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A herdeira do grupo Inditex usava roupas da Zara sem saber que a marca era do pai

Marta Ortega Pérez quebrou a regra do pai e deu uma entrevista ao "Wall Street Journal".
Marta com o marido.

Começou a trabalhar na Zara da famosa King’s Road, em Londres, há 14 anos, logo depois de terminar o curso na universidade. “Na primeira semana achei que não ia sobreviver”, conta Marta Ortega Pérez numa rara entrevista que deu ao “The Wall Street Journal” no final de agosto. Hoje, com 37 anos, a herdeira do grupo Inditex é considerada a arma secreta para o sucesso da fast fashion mais popular do mundo.

Naquela era distante, a realidade é que acabou por se adaptar bastante bem à dura posição de colaboradora. “Começas a ficar viciado na loja. Algumas pessoas nunca se querem ir embora. É o coração da empresa.” Mais de uma década depois, ainda visita as lojas da Zara quase todas as semanas, como parte de uma posição sem título oficial que ocupa na empresa, mas através da qual apoia, principalmente, os designs da coleção feminina, o merchandising e a imagem da marca. “Vou sempre estar onde a empresa precisar mais de mim”, diz.

Senta-se todos os dias numa cadeira de rodinhas, à frente de uma mesa industrial partilhada. Por perto nesse mesmo escritório, que fica na zona da Corunha, em Espanha, está o seu pai, Amancio Ortega, instalado numa secretária e cadeira semelhantes, um dos homens mais ricos do mundo. Tem 85 anos, nunca deu uma entrevista, evita eventos e fotógrafos.

Em 2011, “o chefe”, como é tratado em casa e no trabalho, afastou-se do cargo de presidente, mas continua a visitar o escritório quase todos os dias. Em vez de se manter isolado dos colaboradores, gosta de se sentar naquele espaço, que fica no mesmo piso do departamento feminino de uma loja da Zara.

Não tinha noção que era herdeira de um império

Marta foi a única filha que teve com a sua segunda (e atual) mulher, Flora Pérez. Da mãe, herdou o sorriso radioso; do pai, os olhos de coruja e as sobrancelhas carregadas. Quando era miúda, não tinha noção que os pais estavam à frente de um dos maiores impérios da indústria da moda — sabia apenas que trabalhavam nessa área e que viajavam bastante.

A amiga Tamara Sánchez, com quem tinha aulas de ballet e que está hoje à frente do departamento de malhas da marca, recordou-lhe recentemente de uma vez em que perguntou a Marta porque é que vestia Zara todos os dias. A filha de Amancio encolheu os ombros e disse: “A sério, é essa a marca? É a minha mãe que me compra tudo.”

O seu estilo hoje é um chique pragmático, optando tipicamente por peças drapeadas da Zara e combinando-as com sandálias rasas Celine, carteiras de pele Hermès e diamantes casuais de Marie Lichtenberg. Mora num duplex na Corunha com o marido, Carlos Torretta, um ex-executivo de uma agência de modelos de Madrid; a filha de um ano deste casamento, Matilda; e o seu filho de 8 anos, Amancio, que teve com o primeiro marido, Sergio Álvarez Moya.

É uma espécie de celebridade em Espanha, com revistas como a “¡Hola!” a publicarem fotografias de paparazzi suas. Na Corunha, revela com alívio, ainda consegue andar pelas ruas em paz. 

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Amancio com a filha, Marta.

“De zero a Zara”

Em 1936, o ano em que Amancio Ortega nasceu, a aldeia de Busdongo de Arbas era um local muito mais movimentado. A construção de uma estada nacional que cruzava a pequena localidade e de uma estação de caminhos de ferro levou a que muitos trabalhadores ali ficassem a morar. Um deles era Antonio Ortega Rodríguez, o seu pai e avô de Marta.

A estadia foi curta. Três meses depois do nascimento, o pai de Amancio foi promovido a chefe de estação ferroviária de Tolosa, no País Basco. A família voltaria a mudar-se 12 anos depois, desta vez para a Galiza, onde Amancio haveria de assentar de vez. Foi aliás, durante muitos anos, tido como galego. Ainda hoje o é.

Aos 13 anos, começou a trabalhar na famosa loja de camisas Camisería Gala, na Corunha, capital galega. Cabia-lhe a repetitiva tarefa de separar e organizar as peças. Acabou por mudar de emprego e passou a vendedor noutra loja famosa na zona, a La Maja. É lá que conhece a primeira mulher, Rosalía Mera. Juntos, trabalharam e aprenderam tudo o que era possível sobre o negócio têxtil — até começarem eles próprios a criar os seus próprios desenhos.

Foi com Rosalía e o irmão que criou a primeira empresa, a percursora da Inditex. Em 1963 nascia a GOA Confecciones, que produzia batas e vestidos de mulher. A empresa fazia tudo: desenhava, produzia, distribuía e vendia.

Ao fim de dez anos, a GOA tinha já 500 trabalhadores. Com a fábrica nos arredores da cidade, Ortega decidiu abrir a sua primeira loja da marca que tinha idealizado. Na sua cabeça, Zorba era o nome ideal — inspirado nos filmes de Zorba, o Grego.

Primeiro problema: escolhera uma propriedade de esquina numa rua central da Corunha onde, a poucos metros, existia um bar precisamente com esse nome. Ordenou-se a troca aleatória das letras até chegar a uma combinação satisfatória. Ficou Zara.

A primeira das mais de duas mil lojas que existem hoje por todo o mundo nasceu a poucos metros da velha Camisería Gala, onde começou a trabalhar. Era também a primeira pedra de um império que dez anos depois adotaria o nome de Inditex, a casa da Zara, mas também da Oysho, Stradivarius, Pull&Bear, Uterqüe (que se prepara para encerrar todas as lojas) ou da favorita de Ortega, a Massimo Dutti.

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Gosta de misturar fast fashion com marcas de luxo.

Marta, a lufada de ar fresco

Amancio teve dois filhos do casamento com Rosalía, Sandra e Marcos Ortega Mera, mas nenhum deles está envolvido no negócio. É a sua terceira filha, do casamento com Flora Pérez, quem hoje traz uma lufada de ar fresco à empresa e quem percebe bem como divulgar a Zara sem recorrer a publicidade impressa. Tudo acontece através da Internet e das redes sociais e a grande aposta passa também pelas campanhas, para as quais chama fotógrafos como Steven Meisel, Davis Sims, Craig McDean e Zoë Ghertner.

“Penso que é importante construir pontes entre a high fashion e a fast fashion, entre o passado e o presente, entre a tecnologia e a moda, entre a arte e a funcionalidade“, afirmou Marta ao “Wall Street Journal”. Como alguém que incorpora os próprios extremos da indústria da moda, está a ajudar a Zara a demolir a divisão tradicional entre a moda de luxo e o vestuário de massas.

Para ela, a qualidade não devia estar disponível apenas para algumas pessoas. “Queremos que todos os nossos consumidores possam ter isso”, explica. Em 2018, introduziu a linha de edição limitada SRPLS, que é lançada bianualmente, na forma de coleções de streetwear para homens, mulheres e miúdos, confecionadas em algodão, linho, lã e seda e cujos preços podem chegar aos 250€. 

“Obviamente somos uma empresa grande, mas sinto que não é assim tão grande — não sei nada sobre os grandes valores. Nós nem sequer queremos falar sobre eles. No nosso trabalho diário, não é algo com que estejamos preocupados”, conta ao jornal americano. “É grande, mas é mais pequena.”

Isso recorda-a de uma lição que aprendeu com o criador francês Alber Elbaz, amigo pessoal que morreu em abril deste ano. “Sê grande no trabalho e pequeno na vida”, tinha-lhe dito a sua mãe. Marta Ortega Pérez confessa ao “Wall Street Journal”: “É uma das melhores coisas que alguma vez ouvi.”

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