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Dos bigodes de Dalí às tintas de Van Gogh: neste atelier em Setúbal, os miúdos fazem arte

Todos os sábados, “Na Cabeça de um Artista” leva os mais novos a conhecer a história de um artista, antes de criarem as próprias obras.

Antes de pegarem nos pincéis, lápis ou tintas, há uma história para ouvir. Pode ser sobre Vincent van Gogh, Pablo Picasso, Frida Kahlo ou Leonardo da Vinci. Noutras semanas, os protagonistas têm nomes menos familiares para os miúdos, mas isso não significa que despertem menos curiosidade. Pelo contrário.

É assim que começam as manhãs de sábado no Atelier :2Pontos, em Setúbal. Das 10 horas às 12h30, “Na Cabeça de um Artista” apresenta a História da Arte a miúdos entre os cinco e os 12 anos, sem transformar a experiência numa aula convencional. Imagens das obras são projetadas enquanto o casal Rita Melo e Ricardo Crista contam episódios sobre a vida e o trabalho do artista eleito.

Pelo meio surgem perguntas, comentários e teorias dos participantes. Só depois chega o momento de criar. “Escolhemos uma obra, uma técnica ou uma ideia desse artista e lançamos o desafio. A partir daí começam as tintas, os lápis, as experiências e alguma desarrumação”, conta Rita.

No final da manhã, cada criança sai do atelier com uma criação — muitas vezes uma tela ou um saco ecobag — para juntar à coleção que vai construindo ao longo das sessões. O objetivo não é simplesmente ensinar os miúdos a copiar quadros famosos. Dependendo do artista e da obra escolhidos, Rita e Ricardo podem propor uma aproximação ao original ou dar liberdade para que cada participante faça a sua própria interpretação.

Quando tentam aproximar-se de uma obra, os miúdos são desafiadas a prestar atenção às formas, proporções, cores, composição e pequenos detalhes. Nas propostas mais livres, entram em cena a imaginação e as escolhas individuais. “No fundo, queremos que façam três coisas: observar, experimentar e criar.”

Tudo começou quando Rita foi mãe

O workshop nasceu há cerca de 14 anos, quando o filho de Rita tinha cinco. Na altura, ela e Ricardo sentiram que faltavam em Setúbal propostas que apresentassem a História da Arte aos mais novos de uma forma divertida e acessível. A pergunta que fizeram foi simples: por que não haveria um miúdo de cinco anos de conhecer Jean-Michel Basquiat, Yayoi Kusama, Keith Haring ou David Hockney?

“Só é preciso encontrar a linguagem certa para lhes contar essas histórias”, explica Rita. Começaram a apresentar um artista por semana. As inscrições apareceram e o projeto continuou. Durante vários anos, a programação seguiu uma lógica mais cronológica, quase como uma viagem pela História da Arte. Este ano, Rita e Ricardo decidiram experimentar temas e relações entre diferentes criadores.

Pelo atelier já passaram nomes de épocas, movimentos e universos muito diferentes, de Leonardo da Vinci, Botticelli e Velázquez a Vermeer, Turner, Edvard Munch, Seurat e Van Gogh.

No próximo sábado, 3 de outubro, será a vez do francês Jean Dubuffet entrar no atelier. Pintor e escultor, o artista (1901–1985) ficou ligado ao conceito de Art Brut, uma forma de criação livre das convenções artísticas tradicionais. Dubuffet interessava-se pela espontaneidade que encontrava, entre outros universos, na arte feita por crianças e gostava de experimentar materiais pouco convencionais, chegando a misturar areia e cascalho nas tintas.

“É um artista fantástico para trabalhar com miúdos”, adianta Rita. Apresentar estes universos a participantes tão novos obriga, naturalmente, a adaptar algumas histórias. Isso não significa, porém, transformar os artistas em personagens infantis ou eliminar toda a complexidade das suas vidas.

“Adaptando, mas sem as infantilizar. Simplificamos os contextos e, naturalmente, há episódios da vida de determinados artistas que contamos de forma mais leve ou que deixamos para outra idade.” Para Rita, não é necessário contar todos os detalhes biográficos para apresentar um artista de forma honesta. O essencial é encontrar uma narrativa capaz de provocar curiosidade.

“Mais do que uma aula académica de História da Arte, precisam de uma boa história que lhes desperte curiosidade.” E algumas dessas histórias ficam mesmo com os miúdos depois de saírem do atelier.

O dia em que Dalí saiu do papel

Ao longo de tantos anos de workshops, Rita e Ricardo acumularam episódios inesperados. Os surrealistas, conta Rita, costumam ser particularmente férteis nesse departamento. Um dos casos de que ainda se lembra aconteceu com João, então com cinco anos. Depois de conhecer Salvador Dalí e os seus inconfundíveis bigodes, o pequeno decidiu levar a inspiração artística um pouco mais longe do que seria esperado.

“Nunca me esqueci do João que, aos cinco anos e inspirado por Salvador Dalí, decidiu desenhar bigodes em si próprio com uma caneta de acetato. Andou assim mais de uma semana!”

A história tornou-se uma das memórias do atelier e, para Rita, também exemplifica o que pode acontecer quando a experiência artística ultrapassa a folha ou a tela. Entre os artistas que provocam entusiasmo imediato estão alguns dos nomes que os mais novos já reconhecem de casa ou da escola. Frida Kahlo, Picasso, Leonardo da Vinci e Van Gogh fazem parte desse grupo.

Porém, Rita e Ricardo também gostam de lhes mostrar obras de autores que nunca ouviram falar. Nesses casos, a ausência de referências anteriores pode até tornar a reação mais interessante. “É surpreendente ver como se aproximam de uma obra sem ideias feitas e encontram nela pormenores que, às vezes, os adultos deixam passar.”

A relação com as obras também muda entre aqueles que frequentam regularmente as sessões. Com o tempo, começam a perceber que o que veem num museu ou num livro não apareceu simplesmente numa tela: resultou de decisões, experiências e ideias. “A pintura deixa de ser apenas ‘uma coisa bonita’ e passa a suscitar perguntas: quem a fez? O que estava a acontecer? Por que escolheu estas cores ou estas figuras?”

Um atelier que está quase a fazer 20 anos

Muito antes de haver crianças a descobrir Basquiat e Dalí aos sábados de manhã, o :2Pontos começou com aulas de pintura para adultos. Para o ano, o projeto completa 20 anos.

Inicialmente, Rita estava sozinha. Pouco depois, Ricardo Crista juntou-se ao projeto. O nome escolhido acabou por traduzir a própria identidade dos dois: duas pessoas, dois espaços e duas vertentes, a criação artística e a educação pela arte.

Rita, de 44 anos, e Ricardo, de 48, são licenciados em Pintura e mestres em Ensino das Artes Visuais. No atelier, as funções cruzam-se, mas cada um tem áreas em que está mais presente. Rita trabalha sobretudo com adultos e adolescentes, enquanto Ricardo acompanha mais os jovens. Aos sábados de manhã, juntam-se para orientar o “Na Cabeça de um Artista”.

“É maravilhoso e, surpreendentemente, continuamos juntos”, brinca Rita sobre trabalhar em casal. “Na verdade, complementamo-nos. Temos sensibilidades e formas diferentes de trabalhar e um acrescenta qualquer coisa ao outro.”

Fora das aulas, os dois continuam a desenvolver os próprios percursos artísticos. Rita mantém-se mais próxima da pintura, enquanto Ricardo tem vindo a dedicar-se cada vez mais à escultura e à arte pública.

No caso dela, a relação com este universo começou muito antes do :2Pontos. Rita é do Norte e cresceu numa família onde tintas, desenhos, livros e conversas sobre arte faziam parte do quotidiano. Ainda em miúda, acompanhava o pai enquanto este estudava Belas-Artes. Muitos dos fins de semana eram passados na casa cor-de-rosa de Serralves e as férias em família incluíam frequentemente visitas a museus.

O pai chegou a ter um atelier de artes em Penafiel e a irmã teve outro em Aveiro. Rita conheceu Ricardo em Coimbra, quando ambos estudavam na universidade. Ao longo dos anos, desenvolveram vários projetos em conjunto, mas foi o :2Pontos que ganhou raízes em Setúbal e cresceu com o casal.

Os primeiros miúdos já são adultos

Quase duas décadas permitem medir o tempo de outra forma. No :2Pontos, ele também se conta através dos alunos que passaram pelas salas. Há crianças que aparecem apenas numa sessão do “Na Cabeça de um Artista” e outras que regressam praticamente todos os sábados. Algumas das que começaram a frequentar o projeto nos primeiros anos já chegaram à idade adulta.

“Acompanhámos crianças muito pequenas que cresceram connosco, desenvolveram a sua linguagem e algumas seguiram mesmo percursos ligados às artes.” Quando abriram o atelier, Rita e Ricardo pensavam sobretudo em ensinar desenho e pintura. Só com o passar dos anos é que perceberam que estavam a acompanhar uma parte da vida de quem ali entrava.

“É uma recompensa que vai muito além do que imaginávamos quando começámos.” A ligação prolongada às famílias é outra das marcas que Rita identifica no projeto. Há pessoas que frequentam o espaço há anos e relações que, entretanto, deixaram de caber dentro de uma aula de arte.

“Depois de tantos anos, sentimos muito afeto. Há famílias que fazem parte da nossa história há imenso tempo e relações que ultrapassaram uma simples aula de arte.”

Não são só os miúdos que põem as mãos nas tintas

O “Na Cabeça de um Artista” é apenas uma das atividades do :2Pontos. O espaço mantém aulas regulares de desenho e artes para jovens dos oito aos 14 anos e dos 14 aos 18, além do Atelier de Pintura destinado a adultos. Há ainda festas de aniversário artísticas e sessões de team building onde os participantes escolhem um artista e passam algumas horas a criar e experimentar. “Segue o mesmo princípio das crianças, só que os adultos inicialmente têm mais medo de fazer asneira”, brinca Rita.

E há novos projetos a caminho. Em janeiro, o :2Pontos vai apresentar uma exposição coletiva dos alunos adultos na Galeria da Escola Conde Ferreira. Rita e Ricardo estão também a preparar uma instalação em espaço público integrada na Mostra de Artes Performativas de Setúbal— MAPS.

“Reinventarmo-nos sempre foi o que mais nos motivou. Temos muitos projetos, alguns relativamente fáceis de concretizar e outros que continuam naquela gaveta mental chamada ‘temos de fazer isto’.” Depois de quase duas décadas, parece que essa gaveta ainda tem espaço. “Ao fim de quase 20 anos, talvez o mais importante seja perceber que ainda temos muita vontade de inventar coisas novas.” Os ateliers custam 10€ por miúdo, já com os materiais incluídos.

Carregue na galeria para acompanhar o trabalho desenvolvido pelo Atelier :2Pontos.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua Mariano Coelho nº20
    A 2900 Setúbal
  • HORÁRIO
  • “Na Cabeça de um Artista”: todos os sábados, das 10 horas às 12h30

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