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João Mota: “É desumano que os apoios à cultura sejam feitos por concurso”

A New in Setúbal falou com o artista independente sobre os impactos da pandemia no setor das artes.
João Mota recorreu ao apoio da Segurança Social para os trabalhadores independentes. Foto: Helena Tomás.

João Mota trabalha em vários projetos musicais: Um Corpo Estranho, Delamotta, The Bossa Alibi e o mais recente, Et Toi Michel. À New in Setúbal, o músico explicou que os efeitos da pandemia de Covid-19 começaram a sentir-se no ano passado, com o projeto The Bossa Alibi. 

“É um projeto de animação musical em restaurantes e hotéis, em parceria com o músico Renato Sousa. Com a crise que se instalou no setor da hotelaria, foi logo das primeiras quebras que tive. O ano estava preenchido e, apesar de sabermos que é um produto muito sazonal, a agenda foi toda suspensa”, explica o setubalense de 41 anos.

No primeiro confinamento, João Mota aproveitou o tempo em casa para pôr o trabalho em dia e desenvolver outros projetos que estavam em stand-by. Por exemplo, no caso do projeto a solo Et Toi Michel, lançou dois singles, “A Montanha” e “Canção de Outra Invenção”, além de preparar a pré-produção do novo disco de Um Corpo Estranho.

“Obviamente que foi um período muito duro pela incerteza do que iria acontecer, mas acabei por encarar o primeiro confinamento como uma oportunidade para ganhar tempo e retomar algumas coisas”, conta à NiS.

Com os concertos cancelados, João Mota candidatou-se aos apoios da Segurança Social para os trabalhadores independentes. “Felizmente, tive mais sorte que outros colegas porque já tinha atividade aberta há muito tempo. Não passei mal, mas confesso que os rendimentos ficaram muito aquém e sinto que trabalhei o dobro do ano anterior. Aceitei trabalhos que não costumava fazer e tive de me adaptar à nova realidade”.

Além da ajuda do estado, João Mota contou com alguns apoios do município de Setúbal e do Teatro Estúdio Fontenova. O músico considera que as artes foram dos setores que mais respeitaram as normas das autoridades de saúde e se esforçaram para continuar os espetáculos no contexto de pandemia.

No entanto, o artista independente deixa algumas críticas ao governo. “Acho que o Ministério da Cultura foi o que se portou pior nesta fase. Senti que o governo estava bastante perdido sobretudo em relação à questão dos apoios”, diz.

Para João Mota, “é desumano”, que os apoios do estado para o setor da cultura tenham sido feitos por concurso. “Este sistema deixou muitos profissionais de fora, como por exemplo os artistas de rua para os quais não há legislação, criando uma grande desigualdade entre as pessoas”, explica.

Eventos online: uma solução provisória para o setor

Nos períodos de confinamento, o músico participou em alguns eventos online que, na sua opinião, “não substituem o trabalho de palco nem resolvem a perda de rendimento das bilheteiras”.

Ainda assim, João Mota revela-se preocupado com o futuro do setor das artes. “Tenho receio que a questão do online seja levada ao extremo e que desvie as pessoas das salas de espetáculos e eventos ao vivo quando as restrições da pandemia forem levantadas. No entanto, tenho esperança que as coisas aos poucos voltem a uma nova normalidade, porque as pessoas precisam da cultura e esta pandemia só veio reforçar isso.” 

 

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