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João Rosa: “Ainda hoje guardo o cavalete que o meu bisavô utilizava para pintar”

Setubalense é o autor da mostra “Ways of Seeing — Me, My World and I”, patente na Casa da Baía. O talento passou de geração em geração.
O percurso do artista não foi fácil.

Vamos começar com uma memória. Uma importante, mas não mais que as outras, já que João Rosa tem tantas que o ligam ao mundo das artes e fizeram com que a arte se tornasse (inevitavelmente) parte dele. “Desde cedo, lembro-me da minha avó me contar histórias sobre o meu bisavô pintar paisagens a óleo. Ainda hoje guardo comigo uma pintura dele e um cavalete que o meu bisavô utilizava para pintar. Ou sobre o meu tio, filho dessa mesma avó, que vendeu pinturas, mais precisamente aguarelas, do artista setubalense Rogério Chora”, conta o jovem à NiS.

Tem 27 anos e um longo percurso, com vários estudos e diversos trabalhos, alguns ligados à arte, e outros necessários para se sustentar. A verdade é que desde miúdo se recorda de apanhar e querer preservar tudo o que achava interessante, desde lixo, a pequenos animais. Mais tarde, tentava (se a mãe permitisse) criar algo a partir desses objetos. Agora, vai inaugurar uma exposição na Casa da Baía, dia 12 de março, intitulada “Ways of Seeing — Me, My World and I”. A mostra poderá ser visitada até 7 de abril. 

A New in Setúbal falou com o artista para saber tudo acerca do que fez ao longo da vida, como construiu a sua carreira e o que significa este projeto, além dos objetivos e planos para o futuro.

Quando é que nasceu o “bichinho das artes”?
Num primeiro momento, o meu percurso começa por ser comum. Terminei o Curso Científico de Artes Visuais, no ensino secundário, na Escola Secundária Sebastião da Gama, onde tive o grande contacto inicial com as artes. Estive indeciso ao escolher o curso que iria tirar no ensino superior. Ainda que não se compare com a paixão pelo mundo artístico, tenho outras duas áreas de que gosto muito: o desporto e a gastronomia. Continuam presentes na minha vida.

Acabou por seguir o que o fazia realmente feliz, ainda assim.
Sim. Em 2014, aos 17 anos, saí de casa dos meus pais e mudei-me para Santarém onde ingressei na Licenciatura de Artes Plásticas e Multimédia. Vivi lá durante três anos, até 2017. Esta experiência permitiu-me alargar os meus conhecimentos nas artes a nível da escultura, desenho, pintura e até mesmo em áreas como a construção, o design e a comunicação, o marketing, fotografia e vídeo e curadoria.

E gostou?
Foi uma experiência contraditória: relevante, por um lado, e insuficiente por outro. Foi um curso que me deu muitas bases, mas pouco sustento para, na prática, seguir qualquer uma das áreas que descrevi. E fiz outras coisas paralelamente. Ainda no verão de 2014, estive a trabalhar na praia da Figueirinha, na Serra da Arrábida. Era responsável pelo aluguer dos espaços de lazer da concessão e pelo apoio à organização/negócio. Depois de concluir a licenciatura, regressei para Setúbal e tive dois trabalhos em simultâneo. Durante o dia, fui vendedor ambulante da Olá e à noite era distribuidor de pizzas.

E foi também aí que começou a vender os seus trabalhos de artista?
Mais ou menos nesta altura, comecei também a vender retratos, tanto a carvão como retratos digitais, estilo ilustração. Uma atividade que se estendeu ao longo dos anos, até hoje, como uma forma de ganhar dinheiro para sustentar a minha vida artística, mas também como uma ocupação. Gosto de fazer, apesar de não ser a diretriz que exploro nas artes. Foi aí que dei início à minha “carreira artística”, participando em concursos nacionais e internacionais, com o objetivo de começar a inserir-me nesse mundo, mas também a promover o meu trabalho e a crescer enquanto artista.

E continuou a percorrer o seu sonho.
No fim do verão de 2017, fui para as Caldas da Rainha tirar um mestrado de Artes Plásticas na Escola Superior de Artes e Design (ESAD). Foi quando defini que as artes seriam o meu caminho e objetivo de vida. Uma decisão importante e arriscada, não só porque foi um investimento de dinheiro, como de tempo, meu e da minha família. Mas foi muito útil e uma ótima decisão. Tive a certeza de que iria passar a minha vida a lutar e trabalhar para ser artista, independentemente das dificuldades. Consciencializei-me de que seria um percurso muito difícil, principalmente em Portugal.

Durante o mestrado, correu tudo como esperava?
Houve contratempos. Em 2018, no segundo ano de mestrado, mudei-me, mais uma vez, por motivos pessoais, neste caso para Leiria. Comecei a conciliar os estudos com emprego, durante o dia deslocava-me para as Caldas da Rainha para o curso e, à noite, trabalhava na Pizza Hut. Quando estava a fazer a tese, em que não existia a obrigatoriedade de ir à escola todos os dias, comecei a trabalhar a full-time para me sustentar e começar a ganhar alguma autonomia financeira. Entretanto, mudei de trabalho, passei a trabalhar à noite, e estive até ao início de 2022 a tentar terminar a tese. A ler, a investigar, a pintar e a escrever sem parar.

Conseguiu terminar?
Apesar de todos os esforços pessoais, profissionais e enquanto estudante, o trabalho escrito parecia não acompanhar a qualidade que o trabalho prático demonstrava. Nesta fase, encontrei e deparei-me com várias dificuldades em gerir toda a minha vida nos vários parâmetros existentes e decidi não acabar o curso. Nunca tomei isto como o fim da minha vida artística, pelo contrário. Tinha plena consciência que tenho tudo ao meu alcance para continuar a lutar e trabalhar para concretizar o sonho de ser artista e trabalhar ativamente nas artes e na cultura.

Quando é que toma a decisão de voltar a Setúbal?
No início de 2023, vivi outra fase complicada a nível pessoal. Fiquei desempregado ainda em Leiria e, em fevereiro, tomei a decisão de regressar, então, a Setúbal após tantos anos, com o objetivo de ter mais oportunidades profissionais e artísticas. Desde então, tenho vindo a apostar no design, fotografia e vídeo, áreas que também tenho muito gosto em realizar.

E começa a afirmar-se e a mostrar o seu trabalho, nessa área. É isso?
Comecei como freelancer, com vários trabalhos nessas áreas para associações, restaurantes, grupos desportivos, empresas, etc. Esta minha marca enquanto Designer Gráfico tem vindo a consolidar-se e é, neste momento, algo em que quero apostar e seguir como alternativa às artes. Ainda em 2023, tirei outros cursos para crescer enquanto profissional e obter mais conhecimentos que me possibilitassem mais oportunidades a nível profissional. Tirei o curso de Mediação Cultural, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, e depois tirei o curso de Criação de Páginas WEB Online, através do IEFP. Fiz também uma Formação de Formadores num Centro de Formação em Samora Correia, para poder ser formador e dar aulas na minha área.

Não desistiu.
Não. Em setembro comecei o cargo de Designer Gráfico e Gestor de Redes Sociais para o Grupo Desportivo do Fabril do Barreiro, uma atividade que se prolonga até ao presente, como freelancer/part-time. Em 2024, após tanto tempo e depois de inúmeras tentativas, finalmente arranjei emprego na minha área. Comecei a trabalhar como Designer e Técnico de Impressão na empresa Tipolinha, na Moita.

 E já está a estudar novamente, não é?
Comecei a tirar outro curso, desta vez de E-Marketing, de novo no Centro de Formação, em Samora Correia. Continuarei a estudar consoante a minha disponibilidade para crescer enquanto profissional e até sentir que tenho todas as ferramentas e “canudos” para poder trabalhar no setor da cultura, tendo um papel e cargo de relevância na criação e organização de eventos e iniciativas artísticas e culturais. É importante frisar que, desde a primeira procura por concursos de arte, fui sempre realizando exposições e consegui ter a oportunidade de mostrar o meu trabalho através de iniciativas.

Recuando ao passado, qual é a primeira memória que tem da arte na sua vida?
Na realidade, a arte propriamente dita apareceu desde que me lembro de me sentir um miúdo diferente dos outros. Desde atitudes que tinha, um pouco fora do normal, e também a forma como via o mundo, as pessoas. Desde pequeno que sempre fui muito sensível e atento a pormenores que a maior parte das pessoas ao meu redor não ligavam. A partir do primeiro momento que desenhei e pintei, senti uma ligação enorme e passou a ser desde então a atividade que mais me dá prazer. Não sei especificar a idade deste acontecimento, só sei que foi uma pintura com uma rosa sobre o Dia da Liberdade.

E qual foi a primeira obra que fez?
Foi durante a licenciatura, no momento da minha vida em que comecei a definir a minha personalidade artística e tipo de trabalho que iria explorar até aos dias de hoje. A obra é um autorretrato pintado com tinta a óleo com dimensões de 70×100 centímetros. Uma obra muito pitoresca e com um estilo meio que expressionista. Este autorretrato esteve exposto numa exposição que mostrou vários trabalhos do curso, no Palácio de Landal, em Santarém.

O autorretrato.

O que significa a arte para si?
Pode parecer estranho, mas é sempre uma pergunta difícil de responder. A arte é algo muito importante na minha vida e que moldou o meu ser. É muito intrínseco a mim próprio. É tudo o que nos rodeia, desde os nossos antepassados, até à atualidade. Tudo faz parte da nossa cultura, desde os artefactos, pinturas rupestres à arquitetura e aos murais e pinturas de street arte. É viver num mundo à parte, um mundo em que só eu consigo entrar. Ser artista é como um telescópio. É ver mais além. É muito mais do que pintar uma tela. Muito mais do eu ilustrar ou criar imagens. Para mim, a arte vive muito mais dentro, do que fora de nós.

E quais são as suas inspirações para pintar e desenhar?
Um artista tem de saber aquilo que o inspira, tem de ter consciência do que explora e investiga. O que mais me inspira são as pessoas, a forma como me relaciono com elas e elas comigo. O Eu, as minhas lutas, os momentos positivos e negativos, o impacto que podemos ter no mundo. Posso citar duas estrofes de um texto pessoal que responde à questão.

Retrata o outro,
Mostra a vida.
Retrata-te a ti próprio
Representa a humanidade.

Quero ser humano,
Sofrer, sentir e amar.
Vou olhar para a vida,
Como o sol se abre para o mundo.

Tem algum ídolo?
Sim. Admiro e sigo o trabalho de vários artistas nacionais e outros espalhados pelo mundo. Mas posso referir dois que realmente gosto muito. Ambos fizeram parte da minha dissertação de mestrado e inspiraram-me. São Pedro Guimarães, artista plástico português, que faz um trabalho excecional e único. E um pintor alemão, atualmente com 92 anos, Gerhard Richter. É para mim, provavelmente, a maior referência na arte. Adoro o trabalho dele, seja a nível figurativo, ou abstrato. Obtém resultados criativos e imagens como ninguém.

Qual é o tipo de trabalho que desenvolve na sua área?
É muito versátil e acabo por trabalhar em várias áreas em simultâneo: pintura, desenho, escultura, fotografia, escrita/literatura. No entanto, o que mais gosto é de pintar. Mais recentemente, tenho vindo a desenvolver o gosto pela escrita e, muitas vezes, combino e faço cruzamentos da escrita com as minhas obras. Sinto uma grande relação com a arte quando realizo obras que exploram o figurativo e o corpo humano.

Qual foi o trabalho que mais gostou de fazer até hoje?
Não consigo definir um trabalho que tenha gostado mais de fazer. A arte faz parte da minha vida e de quem sou. Gosto sempre dos resultados, porque todos são bem-vindos e acrescentam algo, ainda que de formas diferentes. Mas dos trabalhos mais recentes, da última exposição individual que realizei, “Vivo rápido, morro imediatamente”, gosto muito de duas obras: “The Mental Search” e “Shell sound”, pintura e escultura, respetivamente.

É difícil trabalhar nesta área?
Sim, para mim é muito difícil conciliar a arte com a vida pessoal, com o emprego, com os estudos. Um dia só tem 24 horas e é impossível estar focado na arte como desejo, além do investimento que é necessário para poder produzir, não só a nível de materiais como também de um espaço/atelier. Ainda mais difícil se torna tendo em conta o País onde vivo. Apesar de estar a crescer, as oportunidades não são muitas e o valor que se dá à arte ainda é muito inferior aquilo que deveria ser.

Tem peças à venda?
Sim, mas por norma apenas faço referência à venda de obras quando essas estão expostas em alguma exposição. Nas redes sociais, o objetivo é mostrar e dar a conhecer o meu trabalho. Os intervalos de preços das obras variam entre 50€ e 1500€.

Falando agora da exposição que vai inaugurar na Casa da Baía, o que é que significa?
O título da exposição é “Ways of Seeing — Me, My World and I”. Esta exposição representa as várias formas de ver o mundo e as pessoas. A minha forma de ver, a minha perspetiva e é também uma forma de representar a minha cabeça, o que penso, o que sinto e a minha arte.

O que é que se pode esperar?
Esta exposição vai mostrar uma grande diversidade de obras realizadas entre 2022 e 2024. Vai ter obras de pintura, escultura, desenho e escrita/literatura. Vou também ter disponíveis alguns diários gráficos, onde mostro um pouco mais sobre o meu processo criativo e ideias.

E o que espera o João?
Espero que a exposição tenha êxito. Que as pessoas gostem e admirem o meu trabalho, que se possam questionar, repensar e refletir ao verem e lerem as minhas obras, pois cada um de nós tem uma forma de ver e de pensar e essas diferentes opiniões e pensamentos são sempre relevantes e enriquecedores.

Há projetos para o futuro?
Claro que sim. O primeiro grande objetivo é continuar a trabalhar e lutar para conseguir ter cada vez mais lugar no mundo artístico. Quero muito continuar a expor e entrar em concursos para poder mostrar o meu trabalho e dar-me a conhecer. Outro grande objetivo é continuar a estudar e a aprender e, claro, pintar. E, quem sabe, um dia ter a minha própria associação/empresa no setor da cultura e das artes. 

Carregue na galeria para conhecer algumas obras do artista setubalense.

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