Em 2002, quando a Netflix entrou em bolsa, uma ação custava cerca de 13 euros — um detalhe quase irrelevante na altura, mas hoje revelador. Duas décadas depois, o valor ronda os 82 euros, um crescimento de aproximadamente 533 por cento que ajuda a explicar como uma empresa que começou de forma modesta se transformou num dos impérios mais poderosos da indústria do entretenimento contemporâneo.
Essa trajetória ganhou um novo capítulo a 5 de dezembro, quando se soube que a Netflix adquiriu os estúdios da Warner Bros., fundados em 1923, e o negócio de streaming HBO Max por 71 mil milhões de euros. Caso a operação seja aprovada pelas autoridades reguladoras da concorrência, o catálogo da plataforma passará a integrar alguns dos títulos mais emblemáticos da cultura popular, como “Harry Potter”, “A Guerra dos Tronos”, “The Last of Us”, “Succession” e “Looney Tunes”.
Fundada em 1997, na Califórnia, a Netflix começou como uma pequena empresa de aluguer de DVD enviados pelo correio. Nem os próprios fundadores acreditavam que viriam a competir com a televisão tradicional. Hoje, embora a sede continue em Los Gatos, na Califórnia, o impacto da empresa estende-se muito além dos Estados Unidos.
Em meados de 2025, a plataforma já ultrapassava os 300 milhões de assinantes pagos em todo o mundo, um número que a coloca numa posição praticamente inalcançável para a concorrência direta. Em comparação, o segundo serviço mais popular, a Prime Video, da Amazon, conta com cerca de 240 milhões de subscritores, com uma ressalva: este número inclui os assinantes do serviço premium da empresa de comércio eletrónico e não apenas o serviço de streaming.
Os bastidores financeiros
A expansão da Netflix não se faz apenas de forma digital. A empresa tem uma sede para a Europa, Médio Oriente e África em Amesterdão, nos Países Baixos, a partir de onde são geridas muitas das operações fora dos Estados Unidos, incluindo a faturação de clientes portugueses e espanhóis. É igualmente através da Netflix International B.V. que uma parte significativa dos impostos relativos à atividade europeia é paga.
Ainda assim, a Netflix não divulga publicamente quanto paga em imposto nos Países Baixos ou noutros países europeus. Algumas investigações jornalísticas têm, no entanto, revelado detalhes sobre o que se passa por detrás da cortina. Entre 2019 e 2020, a subsidiária francesa Netflix Services France SAS pagou menos de um milhão de euros em imposto sobre os lucros empresariais. Parte da receita era declarada através de uma unidade registada nos Países Baixos, segundo revelou o jornal francês “La Lettre” em 2023.

Este mecanismo de faturação cruzada foi interrompido em 2021. A partir desse momento, as receitas declaradas em França aumentaram significativamente, passando de cerca de 47 milhões de euros em 2020 para aproximadamente 1,2 mil milhões no ano seguinte.
Estas informações estiveram na base de uma investigação por suspeita de fraude fiscal, que levou a buscas nos escritórios da Netflix em Paris e Amesterdão por autoridades fiscais francesas e neerlandesas, em colaboração com entidades como o Eurojust. A investigação continua em curso e não implica, para já, que a empresa venha a ser considerada culpada.
As disputas de impostos
Nos últimos anos, a Netflix tem enfrentado várias disputas fiscais em diferentes mercados, o que evidencia as dificuldades das grandes plataformas digitais em conciliar operações globais com legislações tributárias locais. No Brasil, o tema ganhou destaque nos resultados financeiros da empresa em 2025. A plataforma registou uma despesa de cerca de 527 milhões de euros relacionada com uma disputa sobre a aplicação da Contribuição de Intervenção no Domínio Económico (CIDE), um imposto que incide sobre pagamentos ao exterior em transações tecnológicas e de serviços. O impacto foi sentido no terceiro trimestre de 2025. “É o custo de fazer negócios no Brasil”, afirmou Spencer Neumann, diretor financeiro do grupo, citado pela “CNN”.
Em Itália, a disputa fiscal incidiu sobre o período entre 2015 e 2019. As autoridades consideraram que a Netflix deveria pagar impostos com base na presença de infraestruturas digitais que suportavam o serviço no país. Em 2022, a empresa aceitou pagar 55,8 milhões de euros para encerrar o inquérito das procuradorias de Milão. Após o acordo, abriu um escritório em Roma e contratou pessoal local para assegurar o cumprimento da regulamentação fiscal.
No Japão, as autoridades fiscais revelaram que a empresa não tinha reportado uma parte relevante da sua receita local entre 2017 e 2019. A situação terá sido regularizada posteriormente, embora os valores nunca tenham sido tornados públicos.
Crescer, crescer, crescer
O crescimento da Netflix tem sido constante desde o início do streaming. Em 2010, contava com pouco mais de 18 milhões de assinantes. Em 2015, ultrapassou os 70 milhões. Em 2020, impulsionada pela pandemia, superou os 200 milhões e, nos últimos anos, atingiu os mais de 300 milhões atuais.
Este aumento de utilizadores refletiu-se numa subida expressiva das receitas. Em 2010, a empresa faturou 1,85 mil milhões de euros. Em 2024, esse valor superou os 33,48 mil milhões. Só no segundo trimestre de 2025, a Netflix reportou receitas de 9,51 mil milhões de euros e um lucro de 2,66 mil milhões. No terceiro trimestre, revelou receitas de cerca de 9,92 mil milhões de euros.
O crescimento não se explica apenas pelo número de assinantes. A empresa emprega atualmente cerca de 14 mil trabalhadores a tempo inteiro, mais do triplo do que tinha há pouco mais de uma década. Paralelamente, tornou-se uma das maiores produtoras de séries, filmes, documentários e conteúdos locais, como “Rabo de Peixe”, em Portugal.
Em abril, Ted Sarandos, co-diretor-geral da Netflix, afirmou na Time100 Summit que “a Netflix está a construir um modelo sustentável onde a criatividade, a escala e o investimento certo se encontram para tornar o entretenimento global mais acessível e mais forte do que nunca”.
Portugal integra esta estratégia desde 21 de outubro de 2015, data da chegada oficial do serviço ao País. A empresa não divulga o número de subscritores portugueses, mas sabe-se que os mercados de Portugal e Espanha são geridos em conjunto. Em 2022, Manuel Román Cantón foi nomeado diretor de marketing para Espanha e Portugal.
Apesar de não existir uma sede operacional em Portugal, grande parte da atividade é gerida a partir do escritório de Tres Cantos, em Madrid, e através da entidade neerlandesa responsável pela operação europeia.
A expansão é sustentada por um forte investimento. Embora os números globais não sejam totalmente públicos, a “Variety” revelou, a 23 de setembro, que a Netflix investiu mais de 14 mil milhões de euros em conteúdos em 2024.
A aposta no conteúdo local
Para crescer fora dos Estados Unidos, a Netflix apostou fortemente na produção de conteúdos locais, adaptados às preferências culturais de cada mercado.
Os Estados Unidos continuam a ser o principal polo de investimento, com cerca de 7,4 mil milhões de euros anuais em conteúdo original. Segue-se o Reino Unido, onde o investimento ronda os 5,2 mil milhões de euros.
A Coreia do Sul tornou-se outro mercado estratégico, em grande parte devido ao sucesso dos k-dramas. Entre 2023 e 2027, a Netflix prometeu investir mais de 2,2 mil milhões de euros no país que deu origem a “Squid Game”.
Em Espanha, o plano passa por investir mais de mil milhões de euros até 2029. Após o sucesso de “La Casa de Papel” e “Elite”, a empresa criou em Tres Cantos o seu primeiro hub europeu de produção.
Fora dos centros tradicionais, a Netflix tem aumentado o investimento em África. Desde 2016, aplicou mais de 160 milhões de euros em projetos na África do Sul, Nigéria e Quénia. Na Tailândia, investiu cerca de 175 milhões de euros entre 2021 e 2024, produzindo mais de 20 séries e filmes.
Este modelo permitiu à empresa produzir conteúdos em mais de 50 países, em colaboração com produtoras locais, criando histórias com potencial global, como aconteceu com “Rabo de Peixe”.
Já em 2015, o então vice-presidente da Netflix Europa, Joris Evers, afirmou numa convenção da Panasonic que não tinha dúvidas “que o futuro da televisão estava no digital e não no tradicional”. Com centenas de milhões de utilizadores e presença quase global, esse cenário parece cada vez mais próximo.
A empresa tem também alargado a atuação para além do streaming, apostando em videojogos integrados na plataforma, eventos, ativações e merchandising.
Quanto às críticas de que a Netflix poderá ameaçar o cinema tradicional, sobretudo com a aquisição da Warner Bros., Ted Sarandos tem uma resposta clara. Em entrevista à “Variety”, afirmou que a empresa está, na verdade, “a salvar Hollywood”.
A Netflix é proprietária do Bay Theater, em Los Angeles, e do Paris Theater, em Nova Iorque. Segundo Sarandos, ambos foram preservados para manter a experiência cinematográfica: “Não os salvámos para salvar o negócio das salas. Salvámo-los para manter a experiência de ir ao cinema.”
A empresa continua também a cumprir os requisitos de exibição em sala para filmes que pretendem concorrer a prémios, como aconteceu com “Glass Onion”, em 2022, e “Emilia Pérez”, em 2024.
“Temos estes lançamentos feitos à medida e temos de cumprir certos requisitos para os Óscares”, explicou Sarandos. “Têm de estar em exibição durante algum tempo, ajuda um pouco no ciclo mediático. Mas tenho tentado incentivar todos os realizadores com quem trabalhamos a focarem-se no público, nos fãs. Façam um filme que eles adorem, e eles recompensar-vos-ão. Não pensem só nas salas de cinema.”

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