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Abortos, drogas e assédio: a vida pouco charmosa das atrizes históricas em Hollywood

Os todo-poderosos produtores controlavam a vida das estrelas através de contratos abusivos e ameaças. Nem os maiores nomes escaparam.
Parece que nada mudou.

Lana Turner era uma das mais bem pagas atrizes de Hollyood na década de 40. No pico da carreira, uma gravidez inesperada era tudo o que nenhum dos homens que gravitavam à sua volta pretendiam. Escolhidas pela sua beleza e pelo charme com que encantavam os espectadores, passar de atriz desejada para o papel de mãe era um verdadeiro pesadelo para os produtores.

Perante estes casos, um nome surgia sempre à frente de todos os outros como o homem que podia fazer desaparecer qualquer problema: Howard Strickling, o gestor a imagem da MGM. Era ele quem secretamente organizava abortos secretos para manter intactas as estrelas que tornavam os donos dos estúdios milionários.

O caso de Turner ficou resolvido durante uma viagem de promoção ao Havai. Foi num quarto de hotel, sem anestesia, que a operação foi feita. Terá sido a própria mãe a cobrir a boca de Turner para abafar os gritos, revela a “Vanity Fair”. Os cerca de 500 dólares do aborto foram cobrados e retirados do salário de Turner. A atriz tinha apenas 20 anos e, uma semana depois, estava de volta às gravações.

Este está longe de ser o único relato chocante dos hábitos sórdidos da velha Hollywood. Nos tempos dourados do cinema, eram (ainda mais) os homens que detinham o poder absoluto. E com essa força desmesurada nasciam os abusos: os produtores agiam como donos das atrizes, tomavam conta do seu corpo através de cláusulas abusivas, controlavam a sua vida privada e destruíam carreiras com um estalar de dedos.

Os abortos

As jovens que acorriam de todo o país para serem famosas em Hollywood eram as grandes armas dos estúdios. O sex appeal das estrelas que começavam a surgir no ecrã ainda antes da maioridade tinha que ser protegido a todo o custo. Os estúdios lucravam com a imagem da jovem sedutora, mas não o podiam fazer com uma jovem atriz acabada de ser mãe.

A gravidez e a maternidade significavam, para os grandes produtores, um prejuízo. Foi por isso que decidiram tomar medidas para prevenir que as suas mais rentáveis estrelas se sabotassem — às suas carreiras e aos potenciais lucros dos homens que as rodeavam.

Ao logo nos anos 20, os contratos das estrelas passaram a incluir cláusulas de moralidade. O objetivo passava por evitar comportamentos de risco das atrizes que pudessem resultar num escândalo.

“Assumia-se que as estrelas glamorosas deixariam de ser populares se tivessem filhos”, revela Cari Beauchamp no livro “Old Hollywood, Without Lying Down”. Apesar das gravidezes estarem contratualmente proibidas, como seria de esperar, isso não impediu que elas acontecessem. As imposições dos estúdios chegavam a ir mais longe e a proibir o casamento das suas estrelas.

Jean Harlow, a Bomba Platinada, tornou-se rapidamente numa dor de cabeça para a MGM. Além de ter sido proibida de casar com o ator William Powell, acabou por engravidar. O que se seguiu era expectável.

Louis B. Mayer e Jean Harlow.

Em cena entrou novamente Howard Strickling, que internou a atriz num hospital sob o nome de Jean Carpenter, nome de batismo, para ocultar a identidade e evitar potenciais escândalo. No quarto, apenas entraram médicos e enfermeiras privadas. O problema ficou resolvido.

Solução semelhante foi engendrada por Strickling para ajudar Jeanette McDonald a “livrar-se do problema” — segundo palavras do chefe da MGM à época, Louis B. Mayer — , que a internou para alegadamente tratar “uma infeção de ouvidos”.

Os casos sucederam-se com nomes ainda mais famosos. Joan Crawford — obrigada a não usar o seu nome de nascimento Lucille LeSueuer porque Strickling dizia que o fazia lembrar de um esgoto, ‘sewer’ em inglês —, engravidou depois de um suposto caso com Clark Gable. Resolvido “o problema”, justificou-se ao marido ao dizer que tinha caído e perdido o bebé.

Também a lendária Bette Davis acabou por ceder às pressões dos estúdios e a abortar. Era isso ou a carreira. “Se tivesse sido mãe em 1934, teria perdido os melhores papéis da sua vida”, revelou a biógrafa Charlotte Chandler.

“A MGM tem todo o tipo de cláusulas de penalizações para as estrelas que têm bebés. Se eu tivesse um, o meu salário seria cortado. Como é que poderia viver assim?”, terá dito Ava Gardner — que fez uma viagem a Londres para abotar secretamente, isto durante o casamento com Frank Sinatra, sem que o próprio soubesse —, citada por Jane Ellen Wayne.

Frank Sinatra e Ava Gardner no casamento — um power couple dos anos 50.

Outro nome nesta lista negra é o de Judy Garland, a eterna Dorothy de “O Feiticeiro de Oz”. É que não era só o casamento e a gravidez que estavam reguladas nos contratos. As atrizes eram também contratualmente forçadas a manter a silhueta. Quando engravidou por acidente, foi a própria mãe que organizou o aborto com a ajuda do sempre presente Strickling.

Nem todas as histórias terminaram bem. Foi o caso de Lupe Velez, a atriz de origem mexicana que engravidou e se debateu sobre se deveria ou não manter a criança. Recusou, mas acabaria por cometer suicídio.

Drogas e dietas

Canja de galinha, café e 80 cigarros por dia. Durante semanas a fio, foi essa a dieta imposta a Judy Garland pelos executivos da MGM. O peso era controlado à grama e a performance no ecrã não podia ser prejudicada por nada.

As gravações também eram devastadoras para a saúde física e mental da atriz. Perante toda esta pressão, eram os próprios estúdios que encorajavam o uso de drogas: estimulantes quando era necessário aguentar longos dias de filmagens; para dormir quando era necessário descansar.

Habituada a tomar comprimidos — a mãe começou a dar-lhos logo aos 10 anos —, aos 17 anos, já durante as gravações do seu mais famoso filme, estava viciada em anfetaminas e barbitúricos.

“Obrigavam nos a trabalhar dias e noites sem fim. Davam-nos comprimidos para nos mantermos de pé quando já estávamos exaustas. Depois levavam-nos para o hospital do estúdio e punham-nos a dormir com comprimidos”, revelou a própria ao biógrafo Paul Donnelley. “Ao fim de quatro horas, voltavam a acordar-nos e davam-nos drogas para podermos fazer mais 72 horas seguidas.” 

Garland era constantemente pressionada pelos homens do estúdio. Antes dos 18 anos já tinha participado em mais de 20 produções. A primeira de relevo foi aos 14.

Os produtores, preocupados com o peso, chamavam-lhe “a porquinha de tranças”. O controlo era exaustivo e todas as calorias eram contadas individualmente. Louis B. Mayer exigiu que também lhe fossem dados comprimidos para reduzir o apetite.

Haveria de lutar contra o vício das drogas durante o resto da sua vida. Acabaria por morrer de uma overdose acidental aos 47 anos. 

Judy Garland com 47 anos, cinco meses antes da morte.

Aos 19 anos, Debbie Reynolds conseguiu o tão ambicionado papel de protagonista naquele que se viria a tornar num clássico de Hollywood. Em “Singin’ in the Rain”, iria contracenar com Gene Kelly.

As gravações do musical, os constantes takes e os ensaios eram exaustivos. De tal forma que Reynolds chegou a um ponto em que não conseguia pôr-se de pé. Aconselhada por um médico a tirar uma semana de descanso, o executivo da MGM Arthur Freed disse-lhe para consultar outro médico, que lhe daria “injeções de vitaminas”.

“Essas eram possivelmente as mesmas vitaminas que arruinaram Judy Garland”, escreveu a atriz anos mais tarde. Acabou por aceitar o primeiro conselho e descansou sem a ajuda de drogas. “Essa decisão talvez me tenha livrado de uma vida agarrada a estimulantes.” 

O assédio sexual

Como sempre, quando o poder é quase absoluto, os abusos são inevitáveis. Era assim com os todo-poderosos executivos e produtores de Hollywood. Os exemplos dariam uma lista infindável — e os conhecidos serão apenas uma amostra do que realmente se passou.

A própria Judy Garland era obrigada a sentar-se ao colo de Louis B. Mayer, o então chefe da MGM. Shirley Temple revelou, anos mais tarde, que Arthur Freed, produtor da MGM, lhe exibiu as partes íntimas quando ela tinha apenas 12 anos.

Uma jovem Judy Garland ao lado de Louis B. Mayer.

Quando os abusos não eram explícitos, as abordagens predatórias e as ameaças veladas estavam sempre à espreita. Ginger Rogers era constantemente assediada pelo chefe da Columbia Pictures e Joan Collins revelou que perdeu o papel de Cleópatra porque recusou ser “simpática” para o homem forte da 20th Century Fox, recorda o “The Guardian”

O ambiente de Hollywood era propício a este tipo de abusos, ainda mais quando do outro lado não estavam estrelas consagradas, mas jovens vindas de todo o país à procura de uma oportunidade para brilhar. Durante muitos anos, revelou a atriz Louise Brooks, que as escolhas eram feitas não nos castings mas nos sofás de festas organizadas por homens influentes.

O caso mais paradigmático do ambiente predatório da velha Hollywood aconteceu em 1937, num caso de violação que se tornou num escândalo nacional. Patricia Douglas, dançarina de 20 anos, aceitou um trabalho como assistente num evento da MGM.

Tratava-se, afinal, de uma festa de Hollywood onde estariam presentes centenas de membros da MGM. Aos convidados, foi lhes dito para esperarem “uma noite selvagem onde os ‘homens se comportam como homens’”.

Douglas e outras 120 mulheres foram levadas num autocarro para uma casa no deserto, vestidas com um justo e revelador fato de western. Ali chegadas, perceberam que teriam que dançar para entretenimento dos 300 executivos e vendedores, que comiam e bebiam à larga, à conta da MGM.

Com o álcool a fluir, a festa ganhou os tais contornos selvagens. Douglas começou a ser assediada por um vendedor de 36 anos chamado David Ross, que a certa altura a agarrou e, com a ajuda de outro homem, a forçou a beber e a embriagar-se. Acabou por levá-la para o seu carro e violá-la. “Vou destruir-te”, terá dito durante a agressão.

Sem medo, Douglas expôs o caso na imprensa e avançou para tribunal. O escândalo ameaçava a MGM que rapidamente agiu, como seria de esperar. A festa selvagem organizada pelo estúdio rapidamente desapareceu das menções.

Todas as referências ao estúdio foram omitidas. E os advogados apressaram-se a lançar dúvidas sobre a honestidade e o carácter da vítima. Vários homens testemunharam a favor de Ross e disseram que viram Douglas beber durante a festa. O caso desapareceu.

Eddie Mannix, um dos rufias e homem para todos os trabalhos da MGM, foi um dos responsáveis por abafar o caso. Segundo o “The Guardian”, terá brincado com a situação depois de resolvida: “Mandámos matá-la.”

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