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Tem 22 anos, estuda farmácia e criou em Setúbal uma marca de moda com propósito

Rita Remédio lançou a Plati em novembro, com peças desenhadas à mão, crochet em memória da avó e uma parte das vendas para ações solidárias.

Tudo começou com um presente de aniversário. Rita Remédio tinha de oferecer algo ao pai de uma amiga. Como não sabia o que escolher, decidiu desenhar uma peça personalizada, estampá-la numa T-shirt e ver o que acontecia.

O pai da amiga adorou a ideia e ela apaixonou-se pelo processo. E aquilo que poderia ter ficado como uma brincadeira, acabou por se transformar na Plati, uma marca de moda sustentável, desenhada à mão, produzida em Portugal e com uma componente solidária em cada peça vendida.

Rita tem 22 anos, é nascida e criada em Setúbal, está a terminar a licenciatura em Ciências Farmacêuticas. Neste projeto, faz tudo sozinha: desenha, cria, comunica, fotografa e ainda arranja tempo para fazer crochê com as técnicas que a avó lhe tentou ensinar em criança.

A Plati tem menos de um ano, mas já carrega uma história de família, uma filosofia de consumo e uma vontade genuína de fazer as coisas de forma diferente.

“Isto é uma extensão de mim”, explica Rita. “É muito importante para mim que a minha marca tenha os valores em que eu acredito.”

Esses valores começam no traço dos desenhos que faz à mão, todos ligados à natureza, ao mar e à Serra da Arrábida, e estendem-se até à escolha dos materiais, à forma como produz cada peça e ao destino de parte do dinheiro que entra.

A arte como escape e a natureza como inspiração

Rita sempre viveu entre dois mundos. De um lado, as ciências, que se desdobram na escolha do curso de farmácia. Do outro, a arte, que começou em criança com a formação musical em piano, os desenhos e as tardes que passava com a mãe, sentadas lado a lado num cavalete, a pintar juntas. “A arte sempre me trouxe conforto. Quando tenho a cabeça mais cheia, é uma coisa que me traz calma. É um escape”.

Foi esse escape que, naturalmente, se transformou num projeto. Depois da T-shirt que ofereceu ao pai da amiga, Rita começou a desenvolver designs ligados àquilo que mais a inspira, desde o mar e a costa setubalense, até à Serra da Arrábida, com as suas as flores e outros elementos naturais.

“Sou muito ligada ao mar. Gosto muito de me sentar e ouvir o mar e queria trazer essas sensações para a minha arte”, conta. Cada desenho é pensado e criado à mão, um a um, com a intenção de que quem veste uma peça Plati esteja a usar algo único, pessoal e com significado.

O próprio nome nasceu de um processo criativo íntimo. Rita adora fazer journaling. O caderno onde regista tudo é prateado e, para ela, é o reflexo da pessoa que é. Quis um nome que remetesse para essa ideia de reflexo. Por isso mesmo, Plati, ligado à platina, encaixou perfeitamente.

“Eu queria ser o reflexo da pessoa que comprasse e que gostasse daquilo que eu estava a fazer”. No logotipo, uma sardinha faz ainda referência a Setúbal, e a assinatura “stand out” carrega a mensagem central que Rita quer que as peças transmitam: a ideia de cada pessoa se destacar, ser diferente e não vestir o que toda a gente veste.

A memória da avó, o crochet e a slow fashion

Se as T-shirts são o coração da Plati, o crochet é a alma. Rita aprendeu esta arte em pequena, com a avó materna, Maria Augusta, que se sentava com ela e tentava ensinar-lhe a agulha. “Ela não gostava da forma como eu pegava na agulha. Eu desistia muito facilmente porque era criança e não queria saber do crochet”.

No entanto, esta memória serviu-lhe também de motor para a sua marca. A jovem setubalense perdeu a sua avó há quatro anos e, depois da perda, quis homenageá-la. A primeira coleção de T-shirts chama-se Memória (com a primeira letra, o “M” de Maria e a última com o “A” de Augusta) e foi lançada perto da data do aniversário da avó. A primeira coleção de crochet também evoca esta relação única entre avós e netos, com o nome “Vó”.

O crochet entrou na marca como extensão natural dessa homenagem e como forma de valorizar a tradição portuguesa. Na Plati, tudo é produzido em Portugal e segue uma lógica de slow fashion que Rita defende com convicção.

“Não estamos a falar de T-shirts produzidas em quantidades absurdas. São peças pensadas detalhadamente, uma a uma”, sublinha. As T-shirts são 100 por cento algodão orgânico e o crochet é feito por Rita e por algumas amigas, a quem paga devidamente pelo trabalho.

Esta abordagem mais cuidada e menos massificada acaba por se refletir nos preços. Rita sabe que há quem olhe para os valores e compare a Plati com marcas de fast fashion, mas recusa baixar a fasquia. “Sinto que os portugueses ainda têm um caminho muito grande a percorrer. As pessoas que mais me compram são estrangeiras, que dão bastante valor à sustentabilidade e às causas sociais e ambientais”, reconhece.

Ainda assim, o público-alvo continua a ser nacional. “É quem eu quero alcançar. Daí os materiais serem feitos em Portugal, de modo a valorizar cada vez mais o que fazemos cá”.

E conclui: “O meu produto não é para agradar a toda a gente. É para quem percebe o trabalho que eu ponho por detrás, a dedicação em cada peça, em cada criação”.

Comprar uma T-shirt e fazer o bem ao mesmo tempo

A vertente solidária da Plati não funciona com percentagens fixas, nem com parcerias institucionais rígidas. Funciona com ação direta. Após cheias que devastaram várias zonas do País, Rita pegou no dinheiro das vendas, comprou materiais e foi ajudar as famílias que precisavam.

“Eu vejo o que é preciso e faço a gestão conforme o dinheiro que tenho”, explica. “Nas minhas redes sociais faço questão de dizer a quem comprou neste mês, para que utilizei o vosso dinheiro e mostro como cada pessoa ajudou a concretizar isto”.

A ideia nasceu de uma frustração que Rita observava à sua volta: muitas pessoas querem ajudar, mas não sabem como. “Por vezes as pessoas não querem sair do conforto de casa e querem ajudar na mesma. Mas depois não querem dar dinheiro porque acham que estão a ser enganadas”, explica.

A Plati resolve esse dilema, uma vez que, ao comprar uma peça, o cliente está automaticamente a contribuir para uma ação solidária, sem esforço adicional. Rita traz ainda uma abordagem fora do comum, em que não se vincula a uma única causa, mas vai dando importância a várias, conforme as necessidades do momento.

Além das receitas das vendas da Plati, a fundadora da marca investe dinheiro próprio para complementar as ações. A longo prazo, Rita pretende organizar iniciativas solidárias em conjunto com outras marcas, reforçando a lógica de comunidade e entre ajuda que atravessa todo o projeto.

Há ainda outra camada de sustentabilidade que distingue a Plati: a “autossustentabilidade”. Quem compra uma peça pode, um ano depois, devolvê-la à marca e receber um vale de desconto para uma próxima compra. Rita reutiliza os materiais, minimiza o desperdício e fideliza os clientes num ciclo que faz sentido do ponto de vista ambiental e comercial. É uma solução que reflete a profundidade com que uma jovem de 22 anos pensa cada aspeto do seu negócio.

Amigos em vez de modelos e uma marca que é extensão de quem a criou

Quando chega a altura de fazer sessões fotográficas, Rita não chama modelos, liga para os amigos. Pessoas com trabalhos reais, rostos comuns, corpos normais.

“Eu quero que as pessoas, quando veem uma T-shirt vestida por alguém, vejam uma pessoa normal. Que não tenham aquela sensação de ‘é uma modelo e eu nunca vou ser assim’, que desmotiva qualquer um de comprar”, explica. “Quero mostrar que todos podem vestir as minhas coisas e sentirem-se bem consigo mesmos”.

Rita trabalha com fotógrafas em Lisboa para parte do conteúdo, mas, muitas vezes, é ela própria que fotografa e filma as produções, com a ajuda de amigas. “É tudo muito sobre entreajuda, diversão e comunidade, além do vender, claro”.

Não há equipa de marketing, não há agência, não há produção terceirizada. Há uma rapariga de 22 anos que desenha, cose, estampa, comunica, embala e entrega, tudo entre as aulas de farmácia e as noites em que a cabeça não para de criar.

A Plati foi lançada em novembro e, com menos de um ano de existência, Rita sabe que o caminho é longo e que a gestão de expectativas tem de ser um exercício diário. “Existem amigos que dizem que vão comprar e depois não compram. E está tudo bem com isso. É importante perceber que nem toda a gente vai entender a nossa ideia. O projeto não é para agradar a toda a gente, mas a quem realmente compreende o esforço”.

A marca tem, por agora, duas coleções lançadas: uma de T-sirts e outra de artigos em crochet. Há dois tipos de T-shirts disponíveis: as oversized (100 por cento algodão orgânico) e regular fit (100 por cento algodão). Os preços variam entre 42€ e 62€.
 
No que toca ao crochet, existem peças como lenços, com preços que vão dos 42€ aos 45€, scrunchies a 22,50€, cachecóis por 35€ e as redes/ toucas de crochet para o cabelo que custam 32€.

As peças podem ser compradas através do Instagram e do site da Plati, onde se encontra também toda a informação sobre as coleções, os materiais e a filosofia da marca.

Carregue na galeria para saber mais sobre a Plati.

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