Há quase dez anos que Luísa Leitão trabalha na indústria cinematográfica. Isso teve uma consequência inevitável: hoje em dia, já não consegue ver filmes como toda a gente. Desde que entrou no mundo dos efeitos visuais, admite que as produções, desde longas-metragens a séries, “perderam um bocadinho da magia”. Afinal, quando está sentada à frente do ecrã repara em cada detalhe, erro e camada escondida por detrás de um plano. “Noto logo as falhas técnicas”, diz à NiT.
Pode parecer uma maldição, mas foi esta mesma capacidade analítica que a levou a projetos de grandes dimensões como “Stranger Things”, cuja primeira parte da última temporada estreou a 27 de novembro. A portuguesa trabalhou no quarto volume, lançado em 2022.
Luísa, de 39 anos, vive atualmente em Setúbal, onde cresceu, mas já viajou por vários países da Europa para conseguir trabalhar nesta indústria tão elitista. Em 2016, por exemplo, mudou-se para a Escócia e viveu entre Glasgow e Bristol, em Inglaterra. Mais tarde, em 2019, pouco antes da pandemia, estava a trabalhar na Alemanha. Só voltou definitivamente a Portugal com o namorado que também trabalha na área quando o trabalho remoto se tornou possível — uma mudança que considera decisiva para conseguir ter um equilíbrio entre carreira e vida pessoal.
O percurso até ao universo do 3D e efeitos visuais, áreas em que trabalha atualmente, não foi imediato. Luísa Leitão formou-se em Artes no secundário sem saber exatamente o que queria fazer. Sabia, contudo, que tinha talento tanto para as disciplinas artísticas como para a matemática e geografia descritiva. Em 2004, entrou na universidade, no curso de Arquitetura e Design, uma formação de cinco anos que dividia conteúdos entre design gráfico e industrial.
“No quarto ano fui estudar para Itália e tive disciplinas ligadas ao 3D. Foi aí que percebi que existia este mundo e que queria explorá-lo melhor”, conta.
Quando regressou do Erasmus, dedicou-se ao design industrial, área onde o contacto com software tridimensional se tornou ainda mais profundo. Realizou depois um curso especializado em software 3D, que lhe permitiu perceber a dimensão do setor.
“Este mundo era muito grande e havia muito que era possível fazer. Comecei a aprimorar o que sabia aos poucos”.
A porta de entrada profissional acabou por ser na empresa Yellow Mammoth, onde trabalhou em projetos pequenos, incluindo trabalhos para festivais como o IndieJunior, onde fazia os vídeos de abertura. Depois de quase quatro anos, saiu e passou dois anos a trabalhar como freelancer — até perceber que em Portugal era praticamente impossível encontrar oportunidades dentro da área.
Sem desistir, enviou o seu portefólio para dezenas de empresas internacionais. A Axis Studios foi a primeira que lhe respondeu. A empresa que tinha trabalhado no filme “Monster High: Electrified” contratou Luísa Leitão em 2017, para o departamento de iluminação na pós-produção. O conrtato inicial era de três meses, mas acabou por ficar lá até 2019.
“Aos poucos e poucos fui subindo até ter chegado aos efeitos visuais”, recorda à NiT.
Hoje em dia trabalha como CG Artist, ou seja, cria digitalmente elementos que podem ser ambientes, objetos, efeitos, textura, simulações ou iluminação. Depois, transforma tudo isto numa imagem final.
No fundo, a sua equipa pega no que foi filmado ou criado por outros departamento e integra-o de forma realista num plano. No caso de Luísa, isso significa trabalhar sobretudo com iluminação, shaders e ambientes 3D. Quando a produção chega às suas mãos, cabe-lhe juntar todas as camadas, ajustar luzes, corrigir falhas e garantir que o plano final parece real.
Um dos projetos de que mais se orgulha é, claro, “Stranger Things”. “Gostei muito porque já era fã”, confessa. Luísa Leitão trabalhou, mais especificamente, no último episódio da quarta temporada, que é um dos mais elogiados da produção — no IMDb, por exemplo, tem 9,1 estrelas em dez.
Mas trabalhar na série não foi tão mágico quanto poderia parecer aos olhos do público. Os estúdios entregavam scans dos cenários reais e Luísa tinha de recriá-los em 3D, porque as cenas eram tão iluminadas que muitas vezes o material original não podia ser utilizado. Esse foi um dos seus maiores desafios na produção.
“Havia muitas coisas filmadas em que todos os cenários tinham sido reproduzidos em vida real, mas com a quantidade de luz que tinham, tive de reproduzir muita coisa que já existia”, explica.
A portuguesa foi responsável, por exemplo, pelas veias do Vecna que se mexem quando a personagem é atacada — animação, shaders e interação com fogo incluídos.

“Tinha de ter a certeza de que a interação do fogo com o cenário acontecia bem. Fiz a finalização de duas cenas: uma em que ele está a cair e outra em que está a rastejar”, descreve.
Parece pouco? Na prática, dois minutos de ecrã exigiram quatro meses de trabalho, com uma equipa inteira por trás. “Como sou sénior, não faço só o meu shot — também corrijo erros que surgem no processo.”
Entre as produções que mais gostou de fazer está ainda “Avatar: The Last Airbender” (série da Netflix lançada em 2024), sobretudo pelo ambiente da equipa. “Era muito boa e tinha alguns portugueses, o que foi ótimo.”
Mas nem todos os vilões no mundo dos efeitos visuais são monstros interdimensionais. Os maiores desafios são bem mais mundanos: prazos apertados, horas longas, erros técnicos que se acumulam e tarefas dependentes de outros departamentos.
“Por vezes achamos que um trabalho demora X e demora o dobro do tempo. Receber coisas de outros departamentos que não funcionam bem faz parte do dia a dia”.
Ainda assim, é o resultado final que compensa tudo. “Gosto de chegar ao fim e ver o shot acabado e perceber que fizemos um bom trabalho”, afirma. A boa relação dentro das equipas também é essencial — é isso que torna a rotina pesada mais leve.
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