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De Goa para Setúbal: abriu um “porto criativo” com arte, ioga e peixe impresso em papel

Tinu Verghis é a artista visual responsável pelo projeto Studio Bacalhau — que tem um programa especial de Páscoa.

Depois de anos a viver a “saltar” entre Goa e Berlim, Tinu Verghis aterrou em Setúbal e percebeu que tinha encontrado finalmente a cidade onde queria viver. A decisão inicial de se mudar para cá foi motivada pela educação dos filhos, mas o ambiente apaixonante da cidade convenceram de que esta seria a sua casa. 

Mãe de dois filhos, artista visual de 48 anos com mestrado em Fine Arts, agricultora, professora de ioga e fundadora de um centro comunitário e artístico em Goa, na Índia. Este é o currículo resumido de Tinu Verghis, que chegou com a família a Setúbal há precisamente um ano, acompanhada por uma visão muito própria de como a arte pode nascer do quotidiano, da natureza, da comida e da convivência.

O resultado é um estúdio que não cabe numa única definição. É oficina criativa, espaço de ioga, lugar de encontro, laboratório artístico e extensão natural de tudo aquilo que Tinu já fazia do outro lado do mundo. O Studio Bacalhau abriu a 7 de fevereiro e é um dos projetos mais improváveis dos últimos tempos.

 

“Em Goa, a arte era focada naquilo que nasce da terra, no arroz e na agricultura; em Portugal, é sobre peixe, sal e cortiça”, explica Tinu. O grande objetivo do Studio Bacalhau passa por mostrar como “a arte se cruza com o território, com a memória e com aquilo que comemos e tocamos todos os dias”.

Mais do que ensinar técnicas, Tinu pretende abrandar o ritmo, afastar os miúdos dos ecrãs, dar-lhes espaço para explorar, experimentar e falhar sem pressão. Quer convidar adultos a viver experiências mais sensoriais e significativas. E quer ainda que Setúbal veja o “bacalhau” não apenas como comida, mas como símbolo de “migração, resiliência e preservação”, numa espécie de metáfora perfeita para o próprio espaço que acaba de criar.

Uma artista, agricultora e mãe que encontrou em Setúbal um novo começo

A história de Tinu Verghis não começa em Setúbal, mas é aqui que ganha um novo sentido. Nascida na Índia, Tinu cresceu numa aldeia onde cultivar era uma extensão natural da vida. “A minha mãe cultivava praticamente tudo aquilo que comíamos”, conta. Era um contexto rural, em que a agricultura não era tendência nem manifesto, mas simplesmente a forma como a comida ia parar à mesa. E isso moldou-a para sempre.

Mais tarde, depois de concluir um mestrado em Fine Arts, Tinu encontrou uma forma de juntar duas paixões que pareciam vir de universos distintos: a arte e a terra. Tornou-se artista visual, mas nunca largou a agricultura. Em Goa, criou a Art Farm, um espaço comunitário e criativo onde recebe artistas em residência durante um mês, num ambiente agrícola e sem distrações, para que possam desenvolver ou continuar o seu trabalho. Pelo meio, cultiva arroz em época própria, legumes sazonais no resto do ano, segue princípios de permacultura e cozinha com aquilo que produz.

Quando se mudou para Setúbal, no ano passado, não deixou esse projeto para trás. Continua a geri-lo à distância, mantendo programas semelhantes e residências artísticas em Goa. Mas sentiu que precisava também de criar uma extensão dessa prática no lugar onde agora vive. O Studio Bacalhau nasceu precisamente dessa necessidade. Não como uma ruptura, mas como continuação.

“A Art Farm e o Studio Bacalhau são duas expressões da mesma prática”, explica à New in Setúbal

A mudança para Setúbal teve um motivo familiar por detrás. Tinu vivia a “saltar” entre Berlim, na Alemanha, e Goa, na Índia. Isso significava que os filhos frequentavam modelos de ensino alternativo. Quando ouviu falar da Academia de Música e Belas-Artes Luísa Todi, percebeu que tinha encontrado o sítio certo.

“Estávamos muito interessados em que as crianças aprendessem música e a escola pareceu-nos o lugar perfeito para isso.” Vieram conhecer a cidade e ficaram encantados. Os filhos, de 13 e 7 anos, “adoram absolutamente Setúbal”, e a mãe parece ter encontrado aqui o cenário ideal para continuar a sua vida artística.

O bacalhau como símbolo, metáfora e ponto de partida para criar

Num primeiro olhar, o nome Studio Bacalhau pode parecer inesperado para um espaço artístico. Mas, no universo de Tinu, faz todo o sentido. “Quis olhar para o bacalhau não apenas como comida, mas como um símbolo português”, explica. E é dessa leitura mais funda que nasce o conceito do estúdio.

“Vejo o bacalhau como algo que aponta para troca, migração, resiliência e preservação.” É também, na sua visão, uma imagem de lentidão, de tempo alargado, de transformação. Tudo temas que já trabalhava em Goa, mas agora transportados para um novo território.

Essa continuidade entre contextos é um dos aspetos mais interessantes do projeto. Na Índia, o seu trabalho surgia da terra, do arroz, da agricultura, do gesto de semear e colher. Em Setúbal, as matérias-primas mudaram, mas o raciocínio mantém-se. Agora, interessam-lhe o peixe, o sal, a cortiça, o estuário, os materiais do quotidiano local.

Essa lógica estende-se a toda a prática artística da fundadora do espaço. Tinu trabalha sobretudo como artista performativa, mas faz também instalações, cerâmica e desenho com caneta sobre cortiça, um suporte que a tem fascinado precisamente por lhe permitir cruzar referências das formas de arte tradicionais indianas, como a Madhubani, com materiais portugueses. Em vez do papel artesanal que usaria na Índia, usa a cortiça. Em vez de pensar a arte como algo separado da vida, trata-a como continuação direta do que se toca, se come, se guarda e se transmite.

Um estúdio aberto à cidade, com yoga, oficinas e experiências para miúdos e graúdos

O Studio Bacalhau segue uma arquitetura em open space, pensada para ser flexível, acolhedor e partilhado. Existe uma zona específica para ioga, com chão de madeira e ambiente mais calmo, e uma mesa grande em vidro onde decorrem as oficinas e atividades criativas. Tinu quer que tudo ali convide à presença, à experimentação e à relação com os materiais. Mais tarde, pretende também organizar exposições e convidar outros artistas para apresentarem os seus trabalhos por ali.

O Studio Bacalhau vai realizar ainda sessões de Hatha Yoga, pensadas para movimento consciente, respiração profunda e relaxamento. As aulas assentam em princípios tradicionais, com foco em posturas suaves, consciência respiratória e clareza mental. São dirigidas tanto a iniciantes como a residentes locais ou estrangeiros à procura de equilíbrio. A aula de ioga, com duração de 45 minutos, custa 12€. Já a sessão de meditação, com 30 minutos, fica por 8€, e o pack combinado de ioga e meditação no mesmo dia custa 16€.

Um dos formatos mais originais do projeto chama-se Gyotaku, uma técnica japonesa de impressão a partir de peixe real. No Studio Bacalhau, a experiência começa no Mercado do Livramento, onde os participantes podem comprar o peixe, regressar ao estúdio e criar a impressão sobre papel com tintas naturais e ferramentas simples. Como a tinta tradicional usada pode ser lavada, o peixe não é desperdiçado. No final, Tinu cozinha uma sopa e partilha a refeição com quem participou. É um cruzamento raro entre arte, património marítimo, comida e convívio. Esta experiência custa 50€ por adulto e 35€ por criança.

Há ainda um foco muito claro nas crianças, algo que Tinu assume sem hesitação. “As crianças, quando lhes é dado espaço para explorar, são mágicas.” Talvez por ser mãe de duas crianças, talvez por perceber como a infância está cada vez mais acelerada e dominada pelo estímulo visual e pelos ecrãs, o estúdio tornou-se também um lugar pensado para elas.

Todas as tardes decorre o Open Studio para miúdos, entre as 16 e as 17 horas, por 6€ por criança e por hora. Nesse formato, podem explorar livremente o espaço, os materiais e as possibilidades criativas. Depois, entre as 17 e as 18 horas, arranca a Creative Hour, por 12€, em que aprendem algo novo, desde fazer joias, imprimir, criar esculturas, bonecos ou pequenos projetos manuais.

Um espaço onde o processo importa mais do que o resultado

Se há uma ideia que atravessa todo o Studio Bacalhau, é a de que criar não tem de significar produzir algo perfeito. No trabalho com crianças, isso é particularmente evidente. Tinu usa cortiça, barro, técnicas de impressão e materiais naturais para estimular curiosidade, imaginação e relação com o mundo físico. Mas recusa a lógica do resultado obrigatório.

“Não há um resultado pré-definido quando faço oficinas para crianças. É tudo sobre o processo.” O objetivo não é sair dali com uma peça “bonita” ou “acabada”, mas com uma experiência vivida.

Essa filosofia é, no fundo, uma forma de resistência ao ritmo acelerado em que tudo acontece hoje em dia. “Quero desacelerar a forma como as crianças se envolvem com a vida.”

Na sua perspetiva, a relação constante com meios digitais empurra tudo para a frente, sem tempo de digestão, contemplação ou contacto real com os materiais. No estúdio, Tinu quer precisamente o contrário, que se toque, se sinta, se observe, se erre e se recomece.

Nos adultos, a lógica mantém-se, embora com outras camadas. As experiências são igualmente sensoriais e experimentais, mas procuram criar ligações significativas entre pessoas, comida, território e memória.

O Gyotaku é um exemplo claro disso. Porém, Tinu quer ir mais longe, desenvolvendo atividades em torno do yoga, da partilha de refeições e de encontros entre desconhecidos que passam a conhecer-se através do fazer, com workshops variados. A comunidade e o cuidado, diz, estão no centro da sua prática.

É por isso que define o Studio Bacalhau como um “porto criativo”. Um lugar onde materiais do quotidiano, cultura local, comida, prática artística e troca humana se encontram. Não é apenas um estúdio para aprender uma técnica ou ocupar uma hora. É um espaço pensado para quem procura experiências mais lentas, mais tácteis, mais presentes. E talvez seja precisamente isso que o torne tão singular numa cidade onde ainda há muito por explorar entre arte, território e comunidade.

Programas especiais, residências artísticas e um futuro ainda por construir

Embora o estúdio tenha aberto há pouco tempo, a programação já começou a ganhar forma. Tinu está a desenvolver workshops para crianças e adultos, programas sazonais e quer continuar a aprofundar a oferta ao longo dos próximos meses. O modelo mantém-se sempre íntimo e de pequena escala: as atividades funcionam com um mínimo de três e um máximo de oito participantes, o que permite preservar a proximidade e a qualidade da experiência.

Agora, a pensar nas férias escolares, o Studio Bacalhau preparou também um Campo de Páscoa totalmente alinhado com a sua filosofia de “slow art”, com duas semanas de programação (de 30 de março a 3 de abril e de 6 a 10 de abril) dirigida a miúdos dos 7 aos 12 anos.

Cada dia traz uma experiência diferente, sempre ligada à natureza e aos materiais: à segunda-feira há Gyotaku, a técnica japonesa de impressão com peixe e pigmentos naturais; à terça-feira, o foco é a cortiça, com criação de peças e colagens a partir de texturas naturais; à quarta-feira, os miúdos exploram argila, sal e pigmentos da terra numa abordagem sensorial à escultura; e à quinta-feira entram no universo lúdico com a criação de máscaras inspiradas em coelhos e raposas. À sexta-feira, o ciclo fecha com uma mini exposição e atelier aberto, onde podem partilhar o que criaram.

O programa inclui ainda uma rotina diária estruturada, com ioga às 10 horas, sessões de arte entre as 10h30 e as 12h30 e novamente entre as 13h30 e as 15 horas (com pausa para almoço pelo meio), reforçando o equilíbrio entre expressão criativa e bem-estar. O valor é de 35€ por dia, com snacks incluídos (o almoço é levado pelas crianças), num ambiente pensado para estimular curiosidade, ligação à natureza e experiências artísticas autênticas, sempre longe do ritmo acelerado e dos ecrãs.

Outra frente importante é a das residências artísticas. Tal como acontece em Goa, Tinu quer que o Studio Bacalhau possa acolher artistas convidados. O primeiro tema já está lançado: “Salty”. A proposta convida artistas a responder aos processos de secar, curar, guardar e recordar, a partir do bacalhau como ponto de partida conceptual e simbólico.

“O bacalhau nunca é fresco; o que significa carregar essa ideia no corpo, na linguagem ou na terra?” É uma pergunta belíssima e estranha, como tudo aquilo que realmente vale a pena explorar artisticamente.

Além disso, o espaço vai transformar-se, às sextas-feiras, num pequeno cinema intimista, com exibição gratuita de filmes independentes, entre curtas e longas-metragens, pensadas para provocar, questionar e criar conversa. A entrada será livre, e o objetivo é o mesmo que atravessa tudo o resto: reunir pessoas em torno de experiências culturais que normalmente ficam nas margens.

Carregue na galeria para conhecer melhor o novo espaço setubalense.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    R. Ocidental do Convento 19 Loja 3
    2900-514  Setúbal
  • HORÁRIO
  • Todos os dias das 9h30 às 18h

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