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Restaurante Velha Doca transformou-se e agora serve pratos gregos com um twist setubalense

Foi em agosto que abriu o Mezé, espaço inspirado no conceito de petisco e partilha da Grécia, com sabores de Setúbal.
A salada de polvo.

Existem locais que dispensam apresentações e o sítio onde estava o restaurante Velha Doca é um deles. O spot conhecido dos setubalenses fechou, mas sem saber que viria anos mais tarde abrir caminho para a chegada de um novo conceito e que nos transporta algures para Creta, sem sair da cidade sadina. A ideia do Mezé, o espaço que abriu em agosto à beira-rio, é mesmo unir as duas cozinhas: o toque da Grécia com a essência de Setúbal.

O setubalense João Rodrigues é filho do proprietário do local. Emigrou para a Alemanha com cerca de dois anos, por escolha do pai que tinha uma empresa de exportação e importação de marisco e outros alimentos, conta à NiS. Voltaram para Portugal nos anos 90, na altura para Paços de Arcos. João, que tinha começado os estudos numa escola inglesa, continuou no mesmo registo, mas na St. Juliens. Terminou o ensino secundário em 2003 e foi para a Universidade Lusófona tirar o curso de Marketing e Publicidade, mas não concluiu e, por isso, começou a trabalhar num bar, em Cascais, onde esteve durante seis anos. Na altura em que era barman, João vinha também para a grelha ajudar o pai, no restaurante Velha Doca. Foi em 2007 que inaugurou, mas acabou por fechar, até à abertura do Mezé.  

Depois de trabalhar durante a noite, João arranjou emprego num escritório e voltou para Setúbal, para estar mais perto da mãe. Depois disso, tirou um curso de Turismo Ambiental e Rural no IEFP e esteve na Teleperfomance, a trabalhar na área das cobranças. Como tinha “bons conhecimentos de inglês e competências analíticas”, começou a trabalhar como analista nesse mesmo local. Foi subindo na carreira, ano após ano, e acabou por ir para uma start-up de Londres, onde alugavam automóveis online, trabalhando a partir de Portugal. Foi promovido e deram-lhe um departamento próprio para gerir. Formou até equipas, mas chegou a Covid-19 e fecharam esse departamento, se bem que, antes disso, João já tinha mesmo pensado em despedir-se. Posteriormente, quis usar o dinheiro da indemnização para comprar uma food truck e viajar, mas não chegou a fazê-lo — foi nessa altura que foi para Creta pela primeira vez, em 2020.

Enquanto esteve na Grécia, gostou muito da experiência. “As pessoas são muito hospitaleiras e o estilo de vida é incrível, além das casas serem baratas”, desabafa. Entretanto, foi feita uma nova proposta de trabalho, com João a dizer que queria trabalhar remotamente, imposição que foi aceite e estavam então reunidas as condições para começar seriamente a ponderar morar em Creta. Voltou para Portugal para dar baixa do contrato de arrendamento, fez uma venda de garagem e livrou-se de quase tudo o que tinha. Encheu o carro com o resto e conduziu, com a companhia da sua cadela, rumo à Grécia, onde esteve durante dois anos e meio. “Adorava a vida lá, mas decidi voltar porque não queria perder os momentos em família nem estar longe da minha mãe e tinha receio de me arrepender disso mais tarde”.

Voltou em janeiro deste ano para o seu País. Estava muito contente com o seu trabalho e nunca tinha pensado em abrir um restaurante. Foi até promovido num novo emprego, mas fizeram despedimentos e o de João estava incluído — isto, três semanas depois de voltar para Portugal. Teve direito a indemnização e foi aí que, com o espaço do pai fechado, decidiu atirar-se de cabeça num novo projeto.

O também setubalense Filipe Figueiras, 38 anos, é amigo desde que se conheceram na Teleperformance. Sempre apoiou a ideia de João e até disse que, se precisasse, tinha ali alguém para ajudar. Com o desenrolar dos trabalhos, Filipe propôs sociedade, há cerca de quatro meses e “ainda bem” porque, se não, o Mezé “não estava assim”. “É de Setúbal, fez graffiti e foi artista grande parte da sua vida. É um espírito livre e adora natureza. Trabalha na Teleperfomance em part-time e adora ir para a Arrábida”, conta João. Assim, depois de vários meses de remodelação, foi altura de começar um novo desafio.

Os sabores do Olimpo

Mezé é um conceito tipicamente grego. Significa, essencialmente, a comunhão à volta de vários pratos, com pessoas a comer e a beber, em momentos de partilha e convívio. É algo natural nesta cultura. O local de eleição para estes momentos de felicidade são os típicos locais de beber raki, uma espécie de aguardente muito apreciada entre os cretenses. Pedem a bebida, chegam os pratos com os vários petiscos e “são capazes de passar um dia a fazer isto”. Esta, é “a génese”, que depois se alarga para outros sítios. Há até quem vá para spots mais remotos, em família, durante dias, só para fazer mezé.

Ainda assim, não se identificam como um restaurante só grego. As cores azul e branco já estavam presentes e podemos dizer que foi obra do destino. Mezé nasce em Creta, mas não existe só aí, por isso, entende-se que passa por ser um conceito mediterrânico. Claro que o maior twist deste Mezé é unir os sabores da Grécia com os de Portugal, e, mais concretamente, com Setúbal. “Temos raízes muito profundas e orgulho em ser sadinos e portugueses. Quisemos fazer algo que falasse connosco”, revela João.

A NiS provou alguns dos pratos que fazem parte do menu do restaurante e não saiu desiludida. Há nomes que não vai conseguir dizer, mas que vale a pena experimentar. Há, claro, outros já conhecidos e típicos de Portugal, mas com um toque diferente. Pode contar com alho assado em muitos dos pratos, cebola roxa e pimento. Fique já a saber também que João aceita desafios — não está no menu, mas é algo que lhe apetece muito? Peça, o proprietário do Mezé tenta confecioná-lo.

Para a mesa chegou um vinho branco e outro tinto: pode pedir um copo porque essa foi uma das preocupações deste restaurante à beira-Sado. O couvert tem manteiga à Mezé com alho e ervas (2€) e azeitonas e tremoços marinados em azeite, alho assado, orégãos e coentros (2€) — parece típico de Portugal, mas tem o toque da diferença que este estabelecimento quer transmitir, até nas entradas.

A salada à cretense (6€) tem pepino, tomate, queijo feta, croutons e azeitonas e é perfeita para introduzir a refeição. Os sabores são intensos, mas não demasiado, e conjugam uns com os outros. Há uma preocupação em ter pequenos petiscos vegetarianos, como é o caso dos kolokythokeftedes, ou, como quem diz, pastéis de curgete (6€) — este é um dos momentos em que a mordida surpreende e experimente acrescentar o molho tzatxiki à sadino (3€). Bruschetta de sardinha, cebolas e pimentos assados (3€), um petisco que não pode deixar de pedir e provar — vai ficar viciado.

Claro que, quando falamos num restaurante que quer trazer a essência setubalense, não podemos deixar de parte o choco frito (12€), que, atenção, aqui é servido como um género de petisco e vem com o molho mezéchurrí — limão, alho assado e coentros —, bem escolhido e que dá um toque diferente ao típico prato de Setúbal. O choco é panado com farinha de trigo e é muito tenro e saboroso.  

Atenção à salada de polvo (9€), com pimentos e cebolas roxas assadas. O molusco é cozinhado em vinho tinto, marinado em alho assado e coentros para o dia seguinte e, antes de servir, vai à grelha para ser assado. Já sente o cheiro? Espere até provar a especialidade.

Nem sempre é fácil conseguirmos escolher um restaurante que sirva lulas (18€) frescas e de qualidade: neste estabelecimento, conte com isso e muito mais. Este molusco chega devidamente empratado, grelhado e cortado para que possa desfrutar de um verdadeiro momento à Mezé. Para terminar em grande, espere até provar o caramelo salgado caseiro (3,50€) — vai querer voltar só por esta delícia. Siga o Instagram para acompanhar todas as novidades do restaurante que fica mesmo ao lado do Clube Naval Setubalense.

Percorra a galeria e conheça alguns dos pratos que pode provar no Mezé. 

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua do Clube Naval, N.º 22
    2900-325 Setúbal
  • HORÁRIO
  • Terça-feira a sábado, 12h30 às 22h30
  • Domingo, 12h30 às 15h30
PREÇO MÉDIO
Entre 20€ e 30€

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