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A história do gigante de Manjacaze. Este português foi o homem mais alto do mundo

É uma das personalidades destacadas no novo livro “Grandes Figuras Excêntricas da História de Portugal”.
Gabriel Monjane tinha 2,45 metros.

Chama-se “Grandes Figuras Excêntricas da História de Portugal” e é um novo livro, publicado neste mês de agosto pela Contraponto, escrito pela historiadora e jornalista Fátima Mariano. Ao longo de 192 páginas, a autora conta as histórias de personalidades insólitas de Portugal. O trabalho está à venda por 16,60€.

Uma delas, a mais recente, é a do homem que ficou conhecido como o gigante de Manjacaze. Chamava-se Gabriel Estêvão Monjane e nasceu em 1944 em Manjacaze, na província de Gaza, em Moçambique — quando o país africano era uma colónia portuguesa.

O seu corpo desenvolveu-se normalmente até aos 10 anos. Depois, começou a crescer rapidamente. Com 12 anos, já media 1m90. Durante a adolescência, caiu de um primeiro andar, incidente que lhe terá provocado o distúrbio endócrino que levou ao seu gigantismo.

Com 16 anos, já media chegou aos 2m31 e pesava 125 quilos. Aos 26, altura em que o seu crescimento parou, tinha 2m45 e pesava 158 quilos. Apesar da grande altura, a sua vida foi bastante comum até fazer 19 anos, em 1963. Nesse ano, o jornal moçambicano “Notícias” fez uma reportagem sobre Gabriel Monjane, que o transformou numa espécie de celebridade.

Em 1966, por ordem dos Serviços de Saúde de Moçambique, foi internado no Hospital Miguel Bombarda, em Lourenço Marques (agora Maputo). Tinha 21 anos e os médicos queriam analisar o seu desenvolvimento físico e pessoal. Já sofria de algum mal-estar graças à sua condição: sofria de fadiga e tinha os pés gretados.

A sua presença na enfermaria provocou uma enorme curiosidade, o que levou a que as visitas fossem limitadas. Segundo o livro de Fátima Mariano, foi construída de propósito uma cama adaptada à sua dimensão. E, na hora da refeição, tinha direito a dose dupla — normalmente serviam bifes panados e arroz. 

Aos poucos começou a atrair atenções de todo o país. Foi contratado para fazer três campanhas publicitárias em Lourenço Marques (uma delas para a marca de carros Toyota) e deixou o emprego que tinha numa fábrica de descasque de caju. Também nesse ano de 1966, foi contratado pelo empresário britânico Richard Chipperfield, proprietário do célebre circo homónimo. A sua vida mudaria de um dia para o outro. Passou a ser exibido por todo o mundo em exposições muitas vezes conhecidas como freak shows. Recebia um salário — cuja maior parte enviava para os pais em Moçambique — e as suas despesas eram pagas.

Morreu em 1990.

A vida de Gabriel Monjane no circo prolongou-se durante duas décadas. No início, esteve um ano inteiro em digressão nos Estados Unidos. Depois, passou pela Alemanha, Inglaterra, Espanha ou França, entre outros países. Só chegou a Lisboa em 1969. Viajou, como sempre, num lugar especial junto da porta do avião, para ter mais espaço. 

Quando desembarcou no aeroporto da Portela, foi recebido com espanto e admiração pelos portugueses e turistas que se encontravam no local. Monjane, claro, já estava habituado aos olhares. Ao longo dos anos, vários jornalistas descreveram-no como tendo uma aura depressiva, de frustração e solidão, embora fosse exibido de forma voluntária. Muitos acusaram os empresários com quem trabalhou, contudo, de o explorarem para ganharem dinheiro às suas custas.

Em Lisboa, foi exibido ao lado de Lúcio Pedro, conhecido como o anão do Coliseu, que só media 1m20. Apareceram juntos no Teatro Arco-Íris, na Feira Popular. Muitas vezes, as alturas de ambos eram intencionalmente exageradas pelos promotores para atraírem mais curiosidade e conseguirem vender mais bilhetes. Vários portugueses quiseram ver de perto o homem que ficou conhecido como o gigante de Manjacaze.

Nas cerimónias fúnebres de Salazar

A dupla acabou por fazer sucesso e foi exibida várias vezes em Portugal e no estrangeiro. Compareceram juntos, aliás, nas cerimónias fúnebres do ditador António de Oliveira Salazar, em 1970. Há inclusive uma fotografia de ambos no interior do Mosteiro dos Jerónimos.

Ao longo dos anos, a saúde de Gabriel Monjane foi-se deteriorando. Antes dos 30 anos já sofria de dores nas ancas, joelhos ou tornozelos. Tinha uma úlcera crónica no pé direito e já não tinha potência sexual. Foi submetido a diversas intervenções cirúrgicas durante a sua vida. A certo ponto teve de começar a usar uma bengala para caminhar. Morreu em janeiro de 1990, com apenas 45 anos, após uma queda aparatosa no pátio de cimento da sua casa, em Manjacaze, que lhe provocou um traumatismo craniano. Perdeu a vida enquanto era transportado para o hospital.

Dois anos antes, fora analisado pela equipa do “Guinness Book of World Records” e considerado o homem mais alto do mundo. Apesar de haver cartazes promocionais que diziam que tinha mais de 2m60, na verdade media menos 15 centímetros. Muitos lisboetas ainda se recordam de o verem nas exibições — ou nas ruas da cidade — durante os anos 70 e 80. 

Esta história é contada em detalhe em “Grandes Figuras Excêntricas da História de Portugal”. Mas não é a única. Fátima Mariano também relata como foram as vidas dos portugueses que ficaram conhecidos como o “monstro de Albardo”, “tripeça humana”, “comilão de Almada”, “Luciano das ratas”, “rei do lixo”, “homem-macaco de Aveloso” ou “o gigante de Farelos”, entre outros.

Tem 192 páginas.

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