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Lingua Madre: o novo italiano com comida da avó (até Maradona tem lugar à mesa)

Por aqui, cada prato conta uma história de Nápoles e da família de Maria Caso. Vai ser um sucesso em Setúbal.

Quem entra no Língua Madre sente-se transportado para a casa de uma avó italiana, rodeado de receitas de família e de memórias da Itália dos anos 80. E não são receitas quaisquer: pertencem à família de Maria Caso, de 48 anos, natural de Nápoles.

“Passávamos o dia à volta da mesa. Era tudo muito aconchegante”, recorda sobre a sua infância. “Lingua Madre é uma homenagem e uma lembrança do convívio em família”, diz a napolitana, que abriu o restaurante em novembro de 2025, em conjunto com o namorado António Malveiro, setubalense, da mesma idade.

A avó de Maria, apesar de ser cega, ensinou-a a jogar às cartas. É por isso que existem baralhos disponíveis em cada mesa, num convite a pousar o telemóvel e recuperar o convívio. Há tapetes espalhados pelo chão, papel de parede, cortinas, e as cadeiras são todas diferentes, tal como acontecia em casa da avó de Maria.

“Quando faltava uma cadeira, pedia-se ao vizinho”, explica. São estes pequenos detalhes que dão charme ao espaço e aproximam os clientes, pouco a pouco, do ambiente vivido em Nápoles há 50 anos. 

Colagens recriam o ambiente da Nápoles dos anos 80

Nas paredes, encontram-se colagens com algumas das personalidades mais importantes da Nápoles daquela década. Entre elas estão Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, os juízes anti máfia assassinados em atentados com carros-bomba. Existe também uma fotografia da atriz Sophia Loren e outra de Bud Spencer, antigo nadador de Nápoles que se tornou uma estrela mundial do cinema.

Jesus e um crucifixo também fazem parte da decoração, tal como acontecia na sala da avó napolitana, ao lado de Diego Maradona. Quem não acompanha futebol poderá não associar imediatamente o craque argentino a Nápoles. No entanto, uma enorme imagem no exterior do restaurante e uma grande tatuagem no braço de Maria deixam perceber que existe uma relação mais profunda.

 
 
 
 
 
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O futebolista argentino representou o SSC Napoli entre 1984 e 1991. Na altura, era considerado o melhor jogador do mundo. Nápoles, por sua vez, era uma das cidades mais pobres de Itália. Maradona levou o clube à conquista dos seus dois primeiros campeonatos italianos e ainda de uma Taça UEFA, tornando-se uma figura praticamente venerada na cidade.

Naquela época, o norte de Itália discriminava frequentemente o sul, recorda Maria. “Diziam que nós não tomávamos banho, que éramos sujos e mafiosos.” Maradona tornou-se, porém, uma espécie de arma secreta dos napolitanos.

“Maradona não defendia Nápoles só no campo. Para os napolitanos, aquilo era também uma vingança”, explica.

A nova ementa e a história dos Spaghetti Maradona

Todos os pratos do Língua Madre têm uma história. Um deles são os famosos Spaghetti Maradona (15€), que passam a fazer parte da nova carta no final de julho. Segundo Maria, a lenda conta-se assim: depois dos treinos, Maradona costumava comer spaghetti aglio e peperoncino num restaurante. Como o prato começou a tornar-se demasiado repetitivo, terá entrado na cozinha à procura de outros ingredientes. Acabou por juntar pão torrado e anchovas à massa.

Maradona gostou da combinação e o prato tornou-se conhecido como “Spaghetti Maradona”, tendo sido mais tarde adotado por outros restaurantes. A nova carta do Lingua Madre inclui também a Pasta alla Genovese (16€), que, apesar do nome, tem origem em Nápoles.

“Importamos todos os ingredientes de Itália”, afirma António.

Maria quer mostrar aos clientes “que a cozinha italiana não é só massa e pizza. Há um mundo”, afirma à New in Setúbal. Nesse mundo entram, naturalmente, os pratos de carne e peixe. No Língua Madre, é possível provar porchetta (18€), marinada durante 11 a 12 horas em vinho, funcho e alho, antes de permanecer aproximadamente mais 13 horas no forno.

Outra das novidades da carta é a tagliata di manzo (23€), um corte de carne de vaca servido com lascas de parmesão.

Aperitivo italiano todas as quartas-feiras: Língua Madre recria tradição italiana

Tal como em Itália, também há aperitivo no Língua Madre, sempre às quartas-feiras, a partir das 19 horas. Os clientes chegam, pedem uma bebida e podem acompanhá-la com vários petiscos gratuitos. A bebida clássica para a ocasião é o Aperol Spritz, mas existem outras opções, como por exemplo o Língua Madre Spritz (9€), além de várias cervejas italianas. À mesa chegam bruschettas ou outras coisas deliciosas, tal como acontece em Itália.

Os petiscos mudam todas as semanas, pelo que aquilo que será servido é sempre uma surpresa. O que não muda é a preocupação em respeitar as receitas originais. A gastronomia italiana é, desde 2025, Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, lembra a napolitana. No Língua Madre, essa herança é levada a sério.

“Não é preciso mexer numa coisa só porque se quer fazer a diferença”, diz Maria sobre a sua cozinha. “Uma coisa, para ser boa, tem de ser consistente, verdadeira, antiga, como sempre foi.”

Esse respeito pela tradição estende-se também ao ambiente que o casal quis criar. O restaurante fica numa zona residencial tranquila de Setúbal.

“É um restaurante de bairro. Quem vem aqui sabe que quer vir aqui, não é porque passa”, comenta António.

Nesta zona, ainda se vai a pé comprar pão, visitam-se os pequenos comércios e conhecem-se os vizinhos. Durante o verão, a esplanada tranquila e à sombra convida a esquecer o dia de trabalho e a começar a noite com calma.

Pensava que António era surdo: encontro nas bancadas acabou num restaurante

Maria e António dizem que se complementam na perfeição. “Aquilo que o António não tem, tenho eu; e aquilo que eu não tenho, tem o António”, afirma Maria. O facto de os dois estarem hoje sentados à mesma mesa também tem uma história pouco provável. Maria e António têm filhos da mesma idade, que jogavam râguebi juntos.

Foi assim que se conheceram no ano passado, nas bancadas, enquanto assistiam aos treinos. “Eu chegava sempre e dizia ‘boa tarde’”, recorda Maria. António, porém, nunca respondia. “Eu pensava que ele era surdo”, conta a napolitana.

Certo dia, António assustou-se com o som de um apito e Maria percebeu que ele conseguia ouvir. “Então pensei que era mudo”, continua, enquanto o setubalense se ri da história. António garante que era apenas tímido.

A primeira flor que ofereceu a Maria estava embrulhada em papel cor-de-rosa. Esse mesmo papel encontra-se hoje numa moldura junto à entrada do restaurante. É mais um pequeno detalhe que conta uma história no Língua Madre. Agora, também os clientes ajudam a escrever essa narrativa. E não apenas em sentido figurado: podem deixar pequenas mensagens nas paredes do espaço.

“Quando a comida é feita com alma, cada refeição é uma nova memória”, escreveu alguém. Mesmo ao lado, como não poderia deixar de ser, lê-se: “Forza Napoli”.

Carregue na galeria para ver fotografias do Língua Madre.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Praceta Jaime Horácio Pacheco Junqueiro 4 Loja drt
    2900-700 Setúbal
  • HORÁRIO
  • 12 às 16 horas e das 19 às 23 horas
  • Encerra segunda
  • Aperitivo quarta-feira 19 às 21 horas

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