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Falámos com a ilustradora do livro que conta a história do 25 de abril aos miúdos

“A Revolta dos Lusecos”, obra infantil lançada em janeiro, fala, de uma forma original e criativa, sobre a época do Estado Novo.
Ana Paula Otero com o livro "A Revolta dos Lusecos".

Um dos primeiros contos que Ana Paula Otero quis passar para para o papel, foi uma história antiga que o seu avô materno contava. “Era uma bela de uma aventura, que o meu avô viveu, num tempo de pouca fartura, tanto de alimento, quanto de dinheiro. Ele tinha que ir a pé para o trabalho, atravessava a montanha com neve, e, por vezes, tinha que se debater com os lobos. Cheguei a escrevê-la e foi ilustrada pela minha primeira filha, quando era pequena”, explica à NiS. 

Desde sempre que teve o gosto pela escrita e por contar histórias. Como uma arte nunca vem só, nasceu depois o amor pela pintura e, em concreto, pela ilustração. O projeto mais recente de Ana Paula, 49 anos, foi precisamente nessa área. Foi ilustradora do livro infantil “A Revolta dos Lusecos”, de Carlos Alberto Silva.

Apresentada em janeiro de 2024, a obra pretende falar, como diz o próprio subtítulo — “O 25 de Abril contado à minha neta” —, sobre a Revolução dos Cravos, de uma maneira leve e repleta de criatividade, a história, mas também sobre o modo como se viveu o tempo do Estado Novo, em Portugal.

“Num lugar e num tempo não muito distantes, havia um país cinzento e triste, que era habitado por dois tipos de pessoas: os lusecos, que eram a maioria, mas a quem tudo faltava, e os glutões, que tudo tinham e em tudo mandavam. Além disso, os glutões determinavam tudo aquilo que os lusecos podiam ou não fazer e tinham espiões que os vigiavam e controlavam. Até que, um dia, alguns soldados, filhos dos lusecos, fartaram-se da guerra, da miséria, das proibições e do medo e organizaram uma revolta”, é a sinopse do livro.

A New in Setúbal quis falar com a ilustradora, que passou por Setúbal e viveu na cidade vários anos, para perceber como foi pertencer a este projeto e qual foi o seu percurso na área da escrita e da pintura.

A arte sempre foi algo óbvio na sua vida?
Sempre fui apaixonada por arte. No entanto, estudei as mais diversas áreas, pois sou imensamente curiosa e tenho o gosto por aprender. Acabei por formar-me em Jornalismo, uma área fascinante, exatamente por poder abordar todos os temas do conhecimento humano. Trabalhei nessa área cerca de dez anos, em vários jornais e revistas de Setúbal e um pouco por todo o distrito. Deixei essa carreira, por volta dos meus 27 anos, quando fui mãe pela primeira vez. Aí, os meus interesses alargaram-se e redescobri a literatura infantil, que adorava em criança e que tinha deixado de lado ao crescer.

Podemos dizer que não largou o que nasceu consigo.
Tendo uma mente criativa, nunca consegui deixar de criar projetos artísticos ao longo dos anos. Nesta altura, comecei a direcioná-los para a escrita e ilustração infanto-juvenil, criação de atividades lúdico-educativas para a minha filha, que me levaram a uma colaboração de cerca de dois anos, com a Biblioteca Municipal de Sesimbra, onde fazia promoção de leitura sempre acompanhada por atividades educativas multidisciplinares com os miúdos. Em paralelo, dedicava-me também a criar peças de artesanato, participando em feiras e workshops nesse âmbito.

E o que se seguiu?
O gosto pelo desenho, pintura e ilustração foi-se acentuando e comecei a procurar projetos nessas áreas. Juntei-me a associações culturais e projetos solidários, onde pudesse pôr em prática este meu interesse. Participei em múltiplas exposições por todo o País, a ilustrar livros infantis e a participar em projetos culturais além-fronteiras, nomeadamente em Espanha e no Brasil.

E o que faz, atualmente?
Sou colaboradora habitual no projeto Histórias da Ajudaris, uma associação do Porto que está presente em todo o País, e que publica vários livros infantis todos os anos, para fins solidários. Faço parte também do projeto Coletive em Movimento (promoção cultural – Brasil) e da associação Recortar Palavras (promoção cultural por todo o nosso País).

E participa em projetos individuais…
Sou artista “freelancer”, faço encomendas de diversos tipos de pinturas, desenhos e ilustrações. Pratico a minha criatividade e “mão” diariamente. Já ilustrei vários livros infantis e esses são o tipo de projeto que mais aprecio fazer, pela sua complexidade e multidisciplinaridade inerente. E faço atividades educativas multidisciplinares para crianças, em escolas, museus, bibliotecas, etc., sempre que solicitada.

Como é que surge o interesse pela ilustração, ou pelo desenho, na sua vida?
Esse interesse/paixão surgiu muito cedo, através dos livros infantis que sempre adorei. Mais tarde, estudei Arte e Design, do 10.º ao 12.º ano, mas só vim a explorar a ilustração e o desenho mais seriamente, enquanto forma de expressão artística, por volta de 2015, já com uns 30 anos.

Quais são as principais fontes de inspiração?
Depende do tipo de trabalho em que estou a trabalhar, mas a principal é, sem dúvida, a natureza, pois acompanha-me sempre em todo o tipo de projetos, sejam infantis ou não. O tipo de traço e formas orgânicas estão sempre presentes no meu trabalho. Por isso, diria que a minha principal inspiração é a natureza e, logo em seguida, o imaginário infantil, que está fortemente presente também em todo o meu trabalho.

E a nível das suas relações pessoais, alguém a inspira?
Sempre gostei muito de histórias e de escrever. Tenho muitas boas memórias associadas à escrita, pois são exatamente boas memórias que inspiram a minha escrita infantil. Um dos primeiros contos que quis passar para o papel, foi uma história antiga que o meu avô materno me contava na primeira pessoa. Mas também tenho de destacar os diversos contos que criei ao longo das diferentes fases de crescimento das minhas filhas. Elas sempre foram a minha maior fonte de inspiração para a escrita.

O que mais gosta de desenhar?
O meu tema favorito é a natureza. E onde gosto de desenhar… em qualquer sítio e a toda a hora, de preferência. Gosto muito de desenhar em passeios ao ar livre, mas também em isolamento no meu estúdio.

Já ilustrou muitas obras ao longo da sua vida?
Fiz apenas para livros infantis. Alguns são projetos colaborativos com outros ilustradores (nomeadamente no projeto Histórias da Ajudaris) e outros foram ilustrados inteiramente por mim. Os títulos foram “Um Dia Cá dos Meus” (2016) com texto de Manuela Ribeiro, “A Mulher que Apanhava Lixo” (2018) com texto de Tânia Duarte, “A Festa da Bicharada” (2020) com texto de Manuela Ribeiro, “Histórias Chaladas Nunca Antes Contadas” (2023) com texto de Manuela Ribeiro e “A Revolta dos Lusecos” (2024) com texto de Carlos Alberto Silva.

Qual o trabalho que mais gostou de realizar?
Não consigo destacar apenas um. Considero os livros que fiz com a Manuela Ribeiro e este mais recente com o Carlos Alberto Silva, os meus trabalhos favoritos, pois além de serem trabalhos de ilustração infantil foram colaborações com seres humanos maravilhosos. E isso é sempre o mais prazeroso.

Quais são os trabalhos que mais gosta de realizar?
Ilustração infantil, sem dúvida, e estou agora a descobrir um novo estilo (para mim) de pintura que me está a dar um imenso prazer. Consiste numa pintura mais expressiva e abstratizada q.b.

Sobre “A Revolta dos Lusecos”, como foi o processo criativo?
Sim, fluiu muito rapidamente. Foi o livro que menos tempo demorei a ilustrar. Ao ler o texto do Carlos, muito bem escrito por sinal, formaram-se logo as imagens na minha mente. E depois de uma breve conversa com ele, sobre o estilo de ilustrações que eu pretendia fazer, avancei prontamente para os esboços. Estes foram rapidamente aprovados pelo Carlos, com quem tive a felicidade de estar desde logo em sintonia.

Mudou alguma coisa a meio? Ou apagou muitas vezes?
Não “apaguei” muitas vezes, até porque não costumo usar borracha. Encaro os “erros” como parte do processo e, se ficarem “visíveis” no produto final, até o enriquecem. É uma forma de mostrar, principalmente aos pequenos leitores, que a “perfeição” não existe e que tudo pode ser melhorado no processo de realização. O que importa é prosseguir apesar dos “erros”. Por isso, o ficarem registados na ilustração final, para mim é um facto positivo.

A capa da obra.

Vem com uma lição, essa ideologia.
Quero mostrar, principalmente aos mais novos, caso eles gostassem de vir a ser ilustradores/desenhadores, que o desenho é uma arte que se treina e melhora ao longo do processo. Não precisam de nascer com um “dom especial” para serem “artistas”.

E que tipo de ilustração apresenta a obra?
Resolvi usar técnica mista para as ilustrações, com particular ênfase na colagem, pois gosto muito de juntar todos os materiais e ver no que resulta, como se fossem ingredientes numa taça para fazer um bolo rico. No final, gosto que se observe a “fatia cortada” e se perceba os mais variados ingredientes que a compõem. Desta forma, além de ser um estilo que me agrada esteticamente, pretendo presentear o leitor com essa “riqueza” de observar a ilustração ao pormenor e descobrir os mais variados e por vezes inesperados elementos. 

Qual é a principal mensagem que se quer passar com este livro? Até na ilustração.
A ilustração é a continuação da mensagem escrita. E essa mensagem, n”A Revolta dos Lusecos” é mostrar, de forma compreensível para os mais novos, como era a vida no nosso País antes da Revolução dos Cravos, o quão importante e maravilhosa é a Liberdade e que não a devemos tomar por adquirida. Devemos estar sempre atentos para que ela não se vá perdendo, devendo continuar a “regá-la” para que não morra.

Que feedback espera? Onde é que os interessados podem comprar o livro?
Ficaria feliz se todos recebessem e praticassem esta mensagem. O livro está à venda no site da Amora Negra, através do email calbsilva@nullgmail.com. Custa 5€ (mais 1€ para portes de envio, até 3 exemplares).

Tem projetos para o futuro?
Continuo a trabalhar todos os dias, a praticar desenho e pintura, que são as ferramentas essenciais para este trabalho. Como já referi, estou a desenvolver novos estilos da minha arte. Não estou com nenhum projeto profissional em mãos, de momento. Conto brevemente fazer mais umas ilustrações para os livros Histórias da Ajudaris.

Sente que ainda lhe falta fazer alguma coisa?
Imensas coisas. Sou uma mente inquieta e quero continuar a evoluir na minha arte, abraçando novos projetos criativos. Gostaria muito de levar arte a todos, através das mais variadas plataformas, estimulando o pensamento criativo especialmente nos mais novos. Considero que a criatividade é uma ferramenta essencial para a resolução de problemas e para o ser humano.

E que deve permanecer ativa.
Sim. A comunicação social é uma plataforma importantíssima para essa divulgação. Como tal, quero agradecer-vos a oportunidade de mostrar o meu trabalho e, em particular, este projeto que tanto me orgulha. E quero convidar todos os interessados a visitarem as minhas páginas nas redes sociais Facebook, Instagram e YouTube. Podem contactar-me através destes locais para encomendas ou mais informações sobre o meu trabalho.

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