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Elas foram salvas pelo Schindler britânico. Reencontraram o seu herói 50 anos depois

Nicholas Winton salvou mais de 600 miúdos judeus da morte. A história deu origem a "Uma Vida Singular", que chega agora aos cinemas.
Anthony Hopkins dá vida a Winton.

“Era uma pessoa humilde, nunca teria andado a bradar aos céus. Tudo o que fez acabou por desaparecer no fundo de uma gaveta, de forma quase literal”, começa por contar à NiT Lady Milena Grenfell-Baines, uma das irmãs Fleischmann. Nascidas na antiga Checoslováquia — Milena em 1929 e Eva em 1935 —, foram duas dos 669 menores resgatados por Sir Nicholas Winton há quase 85 anos. A incrível história do britânico é contada em “Uma Vida Singular”, filme que chegou esta quinta-feira, 28 de março, aos cinemas nacionais. 

Milena e Eva consideram ter tido sorte. Ao contrário do que aconteceu com a maioria dos miúdos da operação Kindertransport, reencontraram a família. O pai, Rudolf Fleischmann, foi fortemente aconselhado a deixar o país na véspera da invasão Nazi em março de 1939. Além de judeu, era igualmente um grande apoiante de Thomas Mann. 

O escritor havia sido considerado apátrida pelo regime de Hitler e Fleischmann intercedeu junto do presidente checo para que lhe fosse concedida cidadania. Aliás, foi o próprio quem viajou para a Suíça para conceder ao autor exilado os novos documentos. 

Acabou por conseguiu fugir para Inglaterra e instalou-se em Ashton-Under-Lyne, em Manchester, onde a mulher e as filhas se juntaram a ele. O homem que permitiu a reunificação familiar salvou centenas de miúdos e ficou conhecido como o “Schindler britânico”.

Nicholas Winton tinha apenas 29 anos quando teve conhecimento do esforço organizado para acolher crianças judias em Inglaterra, retiradas da Alemanha e da Áustria tomadas pelo regime de Hitler. Acabou por montar uma operação semelhante a partir de Praga.

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Winton fotografado com um dos miúdos checos, em Praga.

Corretor da bolsa londrina, organizou o resgate com as doações que conseguiu angariar e criou uma rede de famílias de acolhimento em Inglaterra. Em alguns casos, chegou mesmo a forjar documentos para conseguir retirar da Checoslováquia os miúdos que ainda não tinham onde ficar. O último comboio deixou Praga em agosto de 1939. No total, conseguiu enviar 664 menores para território britânico.

“Sempre me guiei pelo lema ‘se algo não é impossível, deve existir alguma forma de o fazer’”, recordou na entrevista que deu ao programa “60 Minutes” da CBS, em 2014, quando tinha já 104 anos. O facto mais curioso é que o feito só se tornou conhecido do grande público meio século depois, em 1988. A mulher, Grete, com quem casou após o final da II Guerra Mundial, descobriu um arquivo recheado de nomes durante umas arrumações.

Winton nunca havia contado à mulher que tinha passado um ano da sua vida a resgatar miúdos judeus da ameaça Nazi, antes da Blitzkrieg conduzida por Hitler que resultou na ocupação de grande parte do território europeu. Porém, o britânico nunca teve qualquer intenção de “guardar segredo”, adianta Milena.

“Juntou-se à Força Aérea quando a guerra eclodiu. E, depois do conflito, fundou uma família e seguiu com a sua vida adiante. Não o escondeu, simplesmente não falava sobre isso. Tal como a maioria de nós não fala sobre aquilo que fizemos nem sobre o que nos aconteceu quando éramos mais novos”, sublinha. 

“Quando estamos ocupados a viver, o que acontece no passado fica no passado. Não é uma forma consciente de não querer falar sobre o assunto, apenas seguimos em frente com a nossa vida. Penso que foi isso que aconteceu com o Nikki”, reforça Eve.

As irmãs só conheceram Winton em 1988, na plateia do programa da BBC onde a história foi revelada, após Greta ter divulgado o ato heroico do marido — mesmo contra a sua vontade. “Vê que estou sentada à direita de Winton, com um vestido azul. A Milene estava sentada do outro lado. Aquilo foi uma completa surpresa para nós, só tivemos os documentos nas nossas mãos 40 anos após tudo ter acontecido”, detalha Eve.

“Recebi um telefonema da BBC e ouvi: ‘Sou a Esther Rantzen, descobrimos o homem que vos salvou as vidas. Gostariam de vir ao estúdio? Vamos surpreendê-lo. Mas não adiantou muito mais, contou a história de uma forma muito breve. Só soubemos que contactou seis outras pessoas que descobriu na lista de nomes escritos no caderno dele. ‘Vamos convidar Nicholas Winton para o surpreender com a vossas presenças no estúdio’, explicou. E, foi assim que o encontrámos, 40 anos depois.

Sentado na plateia, Winton ouviu Rantzen descrever os detalhes dos seus esforços durante a Segunda Guerra. A dada altura perguntou se estava ali alguém que devesse a sua vida ao britânico. Quase todos se levantaram. O britânico não conseguiu conter as lágrimas perante a homenagem feita por alguns dos miúdos que ajudou a salvar da morte quase certa nos campos de concentração. 

Após o programa, a vida de Winton mudou radicalmente. Muitos outros resgatados entraram em contacto com ele: “Dali em diante nunca mais houve um dia em que não recebesse um telefonema, uma visita ou um telegrama diretamente de alguém que tinha salvo, de um descendente ou com um convite para contar a sua história. Esteve na República Checa, nos EUA, em França”, detalha Milene.

O britânico recebeu inúmeras condecorações, bem como um agradecimento pessoal do então presidente de Israel, Ezer Weizman. Tornou-se num cidadão honorário da cidade de Praga e, em 2003, foi condecorado cavaleiro de Sua Majestade por Isabel II. Morreu a 1 de julho de 2015, aos 106 anos.

A rotina das irmãs, por outro lado, não sofreu alterações drásticas após a emissão da BBC. “Ninguém fez um acompanhamento aprofundado do nosso caso particular e nós estávamos ocupadas com as nossas vidas. O foco, o mais importante, foi o facto das pessoas terem descoberto o Nikki e o que ele fez”, realça Eve. “Nós, pessoalmente, não nos tornámos aventureiras depois do programa. Mas nunca mais perdemos o contacto.”

“A lembrança que temos dele é a de um homem muito inteligente, acolhedor, simpático. Queria falar sobre política, ópera, jogar bridge. Não gostava nada falar sobre o passado, não gostava de pensar no passado. Era um homem que estava sempre focado no futuro e naquilo que lhe iria trazer. Sempre foi muito acolhedor, era uma pessoa muito sociável”, recorda Milene, que passou a visitá-lo três a quatro vezes por ano.

Só nos últimos tempos, com o filme, é que tiveram de acrescentar um rol de novas atividades às suas agendas. “Começámos a ser convidadas para ir às escolas contar aos mais novos o que aconteceu, porque o ‘Uma Vida Singular’ trouxe o tema de volta à consciência coletiva e estamos muito contentes com isso.”

“Uma Vida Singular” estreou em setembro de 2023 no Festival Internacional de Cinema de Toronto e entrou no circuito comercial internacional no final do ano passado. O argumento é inspirado no livro “If It’s Not Impossible — The Life of Sir Nicholas Winton”, escrito por Barbara Winton, filha de Nicholas e Grete.

Anthony Hopkins desempenha o papel principal, uma escolha muito aplaudida por Eve e Milene, que chegaram mesmo a encontrar-se com o ator durante as gravações. “Ele queria ver alguns documentos verdadeiros. Levei-lhe o cartão que usava ao pescoço [com o número que a identificava durante a viagem até Inglaterra], ele queria vê-lo. Tivemos muita sorte por termos tido oportunidade de o conhecer.”  

“Quando vimos o filme pela primeira vez, estávamos acompanhadas pelo filho de Nicholas Winton. Ele virou-se e disse: ‘É como se estivesse a olhar para o Pa… [a forma como o tratava]’. Essa foi a reação imediata dele”, revela a irmã mais velha. 

“E, quanto mais o vejo, mais considero o trabalho dele absolutamente incrível, porque nós também conhecíamos Nikki muito bem. Hopkins merece um Óscar”, remata.

“Sim, merece um Óscar”, corrobora Eve. “Hopkins captou muito bem o tempo, o caráter e a personalidade de Nicholas Winton. Fê-lo de uma forma extraordinária e muito pouco habitual”, acrescenta.

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