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Fórum Municipal Luísa Todi enche com concerto especial de A garota não

A artista setubalense apresentou as músicas do disco, "2 de Abril", lançado recentemente. A NiS assistiu ao ensaio geral.
"2 de Abril" é o nome do segundo disco da cantautora.

A tarde do dia 26 de maio, quinta feira, já ia longa e solarenga quando a NiS se dirigiu ao Fórum Municipal Luísa Todi para assistir ao ensaio geral do concerto de A garota não com a Orquestra Ligeira do Conservatório Regional de Palmela, inserido no Festival Internacional de Música de Setúbal. As únicas pessoas que se viam na parte de fora do edifício estavam só de passagem, um cenário que viria a transformar-se daí a algumas horas quando o concerto estava prestes a começar.

Pelas 17h20 entrámos na sala de espetáculos onde estava Cátia Oliveira (A garota não) a ensaiar com um dos convidados que viria a pisar o palco ao final da noite, o Ohmonizciente. Entre testes de som e luz, os artistas trocam risos no final do ensaio, já a assumir o bom momento que dali viria.

Passados 15 minutos, os jovens da Orquestra Ligeira do Conservatório Regional de Palmela entram em palco para testarem os instrumentos, peças essenciais para tornar o concerto num momento mágico. Cerca de 20 jovens encontram-se sentados nas cadeiras com a pauta à frente e os instrumentos na mão, desde saxofones, trompetes e até um xilofone. Iniciam-se os testes.

Neste momento, abordamos Cátia Oliveira para conversar um pouco sobre o espetáculo que iria acontecer. Saímos da sala e a artista dá uma pequena entrevista à NiS ao som do ensaio dos instrumentos, que se ouvem perfeitamente do lado de fora.

Começa por contar que vai cantar essencialmente as canções do seu segundo álbum, “2 de Abril”, apresentado, precisamente, no passado dia 2 de abril. “O disco fala sobre a minha vida, sobre a vida que eu observo nos outros e sobre alguns amores e dissabores. É um álbum que sinto que tem uma série de cores e de sentimentos associados, mas tem, sobretudo, uma escrita de observação”, explica.

A cantautora já tem habituado o público à sua linha de arte que reflete a realidade do nosso tempo, nomeadamente problemas sociais e económicos que afetam tantas pessoas. “Para mim, a arte tem de ter um papel de agente político, de mudança, de despertar consciências. Se eu conseguir inspirar outras pessoas a mudar algumas realidades, já fico contente”, revela.

A artista setubalense.

Tocar em Setúbal tem sempre um sabor especial para esta artista da cidade, que a chama “terra-mãe”. Será sempre um local especial, pois é a sua casa. Confessa que, até hoje, ainda não encontrou um sítio que considerasse capaz de viver sem ser aqui. Além disso, é onde quer começar por “fazer diferente” enquanto “cidadã e ser humano”, pois é onde sente que “ainda tem algo a acrescentar”.

Sobre o facto de cantar acompanhada pela Orquestra Ligeira do Conservatório Regional de Palmela, não se podia sentir mais honrada. “Quando estou ali com os miúdos e vejo o talento que têm e o facto de estarem a aprender um instrumento, que é uma coisa mágica, também me sinto parte desse momento mágico”, afirma. Aproveitou ainda para recitar um verso de Fernando Pessoa, que diz “aqui ao leme deste barco, sou mais do que eu”, para comparar o sentimento de partilhar o palco com os mais jovens. “Sou muito maior porque sou maior com eles”, conta.

Por volta das 17h50 Cátia Oliveira regressou aos ensaios para fazer os testes de voz com os três jovens que a iriam acompanhar na parte vocal. Já se ouvia a música “Dilúvio”, que integra o segundo disco da setubalense. A junção das vozes, com a orquestra e as luzes, transmitia, de facto, um momento mágico. Impossível ficar indiferente.

Depois de alguns ensaios da canção, passaram para a segunda música “Prédio Mais Alto” e, de seguida, para a última, “Canção a Zé Mário Branco”. Enquanto se ouve a junção das vozes com os instrumentos, Cátia Oliveira aponta para o braço para mostrar os arrepios que estava a sentir, por toda a envolvência do momento. No final ouvem-se aplausos nada tímidos das poucas pessoas que assistiam ao ensaio.

Dá-se por terminado o ensaio geral. Às 21 horas, o exterior do Fórum Municipal Luísa Todi nem parece o mesmo da hora do ensaio. Está cheio. A multidão acumula-se para assistir ao espetáculo. Ao entrar, a sala está bem composta, tanto no balcão como na plateia. Às 21h13, A garota não entra em palco com os músicos Sérgio Mendes, na guitarra, e Diogo Sousa, na percussão.

O início do concerto ficou marcado pelos versos da primeira música “Canção sem final”, que dizem: “podem decretar o fim da arte, é como decretar o fim da chuva. Há sempre alguém que sonha em qualquer parte e a nossa voz nunca será viúva”. Após a música, a artista indicou que o seu novo álbum é uma homenagem ao bairro onde nasceu e cresceu e às experiências que lá viveu, dedicando-o às “vizinhas que lhe davam carcaças com manteiga”, entre outras pessoas que a marcaram.

Cantou “Química” e “Ai Weiwei” e, na quarta música, a orquestra entrou em palco. Ouvem-se aplausos e Cátia Oliveira mostrou-se honrada pelos momentos que se seguiriam, (que foram incríveis). A seguir às duas canções, “Dilúvio” e “Prédio Mais Alto”, os jovens saíram do palco, e Cátia Oliveira cantou as músicas “Tantos Desencontros” e “Porque me Olhas Assim”. Para os dois temas seguintes, “Manancial” e “A Grande Máquina” chamou ao palco um dos convidados da noite, Gustavo Andrade, que tocou baixo.

A artista com a Orquestra do Conservatório Regional de Palmela.

De seguida, cantou a música “Não Sei o Que é Que Fica”, onde fala sobre o aumento de alojamentos locais e a falta de condições que algumas pessoas têm nas suas próprias casas, e que o foco deveria ser esse. “A Sede do Xega”, “Urgentemente” e “Que Mulher é Essa”, foram os temas que se seguiram, até chamar outra convidada ao palco, Ana Rita Oliveira, com a qual partilhou a canção “Mulher Batida”.

Faltavam apenas tocar mais três canções até ao final do concerto. A primeira foi “Mediterrâneo” para a qual contou com a participação do artista Ohmonizciente, e a segunda, “Canção a Zé Mário Branco”, voltou a chamar a orquestra para que cantasse consigo esta música em homenagem ao artista e compositor português que morreu em 2019. Este foi um momento bastante especial da noite, tendo recebido, no final, um grande aplauso por parte do público.

Já se anunciava o final do concerto, mas este não poderia acabar sem A garota não tocar um dos temas do seu primeiro disco “No Dia do Teu Casamento”. A ovação de pé era inevitável e merecida. O concerto terminou com a subida ao palco do Presidente da Câmara Municipal de Setúbal, André Martins, que ofereceu uma lembrança da cidade ao maestro da orquestra José Condinho e a Cátia Oliveira.

O concerto foi um dos momentos mágicos do Festival Internacional de Música de Setúbal. Este sábado, dia 28 de maio, será a vez da fadista Cuca Roseta subir ao palco do Fórum Municipal Luísa Todi para um espetáculo igualmente memorável.

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