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Eles preparam todos os jeans da Levi’s e da Zara — e ajudam a salvar o planeta

A pequena empresa espanhola criou um método inovador e sustentável para dar às calças o efeito de lavagem.
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O número é impressionante: todos os anos são produzidos, em média, cinco mil milhões de pares de jeans; e 35 por cento dessas peças passam pelas mãos dos espanhóis da Jeanología — ou melhor, pelas suas máquinas. Em 2018, depois de três anos de testes sigilosos, tornaram-se parceiros tecnológicos da Levi’s, o maior fabricante e distribuidor de jeans do mundo.

A Jeanología está presente em 61 países e trabalha não só com a Levi’s, mas com as marcas da gigante Inditex — que inclui a Zara, Massimo Dutti ou Bershka —, e ainda a Mango ou GAP. Mas, afinal, qual é o segredo da pequena empresa valenciana?

A preocupação com o meio-ambiente e com a sustentabilidade dos seus processos é uma das suas máximas. Sobretudo quando se resumem os números do impacto ambiental da produção destas peças: é que para dar a uns jeans o seu aspeto final — a nível de cor, de lavagem e acabamento —, podem ser gastos até 100 litros de água por peça. Total de água gasta em todo o processo de fabrico? Perto de 7.500 litros.

É aqui que entra a Jeanología. Não fazem jeans, mas são responsáveis pelas tecnologias de acabamentos que lhes dão os efeitos finais, como o efeito de lavagem. Toda a sua tecnologia esta desenhada para completar a etapa final das peças de forma simples, rápida, saudável e com o menor impacto possível..

“Já desde o início que estava no nosso ADN a ideia de transformar a indústria têxtil, torná-la mais sustentável, mais eficiente, mais ética. Vimos a quantidade de água e de químicos que se gastavam nos jeans e percebemos que não podíamos continuar assim: precisávamos de um caminho disruptivo”, explica Carmen Silla, diretora de marketing, ao “El País”. A empresa de consultoria criada por Enrique Silla e José Vidal, em 1994, transformou-se cinco anos depois numa empresa tecnológica. 

35% dos jeans de todo o mundo passam pelas suas máquinas.

Além do meio-ambiente, os métodos criados pela Jeanología ajudam a deixar para trás técnicas muitas vezes perigosas para os próprios trabalhadores. É o caso do sandblasting — que muitas organizações dizem provocar doenças incuráveis em quem a usa, como fibrose ou enfisema pulmonar — ou mesmo do esfregar à mão ate obter o acabamento desejado, que tende a provocar tendinites.

Criada a tecnologia e montadas as máquinas, elas são enviadas para as fábricas, quase todas na Índia, México, Bangladesh ou Marrocos. São “uma espécie de intermediários entre marcas e fabricantes”.

A tecnologia inovadora

Logo em 1999, a empresa criou a primeira máquina a laser para criar os efeitos de desgaste no tecido. A tecnologia permitia evitar o contacto de trabalhadores com químicos nocivos.

Desde então, outros métodos foram surgindo, como o uso do ozono altamente oxidante e que ajuda a poupar litros e litros de água. Criaram também outras técnicas como a eflow, que usa nanoborbulhas para trabalhar o tecido — ou o sistema H2Zero, que ajuda a descontaminar água para ser reutilizada e, dessa forma, diminuir o gasto em todos os processos.

Todas estas tecnologias usadas em conjunto permitem, segundo a empresa, reduzir um gasto de 100 litros e meros cinco litros por peça.

“É muito interessante porque juntamos pessoas de aptidões técnicas como engenheiros de robótica, com outros peritos do mundo da moda”, revela a diretora de marketing. Talvez por isso tenham conseguido garantir o estatuto de parceiro tecnológico da Levi’s.

As tecnologias promovem a sustentabilidade.

“Não existe inovação sem implementação”, atira o CEO Enrique Silla, em declarações à “Business Insider”. O gestor da empresa frisa que é preciso “mudar mentalidades” e que esta transformação digital é a grande oportunidade para “combater os grandes problemas do meio-ambiente sem sacrificar o produto”.

Também por isso apostaram, em 2018, em criar a primeira fábrica têxtil que não usa água — precisamente no centro do deserto do Nevada, nos Estados Unidos. “Para nós foi um acontecimento planetário.”

Além de evitar químicos, contaminação e uso excessivo de água, e proteger os trabalhadores, o método Jeanología ajuda a poupar tempo (e dinheiro). A marcação a laser é agora feita em segundos e isso permite encurtar o tempo de produção.

Estima-se que um par de jeans possa demorar seis meses a saltar do plano de design até às estantes da lojas. A ambição da Jeanología é transformar todo o processo e reduzi-lo a apenas três dias. A meta e o grande objetivo está à vista: “Isso significa que as marcas podem eliminar o seu stock e fabricar o que vendem, ao invés do que fazem agora, que é vender o que fabricam.”

De acordo com números divulgados pela marca, o sistema de lavagem de ozono e nanoborbulhas terá evitado, em 2017, a contaminação de oito milhões de metros cúbicos de água.

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