Há dois quadros nas paredes da nova Barbearia Paulistana. Num deles mostra a Avenida Paulista, uma das imagens mais reconhecíveis de São Paulo, o outro destaca o Portinho da Arrábida. Não foram escolhidos só para decorar o espaço: contam, em duas imagens, a história de Renan Silva, de 38 anos, e Lucas Garcia, de 30, os barbeiros que trocaram o estado brasileiro de São Paulo por Setúbal e decidiram criar um projeto em conjunto.
A Paulistana abriu a 19 de setembro, uma data com um significado especial para Renan. Nesse mesmo dia, há cinco anos, chegava a Setúbal para começar uma nova vida. “A barbearia é a materialização de onde viemos e onde escolhemos viver”, explica à New in Setúbal.
A ideia começou a ganhar forma poucos meses antes. Renan já pensava em criar um pequeno estúdio onde pudesse trabalhar sozinho e apostar num atendimento mais exclusivo. Em abril, Lucas sugeriu que abrissem um espaço em conjunto, mas naquela altura o projeto ficou em espera.
Tudo mudou em julho, quando surgiu a oportunidade de arrendar um espaço comercial perto da casa de Renan. A localização tinha uma importância acrescida: o barbeiro tinha acabado de ser pai e queria continuar próximo da família durante os dias de trabalho. “Liguei ao Lucas e não tínhamos muito tempo para pensar. Ele aceitou a proposta e começámos a detalhar como seria a barbearia, o posicionamento e o público”, recorda Renan. Entre esse telefonema e a inauguração passaram dois meses.
De São Paulo para as tesouras
A experiência dos dois sócios começou muito antes da Paulistana. Renan fez o primeiro cabelo em 2015, quando iniciou uma formação de seis meses na região metropolitana de São Paulo. Até então, a sua vida profissional decorria num cenário completamente diferente.
Em abril de 2016, decidiu deixar para trás uma carreira de dez anos na área da contabilidade e dedicar-se à barbearia. Passou os cinco anos seguintes a trabalhar em São Paulo, primeiro numa barbearia de bairro e, mais tarde, em duas das maiores barbearias da cidade e do País. Foi uma oportunidade para conhecer diferentes conceitos e métodos de trabalho e, sobretudo, clientes com exigências muito distintas. Desde que fez a mudança profissional, garante, nunca mais deixou o ofício.
O percurso de Lucas também começou longe das cadeiras de barbeiro. Antes de descobrir a profissão, trabalhou como empregado de mesa, operador de telemarketing e vendedor, experiências que considera importantes na forma como hoje recebe quem se senta à sua frente. “O meu primeiro contacto com a barbearia aconteceu em 2017, mas foi em 2018 que decidi dedicar-me 100 por cento à profissão”, conta. Seguiram-se anos de estudo, prática e aperfeiçoamento das técnicas. “Foi um processo de muitos erros, evolução e, acima de tudo, persistência.”
Uma data que fechou um ciclo
Renan chegou a Setúbal a 19 de setembro de 2021 graças a Joana, que tinha conhecido na Internet durante a pandemia. Cinco anos depois, vivem juntos e são pais de Júlia, que nasceu recentemente. Lucas chegou à cidade no ano seguinte, em 2022, com a companheira, Ana. Entretanto, nasceu Maria Fernanda, filha do casal. Foi em Setúbal que ambos os barbeiros decidiram criar as suas famílias e construir uma nova etapa das suas vidas.
A escolha do nome da barbearia recupera o que têm em comum antes da mudança. Ambos nasceram no estado de São Paulo e quiseram transportar para o novo negócio alguns dos princípios que associam às barbearias paulistas: profissionalismo, organização, gestão e atenção ao cliente. “A proposta não é fazer do nosso espaço um pedaço de São Paulo em Setúbal, mas integrar e incentivar a troca de culturas”, salienta Renan.
Essa ideia também aparece na decoração. Renan prefere barbearias clássicas; Lucas identifica-se mais com espaços modernos e minimalistas. O resultado foi um compromisso entre os dois estilos, sem paredes sobrecarregadas de quadros e objetos, nem um ambiente demasiado branco e impessoal.
Aqui, as motas também entram
Há outro detalhe que não passa despercebido. Renan e Lucas são motociclistas e partilham a paixão pelas duas rodas. O próprio espaço acabou por permitir que esse gosto entrasse na barbearia de forma inesperada. A zona central do salão pode receber motas, que se transformam temporariamente em parte da decoração. Um cliente que apareça de mota pode colocá-la no interior, fotografá-la no espaço e guardar a imagem como recordação enquanto aproveita para cortar o cabelo.
A descontração, porém, não significa que os dois queiram perder o lado profissional do negócio. “A Paulistana é uma barbearia onde o cliente pode tornar-se amigo, mas jamais deixará de ser tratado como cliente”, afirma Renan.
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Para os sócios, isso significa manter a cortesia, o respeito e a organização mesmo quando já existe proximidade com quem regressa regularmente. “O profissionalismo está em saber separar as relações e tratar o cliente como se viesse pela primeira vez.”
Os cortes clássicos são uma das especialidades da casa, como o flattop, de topo reto, o executive contour, marcado pelo risco lateral, o volumoso pompadour e o slick back, com o cabelo penteado para trás. “Não são necessariamente os cortes da moda, mas são intemporais”, explica Renan.
“Trabalhamos com estética, mas não somos adeptos da moda. Sugerimos ao cliente o que fica bem para ele e pode ser algo fora de moda”, explicam. O corte custa 16€ e a barba clássica 13€. Quem optar pelos dois serviços paga 24€. Há ainda combinações, como corte e sobrancelha (19€), corte, barba e sobrancelha (26€), corte com hidratação (25€) e barba com hidratação (20€).
A lista inclui ainda hidratação de barba (10€), hidratação capilar (12€), pintura do cabelo de preto (15€), disfarce de fios grisalhos na barba (10€) e depilação nasal (7€). Todos os cortes incluem lavagem do cabelo sem custo adicional. Para tornar o processo mais confortável, os sócios investiram numa bancada que permite fazer a lavagem no mesmo lugar, sem obrigar o cliente a levantar-se da cadeira, deslocar-se até ao lavatório e regressar depois ao posto de trabalho.
Na barba, o ritual mantém a inspiração clássica: toalha quente, creme de barbear, navalhete, produtos para acalmar a pele e bálsamo para hidratar os fios. “Um corte de cabelo é também sobre pessoas. É sentir-se bem, sentir-se bem-vindo”, resume Renan. É nesse ponto que os sócios querem diferenciar a experiência: o cliente espera, à partida, um bom corte e o objetivo passa por acrescentar algo ao serviço que já contratou.
Café, energéticos e descontos para quem regressa
Todos os serviços incluem café ou água como cortesia. Nas marcações de valor superior a 19€, os clientes podem ainda escolher um refrigerante ou uma bebida energética, sem pagar mais por isso. A Paulistana criou ainda aquilo a que chama “Agenda Inteligente”. O conceito é simples: quem terminar um serviço e deixar logo marcada a próxima visita, recebe automaticamente um desconto que pode chegar aos 2€.
Para os clientes mais frequentes existem pacotes. Um deles permite, por exemplo, comprar quatro cortes e receber o quinto, o que corresponde a uma redução de 20 por cento no valor total dos serviços. Não existe prazo para os utilizar e os clientes podem oferecer um dos serviços incluídos no pacote a um amigo.
As marcações podem ser feitas através da aplicação Booksy ou pelo WhatsApp. Quem preferir aparecer sem reserva também pode fazê-lo, embora o atendimento fique dependente da disponibilidade no momento. A barbearia recebe homens e miúdos de todas as idades, incluindo clientes autistas e pessoas com necessidades especiais. No caso das mulheres, são realizados determinados estilos, sobretudo cortes semelhantes aos tradicionalmente associados ao público masculino.
Crescer sem perder o atendimento
Nas primeiras semanas de funcionamento, grande parte das cadeiras foi ocupada por clientes que já acompanhavam Renan e Lucas antes de terem um espaço próprio. Aos poucos, começaram a aparecer novos rostos, sobretudo moradores da zona. “Os primeiros 20 dias têm sido de muito trabalho. Além das tesouras e dos cabelos, temos tido muita coisa para resolver, implementar e agregar na barbearia”, contam.
Atualmente, a equipa é composta apenas pelos dois fundadores. Existe a possibilidade de acrescentarem mais um barbeiro no futuro, embora não pretendam ultrapassar os três profissionais. Para Renan e Lucas, aumentar demasiado a equipa poderia comprometer o ambiente e a qualidade do atendimento.
A expansão da marca também não é uma prioridade imediata. Querem antes consolidar a Paulistana, perceber o que conseguem fazer no espaço e continuar a evoluir enquanto profissionais. “Estamos a usufruir do momento. Primeiro queremos explorar ao máximo o espaço que estamos a construir, tirar o máximo do potencial da loja e continuar a evoluir como profissionais. Futuramente, podemos pensar em expandir a marca.”
A Barbearia Paulistana funciona de segunda a sexta-feira, das 9 às 13 horas e das 14 às 20 horas. Aos sábados, está aberta das 9 às 13 horas e das 14 às 17 horas.
Carregue na galeria para conhecer o novo espaço em Setúbal.








