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Arrábida Flea Market regressa este fim de semana com a maior edição de sempre

O mercado de segunda mão vai juntar 40 vendedores, 14 marcas e projetos, comida, flash tattoos e até sessões fotográficas para animais.

Tudo começou com roupas acumuladas no armário e duas amigas à procura de uma forma de vender as peças. Quatro anos depois, o Arrábida Flea Market recebe dezenas de candidaturas, reúne pequenos negócios e criadores e já tem uma comunidade que pergunta quando será a próxima edição.

O mercado regressa este sábado e domingo, 26 e 27 de setembro, para a nona edição, a maior realizada até agora. Desta vez, estreia-se no CACI Sado, em Setúbal, numa parceria com a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Setúbal (APPACDM).

Por lá vão passar 40 vendedores de roupa em segunda mão, distribuídos pelos dois dias, além de 14 marcas e projetos. A oferta inclui crochet, bijuteria, acessórios, produtos e sessões fotográficas para animais, flash tattoos, matcha, doces e outras propostas de comida e bebida. Pela primeira vez, haverá também uma food truck.

À frente do projeto estão Mariana Sousa, de 27 anos, que trabalha em Marketing e Comunicação, e Inês Faria, de 28, ligada ao Marketing Digital e à publicidade online. Ambas nasceram e cresceram em Setúbal e foi precisamente por sentirem falta deste tipo de iniciativa na cidade que decidiram criar o evento.

“Sentíamos falta de determinadas iniciativas na cidade e, em vez de irmos procurá-las a Lisboa, tentámos criar cá o que gostávamos de encontrar”, contam à New in Setúbal.

De uma venda de garagem a dezenas de candidaturas

Em 2022, o objetivo era bem mais simples. Mariana e Inês tinham roupas que já não usavam e queriam vendê-las. Nessa altura, explicam as fundadoras, a Vinted — plataforma online dedicada à compra e venda de artigos usados — ainda não tinha a dimensão atual. Em Setúbal, eram também poucas as opções para dar uma nova vida às peças que já não usavam ou encontrar roupa a preços mais acessíveis.

A primeira solução que lhes ocorreu foi organizar uma venda de garagem. Rapidamente perceberam, porém, que não se sentiam confortáveis com a ideia de receber desconhecidos num espaço privado. Foi então que surgiu outra hipótese: por que não criar um mercado e convidar outras pessoas que também tivessem roupa para vender?

Contactaram a Câmara Municipal de Setúbal e a primeira oportunidade surgiu através da Divisão da Juventude. A estreia aconteceu em 2022, no Skate Parque de Setúbal, integrada na Block Party, evento que encerrou a programação do m@rço.28, iniciativa municipal dedicada à juventude, com concertos, oficinas e atividades desportivas.

Na primeira edição, havia cerca de dez bancas por dia e alguns vendedores repetiam a participação nos dois dias. Atualmente, são 20 bancas de roupa em segunda mão em cada dia, com rotação total: os 20 vendedores de sábado dão lugar a outros 20 no domingo.

O crescimento obrigou a mudar a forma de escolher quem participa. Nas primeiras edições, bastava uma inscrição. Agora há um processo de candidatura e seleção. Esta é a terceira edição a funcionar desta forma e, para o evento deste fim de semana, chegaram 67 candidaturas para apenas 40 lugares.

Na seleção, a organização teve em conta o perfil dos candidatos na Vinted, quando existe, e fotografias das cinco melhores peças que pretendem levar para o mercado. O objetivo não é impor uma estética específica, mas evitar que todas as bancas tenham roupas semelhantes e criar diversidade de estilos, tamanhos e tipos de peças.

Mariana detalha: “Queremos que quem visita tenha realmente coisas diferentes para descobrir de banca para banca e que o mercado seja interessante para pessoas com estilos, idades e corpos diferentes.”

Roupa em segunda mão, marcas locais e uma vertente solidária

A roupa em segunda mão continua a ser a base do Arrábida Flea Market, mas a experiência de quem visita o evento foi-se tornando mais diversificada. Além de percorrer as bancas à procura de peças para dar uma segunda vida, o público encontra hoje diferentes propostas de artesanato, acessórios, gastronomia e outros projetos.

A aposta, explicam Mariana Sousa e Inês Faria, nasceu também da experiência de ambas enquanto visitantes de outros mercados. Gostavam não só da componente ligada ao consumo consciente, como da possibilidade de descobrir projetos que ainda não conheciam.

Nesta edição, os visitantes vão poder conhecer projetos como Food with Jo, MEGI, Sweetubal, MAIS.COR.PF, FANTY, HappyBites, Alymor, Maria Rosa Brand, Colibri Handmade, Salamania — Salames de Chocolate Artesanais, Catarina Nunes Fotografia & Vídeo, AØRTA, Oliva e Blooming Wild Studio. A lista inclui ainda o The Matcha Club, que escolheu o Arrábida Flea Market para fazer o lançamento da marca.

Às 20 bancas diárias de roupa em segunda mão juntam-se propostas de crochet, bijuteria e acessórios, produtos para animais, fotografia, flash tattoos e restauração. A organização procura evitar a repetição excessiva de categorias e mantém uma atenção especial aos projetos locais, embora as fundadoras admitam que gostariam, no futuro, de atrair criadores de outras regiões, sem perder a ligação a Setúbal.

Outra das novidades da nona edição está precisamente no espaço escolhido. O mercado instala-se pela primeira vez no CACI Sado, um dos Centros de Atividades e Capacitação para a Inclusão da APPACDM de Setúbal.

E a parceria não se limita à utilização do recinto. A APPACDM vai ter uma banca de roupa em segunda mão e outra dedicada à recolha solidária. Quem passar pelo mercado poderá levar peças em bom estado para doar. Algumas das decorações utilizadas durante o evento estão também a ser preparadas por pessoas que frequentam o CACI Sado.

É uma componente que o Arrábida Flea Market já tinha experimentado anteriormente. Numa das edições, uma campanha de recolha conseguiu encher duas carrinhas com roupa, posteriormente entregue a instituições de Setúbal. “Uma peça não deixa de ter valor porque deixou de servir ou de fazer sentido para uma pessoa. Pode passar para outra, ter uma segunda vida e evitar uma nova compra”, destaca Inês.

Para as responsáveis, a compra em segunda mão também não deve ser vista apenas como uma alternativa para gastar menos. É uma forma de prolongar a vida das peças, encontrar roupa diferente e consumir de maneira mais consciente. Inês completa: “Seja vender, comprar em segunda mão ou doar, o importante é prolongar a vida das peças sempre que possível.”

“Não acontece nada em Setúbal”

Com o crescimento do mercado, mudou também quem está do outro lado das bancas. O projeto tem vendedores que regressam edição após edição e já recebe candidaturas de diferentes pontos da região, como Azeitão e Palmela, mas também de Lisboa, Barreiro e outras localidades.

O público também se foi transformando. Durante algumas edições, sobretudo quando o evento aconteceu no Mercado da Conceição, havia uma presença significativa de faixas etárias mais velhas. Ultimamente, Mariana e Inês têm notado cada vez mais jovens.

É uma mudança particularmente importante para as duas setubalenses. “Ouvimos muitas vezes os jovens dizerem que ‘não acontece nada na cidade’. Nós próprias já sentimos isso. Por isso, se conseguirmos contribuir para criar mais uma coisa para fazer na cidade e trazer pessoas para a rua num fim de semana, já é muito positivo.”

Isso não significa que queiram transformar o Flea Market num evento dirigido exclusivamente aos mais novos. Pelo contrário, defendem a mistura de públicos, estilos e idades que o projeto foi conseguindo reunir.

A edição deste fim de semana responde a outro pedido recorrente dos visitantes: realizar o mercado ao ar livre. O novo espaço permite criar diferentes zonas, incluindo uma área própria para restauração e convívio.

Para quem chega ao mercado já montado, grande parte do trabalho necessário para o colocar de pé passa despercebida. E há uma particularidade: nenhuma das duas fundadoras vive exclusivamente do Arrábida Flea Market. “Costumamos dizer que é o nosso full-time depois do full-time, porque há alturas em que é mesmo isso.”

Mariana e Inês mantêm os respetivos trabalhos a tempo inteiro e organizam o mercado depois do horário laboral e aos fins de semana. Antes de cada edição, é necessário procurar um espaço, abrir e gerir candidaturas, analisar inscrições, selecionar participantes, responder a e-mails e mensagens, contactar marcas e propostas de restauração, preparar a comunicação, distribuir bancas, gerir pagamentos e montar toda a logística.

Encontrar um espaço continua, aliás, a ser um dos maiores obstáculos. Tem de ter dimensão suficiente, boas condições e acessibilidade, estar disponível nas datas pretendidas e ter um custo compatível com o projeto. É precisamente aí que está um dos grandes objetivos para o futuro: encontrar uma “casa” para o Arrábida Flea Market.

Um espaço onde pudessem regressar regularmente permitiria estabelecer uma periodicidade — por exemplo, de dois em dois meses ou acompanhando as mudanças de estação — e criar um hábito entre os setubalenses. Atualmente, cada mudança de local obriga a começar de novo, adaptando a logística e explicando ao público onde encontrar a próxima edição.

É um cenário muito diferente daquele que Mariana e Inês imaginavam quando, em 2022, só procuravam uma maneira de esvaziar os próprios armários. “Cresceu connosco e com as pessoas que foram participando nele”, relatam.

Agora querem continuar a trazer projetos, estabelecer novas parcerias e experimentar formatos diferentes. Mas há uma ambição que resume o em que gostariam de transformar o mercado: “Queremos chegar a um ponto em que as pessoas não precisem de perguntar o que é o Arrábida Flea Market — apenas quando é o próximo”, revela Mariana.

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