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Artista setubalense lança primeiro single inspirado no seu síndrome de hiperatividade

A NiS quis perceber como foi escrever sobre a condição de Peonya e de que modo influenciou o processo criativo da música.
Já pode ouvir o single.

Se recuarmos no tempo, na altura em que Rita era bebé, vamos perceber, como conta a mãe da jovem setubalense, que as viagens no carro eram sempre divertidas — já que, mesmo sem saber falar, passava o caminho inteiro a cantar. “Conforme fui crescendo, apaixonei-me por todos os tipos de arte, mas até aos dias de hoje, cantar, ouvir e ver pessoas apaixonadas pela música aquece-me o coração”, explica a artista à NiS

Rita Silva, 19 anos, lançou no dia 17 de janeiro o primeiro single da sua carreira, “ADHD”, sob o nome artístico de Peonya. Começou a ser escrito em 2022, depois de ter sido diagnosticada com PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção). Esta notícia alterou a vida de Rita, mas, mais do que isso, considerou que todas as peças do puzzle, afinal, se encaixavam. Transformou a condição em inspiração e criou uma música, disponível no YouTube.

A New in Setúbal falou com a jovem — que tem também o negócio sustentável now or never —, para saber tudo sobre o processo criativo deste novo projeto.

Qual é a primeira lembrança que tem de a música estar presente na sua vida?
O interesse pela música nasceu coladinho a mim. É o que nos une e acolhe, é poesia e um meio de comunicação. A música é de todos nós, é cultura e história. Tento sempre encontrar algo em comum com todas as pessoas do mundo e acho que se trata da música.

Neste caso, foi um episódio da sua vida que foi mote para o novo trabalho.
O single “ADHD” começou a ser escrito há cerca de dois anos, depois de ser diagnosticada com PHDA. Ao receber o diagnóstico, tudo na minha vida começou a fazer sentido, a dificuldade em gerir o tempo, sensibilidade auditiva, a famosa “cabeça na lua” e muito mais. É uma luta constante comigo mesma e quis transmiti-la neste videoclipe através da letra, expressão facial, cenários e elementos e tom de voz.

E como é que é foi a aceitação das pessoas quando souberam que tinha PHDA?
Tenho uma família e amigos que me apoiam muito e acreditam em mim, mas nem toda a gente acredita que um dia consiga viver apenas da música. Eu percebo que seja instável ao início, mas se eu ouvir o que todos me dizem ficarei a meio do caminho. Toda a gente tem sonhos e eu não quero ser só mais uma que não os realizou. Para um pequeno artista qualquer incentivo ajuda.

Sentiu-se compreendida? Aceitou o diagnóstico e começou a trabalhar no projeto.
Desde que comecei a gravar no estúdio e a ter contacto com mais jovens e adultos que também amam a música, coloquei completamente a cabeça no sítio. No estúdio NBNC, todos nós ajudamos uns aos outros, quer seja com beat, letra, captura de som, gravações, mix e master. Sou muito grata por me motivarem e me fazerem sentir o potencial que tenho.

Como é que começa o processo criativo deste single?
Normalmente prefiro ter um beat/instrumental antes de escrever a letra, porque gosto de deixar fluir. Assim que ouço toda a musicalidade e penso na forma como posso dividir a música, começo a escrever ou agarro em poemas e frases soltas que escrevi nas notas em algum momento da minha vida.

E sabe sempre o que vai escrever?
Não tenho grande dificuldade, apenas deixo fluir. Na captura de voz, gravo primeiro a principal e depois backs e harmonias que, por vezes, nem se ouvem de primeira, mas dão mais força à voz. Esta parte é engraçada porque podemos brincar um pouco com a voz e com o beat.

Já alguma coisa correu mal?
Nem todas as músicas que são gravadas vão para a frente. A música “ADHD” acabou por ir. Depois de ser gravada, comecei a ouvir a música repetidamente enquanto imaginava como poderia ser o videoclipe. Separei cada sentimento da música em um cenário e nos seus elementos. Por último, gravámos e editámos. Todo este processo parece simples, mas requer o tempo de muitas pessoas.

Como foi a preparação do lançamento do single? Divertido? A condição não foi impedimento?
Adorei e não impediu, de todo. Pelo contrário. Consegui literalmente visualizar o que sinto e entender-me melhor. Espero, graças a esta música, conseguir explicar a quem desconhece o PHDA e como funciona. Gostei imenso da experiência de gravar e direcionar o meu primeiro videoclipe, de me poder expressar e de representar. Fiz também questão de fazer as calças com o videoclipe e a “camisa de força”, para deixar tudo mais especial e único.

O que retratam os cenários e elementos visuais?
No primeiro cenário, em que tenho tudo espalhado pelo chão, quis representar a confusão e a desorganização, ter muita criatividade e querer fazer tudo, mas acabar por ficar parada e bloqueada. O escadote representa a vontade de subir na vida, mas de ficar sempre presa no mesmo sítio. Os balões vermelhos representam a cabeça na lua, a dor por não conseguir manter o foco e controlar o tempo. 

E porquê a camisa de força, que mencionou?
A camisa de força é um elemento que pode parecer muito brusco, mas representa perfeitamente este sentimento de querer ultrapassar tudo, aprender, crescer e apenas não conseguir. Depois, no cenário em que agarro na câmara, e estou com os óculos, retrato uma parte mais confiante, a parte que mostro a todos. Quis usar uma meia de cada cor em todo o videoclipe porque o faço constantemente. Todos estes cenários e elementos são a mistura perfeita do que sinto, quer seja por ter PHDA, quer seja por ser uma jovem adulta.

Porquê a escolha deste nome artístico?
Não quis ser apenas Rita Silva por ser um nome super comum e por querer fazer carreira no exterior um dia. O processo do nome Peonya é muito extenso e engraçado, mas resumidamente, quero ser pioneira na música. Poucos são os portugueses que fazem com que a sua música chegue a todo o mundo. Quero chegar e tocar no coração do mundo inteiro, não de uma forma egocêntrica claro, apenas sinto que é a minha missão é adoro ver sorrisos e sentimentos.

Já tem projetos para o futuro?
Quero muito gravar um EP ou um álbum, acho que é um dos objetivos de qualquer artista. Desejo que o primeiro seja especial, por isso terei de me dedicar bastante. Ainda estou reticente se faria em português, inglês ou misto, mas na altura saberei. 

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