Durante 14 anos, os dias de Sara Oliveira foram passados entre design, tecnologia e ecrãs. Nos últimos oito, trabalhou com Machine Learning e Inteligência Artificial (IA), chegando a ser responsável pelo departamento de Design e Produto de uma plataforma de dados para IA. Até que um burnout a levou a questionar o caminho que estava a seguir. A resposta apareceu onde menos esperava: num pedaço de barro e em peças de cerâmica.
No Natal de 2021, recebeu do marido, João Pedro Leandro, um voucher para fazer aulas no atelier Pardal Cerâmica, em Setúbal. Lá, com a ceramista setubalense Rita Pardal, começou uma relação com o barro que acabaria por transformar a sua vida.
Apesar de ter nascido em Lisboa, Sara vive em Setúbal desde os 12 anos. Passou breves períodos na capital e em Seattle, nos Estados Unidos, mas acabou sempre por regressar àquela que considera a sua “cidade de coração”. Em 2023, depois do burnout e de uma “reflexão profunda” sobre o que queria fazer da vida, deixou o mundo tecnológico para se dedicar à cerâmica e à aromaterapia natural. A mudança, porém, tinha começado antes e quase por acaso.
Aos 37 anos, Sara ainda guarda a primeira peça que fez: um prato rústico, em tons de azul-cobalto, produzido através da técnica da lastra. E admite que não começou a experiência com grande entusiasmo. Queria experimentar imediatamente a roda de oleiro, mas Rita insistiu que primeiro precisava de passar pela modelação manual, para aprender a sentir e perceber a argila.
“Hoje sei que tinha toda a razão”, recorda. Foi quando finalmente chegou à roda que tudo mudou. “Durante algum tempo foi o meu escape e a minha terapia ocupacional, mas percebi que era ali, longe do ecrã, que conseguia criar e expressar-me.”
No ano seguinte, decidiu arriscar e transformar a descoberta numa profissão. Ainda assim, garante que a designer não desapareceu com a mudança de carreira. O olhar que desenvolveu durante anos continua presente na forma como pensa e cria cada peça.

Um atelier com várias vidas
A Yod Studio nasceu em 2023, inicialmente a partir de uma ideia ligada à sustentabilidade. Sara queria criar uma vela natural, feita com essências e óleos, dentro de um copo de cerâmica que, depois de a vela ser consumida, pudesse ser reutilizado para beber café, chá ou outra bebida. Foi com esse produto que lançou o atelier. As velas continuam presentes, mas o barro acabou por conquistar praticamente todo o espaço. “A cerâmica tomou conta do meu dia a dia”, conta.
Até o nome escolhido traduz a filosofia que Sara queria levar para o projeto. Yod é a letra mais pequena do alfabeto hebraico e, segundo explica, está ligada à palavra hebraica para mão. “Começar pequeno, a partir de um gesto, e construir tudo com as mãos, uma peça de cada vez: é isso que simboliza a Yod Studio e o meu trabalho.”
Hoje, o atelier da Praceta Jorge Afonso tem “várias vidas ao mesmo tempo”. É ali que Sara desenvolve o próprio trabalho, mas também dá aulas individuais e em grupo, bem como workshops de modelação manual, roda de oleiro e introdução à vidragem.
O espaço foi ainda pensado como uma espécie de pequeno hub artístico. Ceramistas que não tenham forno próprio podem recorrer ao serviço de queima de peças e outros artistas podem alugar o local para dar workshops. Existe ainda a possibilidade de funcionar como cowork, disponibilizando bancada, ferramentas e forno a quem precisar. Entre aulas regulares e workshops, passam pelo espaço cerca de 15 a 30 alunos por mês. São sobretudo da região de Setúbal, de várias idades e maioritariamente mulheres, embora Sara também já tenha dado aulas a miúdos.
Há ainda quem faça o percurso inverso ao mais habitual. “Fico sempre surpreendida quando aparecem alunos de Lisboa, que fazem a viagem ao contrário só para vir às aulas”, relata. Uma aula individual de modelação manual, com duas horas e materiais incluídos, custa 40€. Em grupos privados de seis ou mais participantes, o valor baixa para 35€ por pessoa. As sessões de pintura em cerâmica começam nos 10€ e não é necessária qualquer experiência. “Adapto sempre a aula a quem está à minha frente”, destaca Sara.
Já não é preciso atravessar a ponte para comprar peças de cerâmica
A partir deste sábado, 26 de setembro, o atelier ganha mais uma vida. A Yod Studio passa a acolher a quarta loja da Ceramista Shop, depois de Lisboa, Oeiras e Porto. Será a única a sul do Tejo e, segundo Sara, a primeira loja dedicada a materiais de cerâmica na região de Setúbal.
A ideia nasceu de uma necessidade que a própria ceramista conhecia bem. Os alunos perguntavam-lhe onde poderiam comprar materiais ou pediam-lhe que dispensasse alguns dos seus. Ao mesmo tempo, Sara e outras ceramistas da região deslocavam-se até Lisboa sempre que precisavam de abastecer os ateliers.
“Para quem trabalha com cerâmica por aqui, significa deixar de atravessar a ponte para comprar um saco de barro, com os custos e a logística que isso implica. Significa poder ver ao vivo os materiais, as amostras de vidrados e as novidades, ou escolher online e levantar as encomendas sem portes. E, para quem não tem carro, mais acessibilidade e liberdade. A nível pessoal, representa a possibilidade de promover a cerâmica na minha cidade e na minha região”, analisa.
A proposta inicial partiu de Sara, mas ganhou dimensão quando Cátia e Frederic, da Ceramista Shop, acreditaram no projeto e sugeriram um modelo mais abrangente. A loja terá pastas e barbotinas de faiança, grés e porcelana de marcas como Sio-2, Vicente Díez e Sibelco, além de vidrados Amaco, Botz e Prodesco. Pincéis, rins, teques, carimbos, lixas e cones pirométricos também fazem parte da seleção inicial. Os restantes produtos do catálogo poderão ser encomendados para levantamento no espaço.
Quem estiver a começar também encontrará opções. Segundo Sara, um conjunto básico com um saco de pasta de baixa temperatura e um ou dois vidrados pode rondar os 20€. Depois, as peças precisam de ser cozidas num forno próprio para ganharem durabilidade — serviço que também está disponível no atelier, mediante pagamento.
A nova loja, no entanto, não será apenas um conjunto de prateleiras. Como funciona dentro de um atelier em atividade, os visitantes poderão encontrar alunos a trabalhar e peças em diferentes fases de produção. Haverá ainda amostras de pastas cozidas a diferentes temperaturas e placas onde os vidrados podem ser vistos e tocados antes da compra.
É um detalhe importante num ofício em que o que aparece num ecrã nem sempre corresponde ao resultado final. “O mesmo vidrado muda de cor e de textura consoante o barro e a temperatura, e num ecrã essas nuances não se veem tão bem”, destaca Sara. Além de poder tocar e comparar os materiais, quem passar pelo espaço terá aconselhamento de quem os utiliza diariamente. “O atelier é o que eu sou e a loja nasce dele”, partilha.
“O barro tem o seu tempo”
Sara acredita que o crescimento da cerâmica na região não acontece por acaso. Tem visto antigos alunos começarem a trabalhar em casa, alguns já com forno próprio, enquanto outros continuam a recorrer à Yod Studio para fazer as queimas. Também aponta para o aparecimento de novos ceramistas e ateliers.
Quando tenta explicar o que leva tanta gente ao barro, acaba por regressar à própria história. “Acho que é o mesmo que me trouxe a mim: a vontade de fazer alguma coisa com as mãos, longe do ecrã. A cerâmica obriga a abrandar — o barro tem o seu tempo e não se deixa apressar —, e esse exercício faz bem e é o que as pessoas têm procurado.”
Muitos chegam simplesmente à procura de desligar e acabam por levar para casa uma caneca ou uma taça que fizeram com as próprias mãos. A roda de oleiro continua a ser a experiência que quase toda a gente quer experimentar primeiro — exatamente como aconteceu com Sara.
A inauguração da nova loja acontece este sábado, a partir das 10h30, com entrada livre. Além de conhecerem o atelier, verem as amostras e fazerem as primeiras compras, os visitantes terão bebidas e petiscos. Mais para o final da manhã, haverá um pequeno momento de jazz com um grupo de alunos da Capricho Setubalense. Às 12h30 será feito o brinde oficial e anunciada a primeira iniciativa da nova loja: a Experiência Amaco, marcada para a tarde de 17 de outubro.
As primeiras dez pessoas a fazerem compras na loja física recebem ainda um kit de boas-vindas. Inclui amostras de pastas e barbotina, um carimbo e um cortador para cerâmica da Pixels to Clay, um vale de 20 por cento de desconto na primeira fornada completa e 15 por cento de desconto no primeiro carimbo personalizado Custom Maker’s Mark da Pixels to Clay. Não existe valor mínimo de compra e os kits são limitados a um por pessoa.
A Pixels to Clay é, aliás, outro projeto que mostra que Sara não deixou totalmente os conhecimentos adquiridos na vida anterior. Trata-se de uma marca que está a criar carimbos, cortadores e ferramentas para cerâmica produzidos através de impressão 3D.
A ideia nasceu quando começou a modelar e imprimir ferramentas para utilizar no próprio trabalho e nas aulas. “É onde o design e o barro se encontram de forma mais evidente no meu trabalho”, diz. E há uma coincidência especial neste novo capítulo: a Ceramista Shop que agora chega ao seu atelier foi o local onde Sara comprou os primeiros materiais, o forno e a roda quando começou. “É um bocadinho surreal. Confesso que ter uma loja de materiais não estava nos planos iniciais, mas sinto mesmo que fazia falta nesta região.” No final, a designer nunca desapareceu. Apenas encontrou no barro uma forma diferente de continuar a criar.
Carregue na galeria para conhecer o novo espaço do Yod Studio.








