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Este capítulo quase invisível da História chega a Setúbal com “Viagem ao Sol”

A Casa da Cultura recebe uma sessão gratuita sobre crianças refugiadas que encontraram em Portugal um abrigo após a Segunda Guerra Mundial.

Num tempo em que as imagens correm depressa e a memória parece curta, há projetos que nos obrigam a parar, a olhar com atenção e a ouvir. “Viagem ao Sol” é um deles e chega a Setúbal este sábado, 24 de janeiro, para uma tarde que cruza cinema, fotografia, história e reflexão, integrada na programação” Mostra Que Somos Humanos”.

A sessão gratuita acontece na Sala José Afonso / Galeria (Sala Anexa) e convida o público a mergulhar numa história pouco conhecida de milhares de crianças refugiadas que encontraram em Portugal um abrigo temporário após a Segunda Guerra Mundial.

Antes de ser um filme, “Viagem ao Sol” começou por ser um trabalho de investigação. O projeto parte de um vasto conjunto de fotografias de arquivo que registam a passagem por Portugal de crianças austríacas e alemãs acolhidas pela Cáritas Portuguesa no pós-guerra. Ao todo, terão chegado ao País cerca de 5500, numa operação humanitária que hoje permanece quase invisível na memória coletiva.

Este estudo iconográfico foi desenvolvido por Ansgar Schaefer, no âmbito de uma investigação académica, e acabou por ganhar uma nova vida cinematográfica em colaboração com a realizadora Susana Sousa Dias. O resultado é um filme que observa os rostos, os gestos e os enquadramentos dessas imagens antigas para revelar muito mais do que um episódio histórico.

“Viagem ao Sol” propõe uma leitura crítica dos padrões culturais e sociais do Estado Novo, mas recusa ficar preso ao passado. Pelo contrário, usa o arquivo como espelho para pensar o presente. A exibição do filme está marcada para as 15 horas, seguida de uma conversa com os dois realizadores. Mais do que explicar o filme, este diálogo abre espaço para discutir memória, responsabilidade histórica e a forma como olhamos, ou escolhemos não olhar, para quem foge de uma guerra.

Apesar de se debruçar sobre acontecimentos do século XX, o filme ressoa de forma inquietante no contexto atual. Os conflitos armados que marcam a Europa e o Médio Oriente tornam esta narrativa urgente, mostrando como a experiência do refúgio, do exílio e da infância em trânsito continua a repetir-se.

É nessa sobreposição de tempos que o filme ganha força e que as imagens do passado se tornam ferramentas para interrogar o presente, questionando a forma como as sociedades acolhem quem procura proteção.

Às 17 horas é inaugurada a exposição “Viagem ao Sol”, instalada na Sala Anexa da Galeria da Casa da Cultura. A mostra reúne vários painéis informativos que aprofundam o trabalho de investigação por detrás do filme, permitindo uma leitura mais pausada e detalhada do arquivo fotográfico.

A exposição ficará patente até ao final de fevereiro, prolongando no tempo a reflexão iniciada pelo filme e convidando o público a regressar, observar com mais calma e estabelecer novas ligações entre passado e presente.

Este cruzamento entre cinema e exposição reforça a dimensão pedagógica e sensível do projeto, transformando-o numa experiência completa. Organizada pela Mostra Que Somos Humanos, em parceria com a Câmara Municipal de Setúbal, esta iniciativa integra uma programação que aposta na empatia, na escuta e na reflexão crítica como ferramentas culturais.

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