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Antigo alfaiate de Setúbal lança livro sobre a profissão

O “Manual para o Alfaiate”, de Vítor Gaspar é apresentado este domingo, 27 de outubro, na Casa da Baía.
Vítor Gaspar tem 85 anos.

Chama-se Vítor Manuel Pereira Gaspar, mas é mais conhecido por Vítor Gaspar ou simplesmente Gaspar Alfaiate. O setubalense tem 85 anos e trabalhou no ofício mais de meio século. Agora com base nas imagens, apontamentos e histórias recolhidas ao longo do tempo, lançou o livro “Manual para o Alfaiate — Uma Lição de História e uma Lição de Vida”.

A apresentação da obra está marcada para este domingo, 27 de outubro, às 16 horas, no auditório da Casa da Baía. O livro, com edição da Chiado Books vai estar à venda em todos os países de língua oficial portuguesa e já está disponível na FNAC de Lisboa.

À New in Setúbal, o antigo alfaiate explica que o livro “é um manual de formação para o alfaiate, que pretende perpetuar esta arte milenar, um autêntico e verdadeiro documento histórico, com o objetivo de levar os mais novos a interessarem-se por este nobre ofício”.

Vítor Gaspar nasceu em janeiro de 1934 num edifício junto ao Quebedo. A mãe Lúcia Gaspar, natural de Setúbal sempre trabalhou como costureira, por isso Vítor cresceu no meio dos fatos, agulhas e linhas. Já o pai Joaquim Gaspar era soldador e natural de Sines.

Quando surgiu a crise das conservas, em Setúbal, muitos soldadores foram para Lisboa trabalhar, e foi esse o caso do pai de Vítor. Com apenas 12 anos e numa “cidade grande e muito mais movimentada” que Setúbal, o miúdo foi para aprendiz de alfaiate na Alfaiataria Fonseca no Rossio, na Praça D. João de Câmara, junto ao Teatro Nacional D. Maria II.

Na oficina, aprendeu muitas das técnicas, que guarda na memória, com as costureiras e o oficial. Com 20 e poucos anos tornou-se mestre. “Como já sabia fazer fatos e tirei depois o curso técnico de alfaiate de homem e senhora, respondi a um anúncio e fui selecionado para ser mestre e dirigir uma secção de alfaiataria, em Lisboa”, conta à New in Setúbal.

Fez também um estágio de três meses em Vila Franca de Xira, numa alfaiataria especialista em trajes ribatejanos. Com provas dadas e talento de sobra, decidiu voltar à cidade do Sado e fundar a sua própria alfaiataria, no final de 1958.

Imagem de um anúncio publicitário à alfaitaria Vítor Gaspar, que passava antes da exibição dos filmes, no Fórum Municipal Luísa Todi.

O espaço Vítor Gaspar Alfaiate junto à drogaria dos Pachecos. Lá fazia dezenas de fatos para homem e também peças de vestuário de senhora. O processo era simples e tal como se via nos filmes portugueses de Vasco Santana (tirando a parte da prova dos nove, escrita a giz nas costas dos fatos). “As pessoas iam tirar as medidas, escolher a fazenda e os figurinos, que podiam ser franceses ou ingleses. Depois era só fazer os ajustes necessários ao corpo e ao gosto do cliente”, revela Vítor Gaspar.

Desse tempo, o alfaiate de Setúbal lembra uma história de um cliente especial, o Sr. Lince. “Era um cavalheiro que apesar dos seus 80 anos era bom conversador e muito sábio. O fato para ele tinha de ter duas calças, casaco e colete. E pedia-me sempre que colocasse nas calças e no colete um bolso extra e secreto para pôr algumas moedas, por precaução”, brinca.

O “Manual para o Alfaiate — Uma Lição de História e uma Lição de Vida” é o primeiro livro publicado por Vítor Gaspar. O desafio surgiu numa exposição de pinturas e vestuário através dos tempos, que esteve na Casa da Baía, em 2014 chamada “Uma Lição de História”. “Os visitantes gostaram tanto da mostra, que me pediram para não deixar morrer a profissão e eu assim fiz”.

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