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Como a ansiedade quase acabou com a carreira de Shawn Mendes

O miúdo que conquistou a pop esteve à beira do abismo. Só muita terapia e uma nova forma de encarar a vida o ajudaram a voltar ao normal.
Mas ele já descobriu como recuperar

Shawn Mendes queria cantar. O corpo não o permitia. Precisamente no ano em que deveria lançar o seu quarto disco de originais, o impensável aconteceu. “Tive um momento no final de janeiro em que o meu próprio corpo me impedia de cantar. Estava fisicamente incapaz de cantar por causa da ansiedade de lançar um disco bem-sucedido. O medo estrangulou-me”, confessou em entrevista ao “The Guardian”.

Filho de um português de Lagos que emigrou para o Canadá, deu nas vistas na extinta rede social Vine — uma espécie de antecessora do TikTok — e rapidamente se tornou na nova sensação da pop. Género conhecido por debitar novas estrelas a cada semana, Mendes deixou-se absorver pela máquina trituradora.

Não bastava o peso de ser seguido por milhões de fãs. Mendes lançou o seu primeiro single apenas com 15 anos e são poucos os que estão preparados para a pressão de ser uma celebridade mundial do dia para a noite.

Os sete anos que se seguiriam haveriam de ser absolutamente avassaladores. Desde então que não houve ano em que não tenha feito uma digressão — à exceção, claro, do fatídico 2020. Isso não o impediu de lançar o quarto disco, “Wonder”, editado a 4 de dezembro.

A ansiedade chegou a par da fama, embora só nos últimos anos Mendes tenha partilhado publicamente a sua luta. O início do ano foi o golpe decisivo que o obrigou a pedir ajuda. Em causa estava a sua carreira e, ainda mais importante, a sua sanidade mental.

Os problemas psicológicos levaram-no mesmo a ponderar terminar a carreira. “Estive extremamente perto”, revela, antes de explicar porque é que não avançou: “Percebi que o problema não estava na indústria [da música] mas sim como eu a encaro. Deixei que ela controlasse o que eu faço, ao invés de ser eu próprio a controlar a minha vida”.

A legião de fãs que o segue para todo o lado é responsável por lhe garantir o estatuto de celebridade e todas as vantagens que isso acarreta. Porém, segundo o próprio, o sucesso alimentou um ego que o acabaria por trair.

“Será o sucesso apenas algo que alimenta o meu ego ou algo que é realmente bom?”, questionou na entrevista, depois de recordar que ser uma estrela da música foi sempre o seu grande sonho. “Percebi que quanto mais sucesso tinha, mais medo tinha de o perder, e isso deixava-me desesperado.”

Era daí que vinha o stress, o medo, a ansiedade que o impedia de cantar. “Os elogios e o sucesso transformaram-se num monstro que estava a alimentar-se da minha autoconfiança. Se alguém dissesse que não gostava da minha música, sentia imediatamente que não valia nada”, nota.

O canadiano de 22 anos precisou de consultar três terapeutas diferentes e ler dezenas de livros de auto-ajuda, até perceber finalmente o que o atormentava: “O problema é esse. Entras num desespero completo quando tentas fazer o impossível: criar algo que de todo o mundo goste.”

Assumiu recentemente que decidiu mudar de vida há um ano e meio, com recurso não só a ajuda profissional mas também através de exercício físico e de meditação. Percebeu, finalmente, que ao contrário do que pensava quando era um pré-adolescente, a felicidade não bate à porta com um par de singles bem-sucedidos.

“A felicidade vem da ligação humana, de nos apaixonarmos, de estarmos lá para o aniversário da nossa irmã e dos nossos amigos, e não de tocar ao vivo para 50 mil pessoas. A felicidade não está no final de uma longa viagem de comboio”, explica.

Hoje, sabe bem qual é a fórmula para ser bem-sucedido, não só na música, mas na vida — a única forma de ser feliz com as duas facetas da vida: “O que acontecia se amanhã mais ninguém se lembrasse de mim? Ainda tenho pais e uma irmã que me amam? A minha namorada e o meu cão? A resposta é que estaria muito bem. Sou saudável, tenho dinheiro, apoio e segurança.”.

Shawn Mendes não guardou a fórmula para si próprio. Depois de ter assumido que a pandemia potenciou muitas das suas fragilidades e ansiedades, foi o próprio quem assinou um artigo publicado na “TIME” onde dá alguns conselhos para promover a saúde mental.

A mudança abriu-lhe uma nova perspetiva, longe da pressão da música, dos rumores sobre a sua alegada homossexualidade ou até da suposta falsa relação com a também cantora Camila Cabello. De repente, criar êxitos e cantá-los para a maior audiência possível deixaram de ser prioridades. O sonho do miúdo já não é o mesmo. “A verdade é que nem sei sequer qual é hoje o meu sonho.”

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