Há filmes que não envelhecem, aprofundam-se. Obras que, vistas décadas depois, ganham novas camadas, novas leituras e uma força inesperada. “Silvestre”, de João César Monteiro, é um desses casos. Estreado em 1981 e agora apresentado em cópia digital restaurada, o filme regressa ao grande ecrã em Setúbal como uma oportunidade rara de reencontro com um dos títulos mais singulares do cinema português.
Durante dois dias, o Cinema Charlot – Auditório Municipal acolhe esta sessão especial que convida o público a mergulhar num universo onde o passado mítico e o olhar autoral se cruzam de forma hipnótica.
A base narrativa de “Silvestre” assenta em duas histórias profundamente enraizadas na tradição portuguesa. Uma delas é “A Donzela que Vai à Guerra”, um romance popular de origem judaica peninsular, datado possivelmente do século XV.
A outra é “A Mão do Finado”, novela transmitida oralmente e integrada no ciclo do Barba Azul. João César Monteiro não adapta estas histórias de forma literal, mas recria-as, funde-as e transforma-as num território cinematográfico próprio.
A história acompanha D. Rodrigo, um fidalgo envelhecido que, não tendo herdeiro varão (mas apenas duas filhas, uma legítima e outra bastarda, Sílvia e Susana), decide casar Sílvia com um nobre rico, D. Paio, seu vizinho, com o propósito de assegurar o alargamento dos seus domínios.
A decisão, aparentemente pragmática, abre caminho a um universo de tensão, desejo, transgressão e poder, onde as mulheres são colocadas no centro de um jogo que oscila entre obediência e desafio.
Depois de uma visita rápida do noivo, que é “um comilão de saias”, D. Rodrigo parte para a corte, a fim de convidar o Rei para o casamento. Antes de partir, o fidalgo ordena que as filhas não abram as portas do solar a ninguém. No entanto, um dia, aparece um peregrino que pede guarida e Sílvia, desobedecendo às ordens do pai, acaba por abrir-lhe a porta.
O filme conta com interpretações de Maria de Medeiros, Teresa Madruga, Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, nomes incontornáveis do cinema e teatro português. As personagens femininas, em particular, assumem um papel central, não como figuras passivas, mas como forças narrativas que questionam o destino que lhes é imposto.
Sílvia e Susana, a filha legítima e a bastarda, representam dois caminhos possíveis dentro do mesmo sistema patriarcal. A relação entre as duas, marcada por cumplicidade e tensão, é um dos eixos mais subtis e interessantes do filme. Através delas, Silvestre reflete sobre identidade, liberdade e transgressão, temas que permanecem surpreendentemente atuais.
Exibido no Cinema Charlot – Auditório Municipal, Silvestre (Cópia Digital Restaurada) tem sessões marcadas para quinta (dia 8 de janeiro) e sexta (dia 9 de janeiro), sempre às 18 horas. Com uma duração de 118 minutos e classificação para maiores de 12 anos, esta é uma oportunidade especial para ver, ou rever, um filme que raramente passa em circuito comercial.
O bilhete tem o preço único de 5€ para a plateia, à venda online, tornando esta sessão acessível e apelativa para quem gosta de cinema português, de clássicos restaurados ou simplesmente de experiências culturais fora do óbvio.

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