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A linha telefónica que se tornou um confessionário para criminosos de Nova Iorque

O projeto de Allan Bridge atraiu assassinos com relatos perturbadores. As chamadas são reveladas no novo podcast "The Apology Line".
As chamadas são assustadoras.

A voz com sotaque nova-iorquino que chega do outro lado da chamada está visivelmente trémula, com uma felicidade contida. “Nunca pedi perdão a alguém antes de as magoar. À pessoa que atendeu o telefone, digo, vou descobrir quem és — e peço já desculpa —, mas vou matar-te (risos). Nunca tinha pedido desculpa a ninguém antes de cometer um crime. Vou matar-te. Desculpa. Mas [se pedir já] fica tudo bem assim, não é?”

O telefonema perturbador provocou um arrepio em Allan Bridge e a mulher, Marissa, os dois anónimos por detrás da Apology Line. A linha, também ela anónima, foi criada para servir como uma espécie de confessionário, onde estranhos podiam pedir desculpa por tudo: infidelidades, traições, agressões, roubos. Durante 15 anos, a máquina atendedora esteve ativa e recolheu milhares de chamadas. E rapidamente se tornou num repositório de verdadeiras histórias de terror.

A história da Apology Line é hoje tema de um dos podcasts do momento, narrado precisamente por Marissa, viúva do criador da linha. Lançada em janeiro, os seis episódios de “The Apology Line” já estão disponíveis.

“Atenção. Amadores, profissionais, criminosos, operários e gestores. Erraram perante as pessoas e é perante elas que devem pedir perdão, não ao Estado, não a Deus. Desabafem sobre os vossos crimes”, lia-se nas centenas de pequenos cartazes espalhados pelas ruas de Nova Iorque. O panfleto divulgava um número para o qual era possível ligar, sob total anonimato. Garantia-se que as chamadas seriam gravadas por um atendedor e recomendava-se que não fossem dados quaisquer elementos identificativos.

O panfleto distribuído por Manhattan.

O projeto saiu da mente de Allan Bridge, que prometia privacidade, embora explicasse que as chamadas seriam ouvidas, escolhidas e divulgadas publicamente numa eventual exibição artística. Allan era, também ele, um artista em dificuldades, a tentar lidar com um passado recheado de pequenos crimes inofensivos.

“O Allan foi um pequeno criminoso durante a sua juventude e preocupava-se que as pessoas podiam também cair nessa vida e tornarem-se predadores ou presas. Ele queria ver se era possível ‘ajudar as pessoas a serem melhores'”, revelou em 2004 Marissa Bridge.

O projeto foi para o ar em 1980 e coincidiu com uma onda de crime violento que assolou a cidade, à boleia do uso generalizado de crack. 1981 foi, inclusivamente, o ano mais violento da história da cidade, com um registo de 1841 homicídios, valor que aumentava de ano para ano, até finalmente descer em 1991.

Não demorou muito até que a linha estivesse completamente entupida. A meio da década, o atendedor de Bridge recebia perto de 100 chamadas por dia. E como seria de esperar, a anonimidade deu abertura a muitos criminosos para que pudessem confessar os atos mais violentos.

As primeiras confissões eram relativamente benignas. Houve quem ligasse para pedir desculpa pelo privilégio de ser “uma mulher branca e rica”, outros que queriam apenas desculpar-se por terem assistido a roubos sem chamarem a polícia. Depois, tudo mudou.

“Nas primeiras semanas, alguém ligou a dizer que tinha roubado e assassinado homossexuais, o que correspondia exatamente ao que se passava em Nova Iorque nessa altura”, recorda Marissa.

Os relatos entraram numa espiral negra, com chamadas cada vez mais detalhas e mais gráficas. Um dos criminosos mais recorrentes era um homem que se apresentava como Ritchie e que foi presença contínua no atendedor durante cinco anos.

Nas várias chamadas, descreve-se como um assassino em série e revela alguns detalhes sórdidos dos crimes. Não foi o único. Houve quem confessasse crimes de pedofilia, de matar a sua própria mãe — um até reclamou ser o célebre Zodiac Killer.

O escritório onde Allan recebia as chamadas.

A Apology Line tornou-se de tal forma popular que Allan criou secções para que quem ligasse pudesse escolher o tipo de crime a relatar: sexual; abuso de crianças; ódio; vício de drogas. Era comum Allan estar do outro lado do atendedor. Em casos mais drásticos, quando as chamadas tendiam para o suicídio, chegava mesmo a atender e a conversar com quem ligava. Nunca se identificou: ficou conhecido como o Mr. Apology.

O sucesso da Apology Line levou Allan a criar, tal como tinha prometido no panfleto, vários eventos públicos e exibições de alguns dos relatos. Criou mesmo uma revista periódica onde eram feitas algumas revelações.

Um dos relatos, contudo, despertou a atenção de um detetive: o relato era semelhante ao de um crime que investigava e tentou socorrer-se da ajuda de Bridge. A gravação não foi entregue à polícia, mas Bridge aceitou torná-la pública num programa de rádio.

O furor causado pelo projeto chamou à atenção da HBO, que comprou a Allan os direitos para um eventual filme. “Apology” foi mesmo para o ar em 1986 e contava a história de uma psicóloga que criava uma linha para anónimos confessarem os seus crimes — o que atrai um psicopata que a tenta assassinar.

Algo semelhante aconteceu com Allan e Marissa, quando no final de um telefonema longo, um homem se mostrou feliz e agradecido por ter uma linha na qual podia confessar os crimes. “Tenho-me sentido culpado, não vou dizer o que fiz, mas sinto-me mal e nem o tenho feito ultimamente. Mas a oportunidade que me dão de pedir desculpa às pessoas, é fantástico”, explica numa longa chamada de sete minutos.

“Assim já não me sinto culpado e posso voltar a fazê-lo. Depois basta pedir desculpa e fica tudo bem, não há culpa, não há problemas, nem tenho que me preocupar com a polícia. És um tipo fantástico”, notou, antes de revelar a Allan que pedia desde já desculpa, mas que o iria matar.

O sucesso do projeto trouxe a Allan inúmeros problemas. “As chamadas tornaram-se cada vez mais sombrias”, revela Marissa. “Creio que ele achava que a coisa não duraria mais do que um ou dois anos, mas sentiu a certa altura que quem ligava precisava dele, que aquilo era um serviço público.”

Marissa e Allan Bridge.

Segundo a ex-mulher, Allan nunca conseguiu afastar-se da Apology Line e isso teve um preço a pagar, sobretudo psicológico. Isto apesar de, entre milhares de chamadas, se suspeitar de que muitas seriam relatos falsos ou apenas chamadas de pessoas que queriam dar nas vistas.

Não se sabe se Bernie, o homem que deixou a ameaça, foi um desses casos, embora o relato tenha tido grande parte da culpa no deteriorar da mente de Allan Bridge.

“Vou descobrir quem és, onde moras, e quando menos esperares, neste novo ano de 1981, quando tudo estiver calmo, a tua morte vai chegar. E hei de te dizer: Bernie, chamada telefónica. E então vais saber que cumpri o que prometi: a tua morte.”

Allan nunca abandonou o projeto. Manteve-se ativo até à sua morte em 1995, não às mãos de Bernie, mas num acidente. Tinha 50 anos quando, durante um mergulho na costa de Long Island, foi atropelado por um jet-ski. Mais de duas décadas depois, Marissa Bridge compilou dezenas de chamadas e decidiu contar a história da Apology Line. O podcast está disponível no Wondery

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