Há quem pense que comer fora de horas só é válido se for depois da meia-noite. No novo restaurante Ponto, em Setúbal, a ideia é outra: abrir a cozinha quando quase tudo ainda está fechado. A petisqueira começou a funcionar esta quarta-feira, 8 de julho, na Rua Plácido Stichini, e quer conquistar precisamente aquela hora em que já passou a hora do almoço, ainda falta muito para o jantar e apetece mesmo sentar à mesa.
“Não há aquela coisa de o chefe não estar. Nós estamos aqui”, explica o fundador Mário Santa Caló, à New in Setúbal.
O objetivo é servir quem não teve tempo de almoçar, quem se levantou mais tarde, quem sai da praia e ainda quer beber uma imperial com qualquer coisa para picar, ou quem simplesmente prefere começar o jantar mais cedo. “Quero muito conquistar as tardes”, assume Mário. Por enquanto, o horário será das 16 às 23 horas, mas a ideia é começar a abrir mais cedo, já a partir do meio-dia.
O espaço nasce como um projeto familiar de Rute Caló, no atendimento, e Mário Santa Caló, cozinheiro, ligados à restauração em Setúbal desde 2007. Durante vários anos, o casal ficou conhecido por uma tasca pequena, que fechou em 2020, durante a pandemia. Depois vieram outros projetos, mas é neste novo restaurante que dizem regressar às origens.
“Aqui voltamos a ser a nossa essência”, explica Mário, que no Ponto é responsável pela cozinha.
Essa essência passa por uma casa pequena, próxima dos clientes, com comida feita para partilhar e um atendimento sem grandes formalidades. “É a simplicidade do serviço que cria esta conexão com as pessoas.”
O nome também não foi escolhido ao acaso. “O ponto final, o ponto de encontro, o ponto é aqui, o ponto fresco, o ponto doce”, explica Mário. O lema da casa vai nesse sentido: “O ponto fresco de Setúbal”.
O restaurante é pequeno, com 40 lugares no interior e mais 30 na esplanada. Mário garante que a cozinha continuará direta, fresca e sem complicações. A própria dimensão do espaço obriga a isso.
“Tenho de comprar carne para hoje, carne para amanhã, alfaces para hoje, alfaces para amanhã. Vai estar sempre fresco”, diz o dono à NiS.
A zona da cozinha foi pensada para que Mário possa ser visto a partir da sala e falar com os clientes. “Existe uma proximidade muito grande.” Por vezes, é o próprio cozinheiro que leva os pratos à mesa, sobretudo quando Rute, responsável pelo serviço, está ocupada.
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Petisqueira tradicional traz de volta os seus clássicos
O conceito da carta é o de uma petisqueira tradicional, com pratos para picar, dividir e ir provando sem pressa. Mário não consegue escolher um favorito da carta e brinca: “Na cozinha não se escolhem filhos.”
Os clientes antigos deverão gostar do regresso de algumas especialidades que já deixavam saudades. É o caso do chèvre gratinado com mel e orégãos (9€), dos cogumelos salteados (7€), do strudel de caça com espinafres (9€) e dos camarões ao alhinho (18€). “São coisas que fizeram com que as pessoas na rua nos reconhecessem”.
Também haverá pratos escolhidos com cuidado, como o smash burger (14€). Outra das novidades da carta é a tiborna de filetes de sardinha (6€). Na parte das bebidas, Mário destaca a Sidrangria, uma espécie de sangria feita com cidra. “É muito refrescante”, garante o proprietário.
A comida é uma das razões pelas quais muitos clientes acompanham o casal há mais de 20 anos. Mas há outra: a forma como são recebidos. “Gostava que as pessoas se sentissem em casa. Na casa de amigos.” No restaurante Ponto, essa proximidade deverá sentir-se ainda mais do que nos projetos anteriores.
História de amor dá alma ao Ponto
Rute e Mário estão casados há 32 anos e trabalham juntos na restauração há mais de duas décadas. “O nosso segredo é a união, a família, o gosto”.
Para o cozinheiro, não é possível fazer este trabalho durante tanto tempo sem gostar verdadeiramente da profissão. Como diz, a sua maior motivação são os clientes satisfeitos. “Dar prazer às pessoas e os comentários finais. E depois o gosto de estar a mexer nas coisas e de ter as mãos sujas.”
Mário continua, com orgilho: “A Rute dá a cara, recebe as pessoas, e é isso que faz esta conexão com as pessoas”.
Os dois funcionam bem como equipa, apesar de passarem tanto tempo juntos. “São 32 anos vezes 24 horas”, brinca Rute.
Conheceram-se em 1993, numa sala de bingo, quando ainda não estavam ligados à gastronomia. “Começámos muito mal”, recorda Rute, entre risos. “Não nos entendíamos, até percebermos que afinal aquilo não era desentendimento. Era já amor.”
Dois anos depois nasceu a primeira filha, Beatriz, hoje com 30 anos. Mais tarde chegou Inês, que tem 25. Há poucos meses, Mário e Rute tornaram-se também avós, o que aumentou ainda mais a família.
A nova casa de amigos em Setúbal
E família, no Ponto, não se limita aos laços de sangue. Cátia, funcionária do casal há vários anos, já “faz parte da família”, segundo os donos do projeto.
No dia da abertura, havia vizinhos de outros restaurantes sentados na esplanada a provar a nova carta. Também apareceu um antigo funcionário. Pequenos gestos que dizem muito sobre a relação que os Caló foram criando com quem passou pelos seus espaços. Mário e Rute olham agora para este novo capítulo com entusiasmo.
A localização, perto da Praia da Saúde, da Avenida Luísa Todi e da zona ribeirinha, é vista como uma das grandes vantagens do Ponto. “Setúbal é das cidades mais bonitas que eu conheço. Nós, setubalenses e pessoas que moram em Setúbal, valorizamos pouco a nossa cidade. A cidade é linda”, diz Mário. “Tem essa alma de férias.”
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