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Foi professora de artes. Agora, escreveu um livro didático e ensina a tocar piano

Lecionou disciplinas na área das artes plásticas, mas não deixou os conhecimentos do piano e escreveu “O Mundo da Música”.
O livro vai estar disponível para compra.

Nasceu numa família em que era impossível escapar à música e ao ensino. A mãe era professora de piano e as avós grandes artistas. Por isso, desde pequena que Paula Falcão de Lima tinha contacto, ouvia e sentia a importância da arte. A mãe não queria que seguisse essa área, porque, na altura, era difícil viver da música, mas Paula sentiu algo mais forte e começou a aprender piano quando tinha 12 anos.

Ao longo da vida, conseguiu conciliar o ensino da música com o das artes. Depois de muita dedicação, experiências e ajustes, sem faltar a imaginação e a criatividade, vai lançar este sábado, 25 de maio, às 17 horas, o livro “O Mundo da Música”, de iniciação para piano. O objetivo é que, de uma forma livre, os miúdos tenham consciência de que têm de estudar mas, ao mesmo tempo, brincar. O evento vai decorrer no Auditório do Centro Cultural do Conservatório de Setúbal. 

A artista, de 68 anos, nasceu em Guimarães, mas veio para Setúbal com cerca de sete anos. Aos 12 anos começou a estudar na Academia Luísa Todi e seguiu depois para Lisboa, numa altura em que o ensino estava a ser reestruturado por causa do 25 de abril. Tirou o curso de Belas Artes e, com 19 anos, começou também a dar aulas de música em Azeitão, na escola preparatória.

“Comecei a perceber que gostava de partilhar o que sabia, essencialmente, no ensino. Fiz sempre em paralelo o ensino da música e das artes, embora a música fosse de um jeito, digamos, particular. Criei, com 20 anos, um projeto na Sociedade Musical Filarmónica, em que propus que os miúdos começassem a tocar instrumentos orff e foi também aí que percebi que gostava de ensinar os mais novos”, diz à NiS.

Sempre esteve em ATL’S, na música, juntado sempre as artes plásticas, onde tem formação. Foi professora na Escola Secundária D. João II, onde lecionou as disciplinas de Artes, Design, Artes Plásticas e História de Arte. Nessa altura, até com os alunos, tentava conciliar estas duas paixões, com trabalhos que incluíram, por exemplo, a construção de instrumentos para os mais pequenos.

Há oito anos lançou o seu projeto de design pessoal. Construiu malas em burel e cortiça, e concorreu com a “Mothers’s Bag” a um concurso mundial, “Design a Bag”, em Hong Kong. Trouxe consigo o prémio mundial ecológico, com uma mala de bebé.

“Esse reconhecimento fez com que me questionasse: ou fazia o design por conta própria ou dava aulas. Decidi pedir reforma antecipada e dedicar-se a 100 por cento ao projeto”, confessa. Participou em várias feiras mundiais só que, entretanto, surgiu a Covid-19 que a levou a colocar o projeto em pausa durante um tempo.

Voltou a Azeitão para procurar um atelier. Na altura, os ex-alunos, que agora já são pais, começaram a pedir novamente para ensinar música e assim fez. Como começou a ter mais solicitações, sentiu necessidade de criar um espaço. Chama-se “As Mil Artes”, porque não consegue separará-las, uma vez que “são integradoras”. Sente que os miúdos têm “uma grande necessidade de trabalhar com as mãos e deixar de parte o digital”. E é assim que surge o livro.

“Descobri que os alunos com três anos estão cheios de vontade de aprender, mas que os livros que existem atualmente em Portugal não estão preparados para educar miúdos muito pequenos. Eles têm motivações. Não gostam de repetir, querem coisas novas e diferentes”, assume.

Para estudar piano, a repetição tem de acontecer. Para isso, transformou, assim, os jogos tradicionais em desafios apelativos, aplicando-os à música. “O livro é muito visual, com personagens, e há hipótese de existir uma estratégia de criatividade para o próprio professor jogar com elas”, acrescenta.

Outro jogo que Paula criou “e que é um sucesso” é o baralho de cartas aplicado na anotação musical, que também está integrado na obra. Serve para aprender os sinais. “Eles podem jogar com batota consentida, já que nas costas de cada carta está o que o sinal representa. Ajuda a memorizar. O tradicional que também está inserido é o bingo, só que em vez de números, são notas musicais”, explica.

Durante dois anos, experimentou o livro e percebeu que, com tudo finalizado, era altura de lançá-lo. “As duas atitudes que quis destacar é que podem jogar, mas também têm de treinar. E, passo a passo, têm de cumprir com tarefas. É uma obra aberta e não está formatada. Deixa espaço para o professor adaptar ao aluno e à aula”, esclarece.

Todo o conteúdo, desde os ensinamentos, aos bonecos e cores, é totalmente criado por Paula. O livro destina-se a maiores de três anos e até pensou em fazer outra versão, para adultos, mas gostaram tanto da original que disseram para manter igual para todos. É de iniciação e todos começam por aprender da mesma forma. Pode comprar “O Mundo da Música”, através do email paulafalcaodesign@nullgmail.com ou falando diretamente com Paula. O custo é de 25€.

A professora tem cerca de 30 alunos, dos quatro até aos 60 anos. “Há quatro avós que tinham o sonho de aprender piano. O tempo para aprender é relativo. E o que trabalho aqui é o desenvolvimento e a personalidade dos mais novos, através da música e das artes. Há até uma avó que fica à espera uma hora que o neto aprenda”, conclui.

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