficar definitivamente?
Sim. Na segunda vez que viemos a Portugal foi em 2019, quando estava grávida da minha filha. Queríamos ficar no Porto, apesar não conhecer a cidade na altura. Morámos lá durante três meses, mas durante a gravidez, decidimos morar em França, em Montpellier (o meu marido é francês, da Normandia) e ter a minha filha lá.

Viajou muito.
Bastante. Veio a pandemia e fomos morar durante um ano para o Japão, para ficarmos próximos dos meus pais. Voltámos depois para a França, mas já com o desejo de tentar novamente Portugal, só que noutra região. Queríamos um local próximo do aeroporto, mas não necessariamente Lisboa. Então, em meados de março de 2022, saímos de carro, do norte da França, em direção a Portugal com o objetivo de viver aqui. A minha filha, na altura já tinha dois anos, e queríamos que ela fosse para uma escola onde a língua falada fosse português ou francês, mas como o meu marido não queria mais viver em França, viemos para este País.

E logo para Setúbal?
Não. Uma amiga portuguesa, que vive em Moçambique, tinha falado sobre Sesimbra e então reservámos um espaço lá durante um mês, para ver se gostávamos ou não. Gostámos de Sesimbra, mas não para viver. Num fim de semana, viemos a Setúbal, para explorar a região e ficámos apaixonados. Decidimos que queríamos viver aqui e começámos a procurar um sítio para morar.

Onde aprendeu a fazer as artes manuais japonesas?
Aprendi origami quando era pequena e fui aprofundando o conhecimento ao longo da minha vida, mas de forma despretensiosa. Apenas como hobby. As outras artes foi algo mais recente. Na última vez que vivi no Japão, em 2022, o meu olhar para a cultura japonesa mudou. Acho que passei por um processo interno de aceitação maior em relação às minhas origens e foi quando comecei a apreciar mais as minhas raízes e a cultura japonesa em geral.

Qual gosta mais de fazer?
É difícil de responder. Parece que depende do momento.

Quando e porque é que quis começar o projeto da TATINOTABI?
Uma vez instalados em Portugal, e assim que a minha filha conseguiu uma vaga no atelier Montessori, foi um momento que tive para pensar em mim, no início de 2023. Primeiro, fui à procura de trabalho, mas vi que não era fácil encontrar algo que eu realmente quisesse fazer. Na mesma altura, iniciei uma formação em Empreendedorismo Sustentável porque já tinha algumas ideias na cabeça.

Foi nessa altura que começou “a sério”.
Durante a formação, o projeto começou a ganhar forma. É como se tivesse de viver tudo o que eu vivi para valorizar algo que sempre esteve presente, mas que agora, com a maturidade, eu passasse a ver de outra forma. Vi também uma oportunidade já que, ao contrário do Brasil, aqui em Portugal não há tanta influência da cultura japonesa.

Qual é o conceito? E quem tenta aprender, consegue à primeira ou só depois de várias tentativas?
O objetivo é repassar os meus conhecimentos e fazer com que as pessoas conheçam estas artes manuais, seja através de oficinas ou demonstrações. Depende de pessoa para pessoa e também do conteúdo. Tento adaptar conforme o público.

Que peças tem para venda e qual é o intervalo de valores?
Para venda, tenho brincos feitos em origami e também em mizuhiki (fio de papel japonês). Há algumas molduras em origami também e o os valores variam entre os 19€ e os 25€.

Como é que surgiu esta ideia para os cravos do 25 de Abril?
Propus ao restaurante Kamagami. Por ser cliente, já tinha reparado que tinham pássaros em origami na janela/montra do restaurante. Por isso, tive a ideia de trocar pelos cravos durante as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Apesar de estar há pouco tempo em Portugal, percebi a importância desta data para o País e também quis fazer parte dessa celebração. Os 25 cravos e oito pombas brancas foram instalados no dia 8 de março, para também celebrar o Dia da Mulher, como forma de luta pela igualdade e liberdade. É a primeira vez que tenho o meu trabalho exposto desta maneira e era um desejo pessoal de experimentar diferentes formas de manifestação.

Quanto tempo demorou a fazer e o que acha do seu trabalho final?
Demorei algumas semanas. Na realidade, é algo simples e, mais do que o trabalho em si, era o desejo de manifestar através de uma arte diferente, a importância que este evento representa para Portugal, já que agora é onde moro também. Fiquei satisfeita com o meu trabalho, por ser a primeira vez que faço algo do género, mas queria saber a opinião das outras pessoas e, por isso, surge o interesse na divulgação.

Quais os projetos para o futuro?
Neste momento, estou a aproveitar as oportunidades que estão a aparecer. Apesar de ter começado o projeto há menos de um ano, recentemente tenho sido contactada/recomendada para parcerias/trabalhos que nunca tinha imaginado ser possível e fico muito contente por isso.

Siga o Instagram para acompanhar o percurso da artista. Carregue na galeria para conhecer melhor alguns trabalhos feitos por Tatiana

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