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Estes trajes contam como viviam os antigos setubalenses. Alguns têm 150 anos

A exposição inaugurada na Casa da Baía inclui um vestido de noiva guardado durante décadas numa arca ou o chapéu do último descarregador de peixe.

Umas calças com uma perna mais subida do que a outra, um chapéu que pertenceu ao último descarregador de peixe da cidade e até um vestido de noiva que passou décadas guardado no fundo de uma arca. Numa altura em que Setúbal assinala 166 anos da elevação a cidade, são as roupas usadas por quem ajudou a construir a sua história que ganham estatuto de gala.

A exposição “Setúbal em Traje de Gala” está patente até 5 de outubro, na Galeria da Casa da Baía, e reúne 14 trajes originais de diferentes décadas, sobretudo do século XX. Através deles é possível descobrir profissões, costumes e códigos sociais de várias gerações de setubalenses — e perceber que, nestas roupas, praticamente nenhum detalhe estava ali por acaso.

No acervo encontram-se trajes ligados aos pescadores, salineiros, descarregadores de peixe, apanhadores de laranja, vendedeiras de peixe, lavadeiras e apanhadoras de ostras. Outras mostram como os setubalenses se apresentavam nos momentos em que o trabalho dava lugar à cerimónia: para ir à missa ao domingo, deslocar-se à cidade ou até mesmo casar.

A mostra, organizada pela Câmara Municipal de Setúbal em parceria com o Rancho Folclórico das Praias do Sado, foi inaugurada a 27 de setembro, integrada nas comemorações do Dia Mundial do Turismo.

O próprio nome da mostra nasceu de uma inversão de perspetiva. Aqui, “gala” não significa luxo ou ostentação. A proposta é colocar no lugar de honra as roupas das pessoas que viveram do mar, do campo e de trabalhos fisicamente exigentes. “A verdadeira ‘gala’ da história e da identidade setubalense é a memória do trabalho e o orgulho das suas raízes”, explica à New in Setúbal Suzana Dias, técnica de turismo de Setúbal.

Das salinas ao barco, a roupa também era uma ferramenta

Um dos primeiros exemplos é o traje do salineiro. As calças aparecem arregaçadas, para que pudesse entrar na água. Na cabeça, uma rodilha, também conhecida como “sogra”, permitia apoiar a cesta que transportava sem se magoar.

Até essa pequena peça revela a forma como as famílias geriam o que tinham. Podia ser produzida através do reaproveitamento de tecidos de outras roupas que, depois de danificadas, ganhavam uma segunda função. A reutilização fazia parte de uma economia doméstica em que uma peça dificilmente era descartada ao primeiro sinal de desgaste. As roupas eram remendadas, cerzidas, ajustadas e até passadas entre elementos da mesma família. Grande parte do vestuário quotidiano era confecionado em casa ou encomendado a costureiras e alfaiates da comunidade.

O traje do pescador revela outra adaptação curiosa: Setúbal recebeu comunidades piscatórias vindas do Algarve e do norte, que se estabeleceram em zonas distintas da cidade, nomeadamente nos bairros do Troino e das Fontainhas. As origens podiam provocar algumas diferenças no vestuário, mas o trabalho obrigava a soluções semelhantes.

Uma delas percebe-se nas pernas das calças. Uma podia ficar mais subida do que a outra, consoante a perna usada primeiro para subir ao barco e aquela que permanecia dentro de água. “Há pormenores que, quem não sabe, não se apercebe naturalmente”, conta Suzana.

O último descarregador de peixe morreu aos 84 anos

Entre as figuras representadas existe uma com um significado especial para a memória da cidade. José Miguel foi o último descarregador de peixe tradicional de Setúbal. Morreu em 2015, aos 84 anos, e chegou a ser distinguido, ainda em vida, com a medalha de mérito da cidade. Na Casa da Baía está agora exposto o seu chapéu original.

O acessório acompanhou um trabalho duro: os descarregadores transportavam canastras de peixe à cabeça entre as embarcações e a lota, onde o pescado era recebido e comercializado. A profissão acabaria por desaparecer do quotidiano da doca com a modernização e mecanização das operações portuárias.

“Temos um carinho especial pela figura do descarregador de peixe de Setúbal, porque mostra a identidade da cidade. É uma figura que ficou conhecida ao longo de décadas e que nos conta histórias muito bonitas”, acrescenta a técnica de turismo, sem revelar, para já, o que poderá estar a ser preparado. “Creio que daqui a algum tempo poderá haver alguma surpresa.”

Nas casacas destes trabalhadores encontra-se uma das histórias mais curiosas. Pequenas nervuras junto aos bolsos podiam funcionar como uma espécie de calendário amoroso. “Dizem os entendidos que estavam relacionadas com os anos de namoro, porque as namoradas preparavam as casacas para eles vestirem e colocavam o número de nervuras correspondente ao número de anos de namoro”, explica Suzana.

O vestido de noiva que passou décadas dentro de uma arca

As histórias de amor continuam no traje do casal de noivos. E há uma diferença que salta à vista para quem está habituado aos casamentos atuais: a noiva não aparece vestida integralmente de branco, mas podia assumir um tom de mel, associado à pureza. O branco surgia noutros elementos, como o lenço de renda, a sombrinha e as flores de laranjeira. Depois do casamento, a roupa podia voltar a ser usada por ocasião do nascimento do primeiro filho.

A peça exposta tem uma história própria. O traje foi doado ao Rancho Folclórico das Praias do Sado pela mulher a quem tinha pertencido, quando já tinha mais de 80 anos. Até então, tinha permanecido cuidadosamente guardado durante décadas no fundo de uma arca familiar.

Também o lenço usado no casamento podia acompanhar o casal muito além daquele dia. “Normalmente, o primeiro elemento do casal que falecesse era coberto com esse lenço”, revela Suzana.

A forma de vestir também permitia perceber diferenças económicas, sociais e até o estado civil de uma pessoa. No traje da vendedeira de peixe, por exemplo, o esforço físico obrigava a algumas adaptações. Uma cinta ou faixa de fazenda era colocada abaixo da cintura para ajudar a dar suporte ao corpo durante o transporte de peso.

Isso não significava abdicar completamente da vaidade. As blusas podiam apresentar cores vivas e havia espaço para um cordão de ouro. Já a chamada Varina Rica apresentava uma imagem bastante mais exuberante, com maior presença de joias. No vestuário feminino, acessórios como lenços e chapéus podiam ainda comunicar informações sobre quem os usava. Idade, estado civil e contexto social influenciavam a forma de apresentação.

A chamada menina da cidade é um exemplo. Por ser solteira, não usava lenço, nem chapéu quando saía com o seu melhor traje. Nas apanhadoras de ostras, a necessidade prática obrigava a outra solução: calças por baixo de várias saias. As camadas protegiam do frio e das intempéries, enquanto as calças facilitavam os movimentos necessários ao trabalho.

Algumas peças podem ter 150 anos

Embora os 14 trajes apresentados atravessem diferentes décadas do século XX, algumas das peças são de períodos anteriores. Durante a visita à exposição, Suzana Dias revelou que alguns podem ter cerca de 150 anos. É o caso de objetos particularmente delicados, como algumas meias feitas à mão, cuja raridade obriga a cuidados especiais de conservação.

Há ainda saias bordadas e saiotes trabalhados com técnicas artesanais que sobrevivem nas mãos de cada vez menos pessoas. “Havia um cuidado e um gosto por, na sua humildade, estarem o melhor possível”, resume Suzana.

Nada do que está exposto foi produzido agora para recriar aquela época. Todos os trajes foram cedidos pelo Rancho Folclórico das Praias do Sado e são constituídos por peças originais.

O grupo tem desenvolvido um trabalho continuado de recolha, identificação, salvaguarda e conservação deste património. É também o Rancho que mantém o espólio e procura preservar as histórias associadas às roupas.

Há profissões representadas na exposição que praticamente desapareceram das ruas. O descarregador de peixe tradicional é uma delas, o trabalho dos salineiros também perdeu a dimensão que teve no passado, enquanto a imagem das varinas a vender peixe pelas ruas foi substituída por outras formas de comércio.

É por isso que a exposição não pretende mostrar apenas as roupas. Os trajes funcionam como documentos sobre a evolução económica e social da cidade, sobre a vida das pessoas que dependiam dos recursos do Sado, do mar e do campo.

A inauguração contou com a participação de Florêncio Cacete, investigador do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora— CIDEHUS, ligado ao projeto “Sharing Memories — Voices of the Community”. Acácio Guerreiro, diretor do Rancho Folclórico das Praias do Sado, apresentou uma perspetiva ligada à recolha, preservação e utilização dos trajes.

Entre roupa de trabalho, fatos de domingo, peças de casamento e acessórios aparentemente insignificantes, a exposição acaba por mostrar uma cidade construída muito antes de estas peças chegarem a uma galeria. “Esta mostra fala muito da identidade da nossa cidade. E na comemoração do Dia Mundial do Turismo, nada como falar da nossa identidade”, conclui Suzana Dias.

A mostra pode ser visitada até 5 de outubro, na Galeria da Casa da Baía, na Avenida Luísa Todi, 468, em Setúbal. A exposição está aberta todos os dias, das 9 às 19 horas, e a entrada é gratuita.

Carregue na galeria para conhecer alguns dos trajes em exposição.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Avenida Luísa Todi, 468
    2900-456 Setúbal
  • HORÁRIO
  • Domingo a quinta
  • Das: 09:00
  • Às: 22:00
  • Sexta, sábado e vésperas de feriados
  • Das: 09:00
  • Às: 00:00
  • CIRES
  • Das: 09:00
  • Às: 20:00

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