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A loja de motos gerida por duas mulheres que quer acabar com os preconceitos de género

O negócio celebrou o seu 10.º aniversário em novembro. A New in Setúbal foi conhecer a história de Carolina e Rita.
Carolina e Rita.

As motas sempre estiveram presentes na vida de Carolina Fernandes. Recorda-se de ver os pais saírem em viagens longas pela Europa e pelo norte de África e de desejar ter idade para fazer o mesmo. “Adorava ouvir as histórias sobre as viagens de mota a atravessar Angola e sobre o sentimento de liberdade associado. Tirei a carta aos 18 anos e na altura, pelo menos em meios mais pequenos, não havia muitas mulheres a fazê-lo. Lembro-me que no centro de exames de condução pensavam que tinha sido um erro porque estava marcado um exame para uma rapariga de 18 anos”, começa por contar à New in Setúbal.

Na verdade não havia erro nenhum, mas também não era a primeira vez que Carolina, 44 anos, natural de Tomar, mas a viver em Setúbal, sentia que o “mundo das motas era masculino”. Quando era pequena, lembra-se de ver alguns clientes a chamarem o “senhor” e a descartar o atendimento da mãe que também trabalhava na loja de motas que o pai tinha, apenas porque supostamente “uma senhora” não iria saber nada sobre motas.

Em 1997, entrou para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Línguas e Literaturas Modernas. Começou a dar aulas de inglês enquanto frequentava a faculdade, numa escola de línguas. Fez a pós-graduação em Literatura Inglesa e, em 2002, em conversa com um primo piloto, surgiu a ideia de se candidatar ao curso de tripulantes de cabine na companhia aérea Air Luxor. “Falo quatro línguas e por isso não tive dificuldade em entrar. Depois dos meses de curso, seguiram-se quatro anos de muitas viagens. Costumo dizer que dei a volta ao mundo várias vezes. Estive em todos os continentes e não seria a pessoa que sou sem essa experiência. Por muito que este estilo de vida me fascinasse, queria voltar às salas de aula e estar mais tempo com a família”, confessa.

Em 2007, foi mãe, e um ano depois fui dar aulas para o St. Peter’s School, em Palmela. Vivia em Lisboa na altura, mas já tinha muita vontade de se mudar para esta região, que conhecia bem porque a sua família paterna era de cá. Era também daqui que vinha a tradição motard da família. As primeiras motas “a sério”, com cilindradas maiores nesta zona, pertenciam ao seu bisavô paterno, Amadeu Costa, empresário muito conhecido em Palmela nas décadas de 30, 40 e 50. Em 2013, já estava instalada em Setúbal, quando o seu pai lançou o desafio de abrir a Cybermoto, uma filial do seu negócio em Tomar, a Micromotor. “Aliás, quando chegou de Angola, em 1975, onde nasceu e onde fez a sua formação inicial de mecânica, ele montou a sua primeira oficina de motorizadas aqui em Setúbal”, revela Carolina.

“Stand, oficina, armazém de peças, concessionário oficial de várias marcas como a Suzuki e a Yamaha. Foi nesta casa que cresci, juntamente com a minha irmã, a jogar às escondidas dentro de pilhas de pneus, a brincar com rolamentos, a fazer casas de bonecas entre as caixas de material e, mesmo sem saber, a absorver a essência do negócio e a paixão pelo mundo das duas rodas. Por isso, quando o meu pai me lançou o desafio, aceitei-o sem receio. Afinal, estava em casa. Em 2020 o meu pai reformou-se e decidi que queria continuar a empresa e o meu legado familiar”, acrescenta a empreendedora.

Um ano e meio depois de abrir portas, conheceu a sua parceira de negócio, a setubalense Rita Camoesas, 29 anos. “Na altura, tinha 19 anos e era cliente da casa desde o início. Tinha uma DT 50 e sabia bastante de motores a dois tempos. É apaixonada por motas. Também no caso dela, influenciada pelo pai que teve várias motos e que lhe ofereceu a sua primeira moto 4 aos três anos e mais tarde a sua primeira scooter. Um dia, veio às compras e antes de ir embora, perguntou-me se eu estava à procura de alguém para a equipa. Gostei logo da ideia e uma semana depois já estava comigo. Tinha terminado o curso profissional de design uns anos antes e tinha experiência no atendimento ao público”, elucida.

No caso de Rita, uma das lembranças mais antigas que tem e que guarda com carinho é a da sua Honda CBR 600 F4 do pai. “Tinha cinco anos e o pai levava-a em cima do depósito da moto para dar uns passeios pelo bairro. Sem dúvida que o fascínio começou aí. Acompanhava as competições na televisão e vibrava com motores”. Rita dedicou-se ao projeto e, com o passar do tempo, começou a ter importância para as duas mulheres. “Para mim, é um orgulho continuar o projeto de vida do meu pai. Foi ele o meu exemplo de ética e retidão nos negócios, espírito empreendedor e de resiliência. Afinal, quando chegaram a Portugal, vindos da sua terra natal em Angola, os meus pais traziam pouco mais do que a roupa que tinham vestida. Levar o projeto para Setúbal, onde tudo começou com apenas uma pequena oficina tem ainda um gosto mais especial e sentimental”, confessa.

Dez anos a mudar mentalidades

O que move as duas mulheres é mesmo a paixão pelas motos. Gostam do que fazem e isso “faz toda a diferença”. “É uma aprendizagem diária. Ambas fizemos formações em mecânica de motociclos ao longo destes anos, mas todos os dias estudamos produtos novos porque saem diariamente novos modelos de motos para o mercado. Aprofundámos muito os nossos conhecimentos técnicos e a nível comercial, adaptámos o modelo de negócio aos nossos dias e à era digital”, explica Carolina.

A Cybermoto celebrou, no mês de novembro, uma década de existência e o conceito é simples: “Ser um espaço de referência no mundo das duas rodas”. Pretendem ainda “oferecer aos clientes a maior variedade de artigos multimarcas e aos melhores preços. Uma vez que somos também um espaço físico e não apenas uma loja online. Desenvolvemos este conceito de espaço de partilha. Partilhamos histórias e experiências com os nossos clientes e orgulhamo-nos de ter feito muitos amigos ao longo dos anos”. Houve até uma cliente que fez uma viagem até ao Cabo Norte na Noruega e ligou de lá para partilhar o momento e agradecer os conselhos.

O marco de dez anos é “uma vitória incrível”, até porque existem cada vez menos lojas físicas. Além disso, mudaram mentalidades. “Foi uma luta maior por sermos mulheres, não tenho dúvida disso. No início foi difícil. Entravam na loja e procuravam um homem para os atender. Lembro-me que chegaram a tirar-nos os catálogos de peças das mãos e de duvidarem de tudo. Faziam telefonemas a amigos e mecânicos para confirmar o que estávamos a dizer ou a sugerir, à nossa frente, ao balcão. Tudo isso mudou bastante ao longo dos anos. Os clientes perceberam que sabemos o que fazemos e que somos profissionais”. Uma vez, a mulher de um cliente deu os parabéns por saberem estar à frente de um “negócio tão musculado” nas palavras dela.

“Sinto um orgulho enorme pelo nosso sucesso porque sabemos que deu mais trabalho por sermos mulheres. Quando escolhi outra mulher para trabalhar comigo neste projeto sabia que ia ser um desafio. Este desafio foi superado com distinção”, assume Carolina. Na loja, vendem peças e acessórios para as principais marcas de motos no mercado. Há serviço de retificação de cilindros e reparação de cambotas. Os preços variam consoante a marca, o modelo e o material. No final, o pai, Carlos Fernandes, está orgulhoso do sucesso do negócio, e da determinação da filha.

“A um pai da minha geração que tem duas filhas meninas e nenhum rapaz, nunca lhe passa pela cabeça que a empresa que criou, ligada às motos, possa ter continuidade no seio familiar, com hipotética gerência feminina. Hoje, fico muitas vezes a pensar qual a razão de não me passar pela cabeça essa hipótese e o quão errado estava por julgar isso uma impossibilidade. Orgulhosamente digo, que por iniciativa da minha filha Carolina, em ter sugerido dar continuidade à empresa, foi uma das melhores decisões ao longo da minha vida. A gerência da minha filha ultrapassou largamente as minhas expectativas. Estou feliz e muitíssimo orgulhoso”, remata Carlos, pai de Carolina.

Siga o Instagram e Facebook do negócio. Recorde também que Setúbal recebe, todos os anos, um dos maiores eventos motards da Península Ibérica. Percorra agora galeria para conhecer o espaço da Cybermoto. 

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, N.º 62
    2900-328 Setúbal
  • HORÁRIO
  • Segunda-feira a sábado, das 9h às 13h
  • Segunda a sexta-feira, das 15h às 19h

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