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Este setubalense lançou uma plataforma para ajudar artistas a dar os primeiros passos na música

O objetivo da EMERGE criada por André Moniz é aumentar a oferta de booking para músicos que não estão cimentados no mercado.
André Moniz é conhecido por Ohmonizciente.

Chama-se André Moniz, tem 28 anos e é mais conhecido no mundo artístico como Ohmonizciente. Já embarcou em vários projetos musicais e de teatro, viveu experiências que o transformaram a nível pessoal e profissional, trabalhou num restaurante e até na área de animação para miúdos.

Atualmente trabalha na Divisão de Juventude da Câmara Municipal de Setúbal, mas consigo traz uma grande bagagem de vida, a sua maior riqueza. Além desta atividade principal e do seu projeto a solo na área musical, lançou a EMERGE: uma plataforma de booking em Setúbal, destinada a talentos que não têm projeção neste mercado e deveriam ter.

O setubalense já está ligado a esta área há muitos anos e a New in Setúbal quis saber como tudo começou. A viagem pelo mundo da arte iniciou-se quando André Moniz tinha 14 anos e estudava na Escola Secundária Sebastião da Gama à qual estava associado um grupo de teatro: “Os Metáforas”. Segundo o jovem, “o teatro entrou como um hobby na sua vida”, mas permaneceu até aos seus 20 anos.

Enquanto frequentava o grupo, começou também a despoletar a sua veia artística na escrita de canções. “Nas aulas estava sempre a escrever poesia e letras de canções, mais na onda do rap, mas é das primeiras coisas que me lembro de fazer quando era miúdo”, relembra. Foi nesta altura que começou a pensar na arte incrível de “escrever coisas que conseguem extrapolar a dimensão do papel e ganhar outra vida”. No secundário optou pela vertente das Línguas e Humanidades, pois começou a criar uma relação muito forte com as palavras que, mais tarde, se transformavam em canções. “Percebi que a ligação à escrita era uma faculdade que era natural para mim”, revela.

Já com 20 anos estabeleceu uma relação de amizade com o artista Sena, que integra o coletivo Moços do Bêco, da qual André Moniz fez parte, e também com DollaBill, conhecido como o Marreco da banda CDK. “Este foi um período de muita absorção em que aprendi imenso com eles, especialmente aspetos técnicos, mas também sobre a indústria da música”, conta.

Entretanto surgiu a oportunidade de ir a um casting para uma peça do Teatro Animação de Setúbal (TAS) e o setubalense participou, com a ideia de que faria apenas uma peça, mas ficou lá durante seis anos enquanto ator profissional. “Não tinha a mentalidade de ter de ser algo, não tenho essa forma de estar na vida. É importante escutarmos a vida e até acho que há uma arrogância perigosa quando escolhemos não escutar o que a vida tem para nos dizer”, refere.

Quando entrou para o TAS surgiu também a oportunidade de estudar Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa, mas decidiu não seguir o caminho académico porque não o fascinava e tinha de conciliar com o teatro. “Optei pelo teatro e não me arrependo, apesar de que gostava de ter uma licenciatura, mas sobretudo, gostava de ter aprendido música. Pode ser que a vida ainda me traga isso”, reflete.

A música não deixou de estar presente na sua vida. Quando ainda fazia parte do Moços do Bêco, em 2015, lançou uma mix tape chamada Boca de Cena e, no ano seguinte, um EP com Bernardo Gonelha (BAG), membro do Moços do Bêco. A banda estava bem lançada nesta altura, inclusive faziam concertos em casas em Lisboa que eram frequentadas por rappers portugueses.

Entretanto, André sentiu que precisava de conhecer outros mundos e culturas, mas sobretudo “precisava muito de crescimento pessoal”. Por isso foi viver para a Grécia, durante seis meses, onde fez voluntariado e até um broadcast numa rádio local com músicas portuguesas. “Esta viagem transformou-me. Tornei-me numa pessoa completamente diferente”, confessa. Acabou por revelar que já não se identificava com as mesmas coisas, incluindo na música. Nesta altura saiu do Moços do Bêco apenas por sentir que “musicalmente estava à procura de coisas diferentes”.

Nesta altura, o teatro era a sua atividade principal mas, paralelamente, foi ganhando experiência noutras áreas: dava aulas de atividades lúdico-criativas, de expressão dramática, e também de animação com miúdos. “Angariei muita experiência e gosto de ter essa bagagem. Sinto que é muito útil, mesmo a nível humano”, sublinha.

Em 2019 quis apostar no seu projeto a solo, mudou de equipa e começou a gravar o seu disco novo, mas não chegou a terminá-lo devido ao surgimento da pandemia. Com o mundo todo a mudar decidiu “fazer-se à pista” e foi viver para Aljezur, no Algarve, onde trabalhou numa escola de surf, experiência que, para si, foi “completamente fora de órbita.”

Também esteve num restaurante italiano, que serviu para desconstruir o preconceito que tinha de trabalhar em restauração. Sempre que havia mesas de 20 ou mais pessoas, era sempre André que atendia. “Aquilo para mim era palco. Era quase como ter uma plateia e o desafio de agarrar aquele público”, sublinha.

Em 2021 regressou a Setúbal e surgiu o convite para trabalhar na Divisão de Juventude do município de Setúbal, na área da cultura, e tem a seu cargo a organização dos espetáculos. Está a adorar a experiência de conhecer a outra parte que envolve um espetáculo. “Tenho aprofundado brutalmente os meus conhecimentos sobre o que é o mundo da cultura do outro lado da barricada, do lado de quem organiza o palco, de quem garante que as coisas correm bem”, revela.

A EMERGE

A plataforma de booking setubalense existe há um mês e o motivo da sua criação está relacionado com a disparidade que existe na oferta de booking entre artistas consagrados e artistas locais, que não têm músicas que passam na rádio e que têm mais dificuldade em entrar no mercado. “Estamos a falar de uma massa que, se calhar, é de 90 por cento de artistas do País.”

André Moniz pretende que a EMERGE possa funcionar como uma ponte entre os artistas e os programadores. “É muito frustrante ver artistas talentosos, sobretudo quando sei o que é estar dos dois lados, a escarafunchar o mercado com as próprias unhas, quando muitas vezes não se tem contactos, nem ferramentas, nem competências para isso”, confessa.

Neste sentido, o seu objetivo é deixar que os artistas se preocupem com a parte criativa dos seus espetáculos, enquanto este trata da parte burocrática de arranjar sítios para os concertos, de garantir o cachet e de lhes dar uma instituição que gere tudo isto, dando mais credibilidade.

Os Caravananana fazem parte da EMERGE.

Uma das lacunas que o levou a criar a EMERGE está relacionada com os programadores, uma vez que existem muitos que se limitam a ver qual o artista que tem mais visualizações e nada mais. “Ser programador é ter um propósito”, explica o setubalense. “Se estamos sempre a chamar os mesmos, daqui a 30 anos estaremos a ouvir exatamente os mesmos artistas e matamos um milhão de talentos pelo caminho que não tiveram espaço para aparecer”, indica.

Segundo o músico, o trabalho de um programador é educar o público no sentido de mostrar que há mais artistas além dos consagrados. Podemos até não nos identificar com eles, mas podemos dar-lhes uma oportunidade. “Este é o trabalho de um programador sério e honrado”, defende.

Neste momento, a EMERGE representa cinco artistas: Caravananana, Et Toi Michel, Wickings, Zé Zambujo e o próprio Ohmonizciente. O objetivo a curto-prazo passa por marcar o máximo de concertos para estes artistas até ao final do ano e encontrar estabelecimentos ou municípios que correspondam às suas expectativas.

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