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Apaixonaram-se no Bingo do Vitória. Agora, têm um spot com a melhor comida luso-africana

O restaurante Tchissola abriu em outubro de 2023. Nasceu de um amor entre um setubalense e uma angolana, na década de 80.
A cachupa.

Vítor Paixão foi combater na Guerra Colonial, em África, em 1969. Fez a Comissão de Serviço em Angola e esteve por lá dois anos. Porém, o que não imaginava é que acabaria por ser envolvido num dos mistérios mais falados da região. Quem bebe água do rio Bengo, próximo de Luanda, nunca mais esquece Angola. E foi o que aconteceu com Vítor. Tanto, que se apaixonou por uma angolana, em Setúbal.

Pode parecer confuso, mas não é mais do que obra do destino. O ex-combatente, de 77 anos, é setubalense e regressou à sua cidade natal em 1971. Conheceu a mulher, Elsa Paixão, 70 anos, natural de Angola, em 1983, nas noites de Bingo do Vitória Futebol Clube. Atualmente, têm o restaurante Tchissola, no bairro do Liceu, que serve comida luso-angolana, sendo o culminar de uma história de amor, superação e companheirismo.

Vítor foi engenheiro civil, trabalhou em Setúbal, nos projetos da Torralta e teve a sua própria empresa. Tem duas filhas fruto do primeiro relacionamento. Elsa trabalhou na área da contabilidade e, quando veio de África para Portugal, em 1981, conciliou o trabalho num escritório com o part-time do Bingo no Vitória de Setúbal, à noite. Foi numa dessas ocasiões que o casal se conheceu.

Para Vítor, foi amor à primeira vista. Para Elsa, não foi tão repentino devido às experiências traumáticas que tinha vivido no passado. Afinal, tinha três filhos para sustentar e fê-lo sozinha. Ainda assim, foi dando oportunidade ao jovem apaixonado — que até escrevia bilhetes nos cartões de bingo — e conheceram-se melhor. Vítor acompanhava Elsa até casa e, com o tempo, apaixonaram-se. Juntaram-se um ano depois e casaram em 1999, no mesmo dia que o filho de Elsa.

Recorda-se de termos falado na água do rio Bengo? Pois bem, foi Vítor que quis regressar a África, em 1988. Trabalhou na mesma empresa, a Teixeira Duarte, desde essa altura, até à época da reforma. Já Elsa não deixou a sua área, até aparecer a oportunidade de ter o seu próprio negócio, o restaurante Yago’s. É que a cozinha sempre foi uma das paixões de Elsa, que aprendeu com a mãe e com as tias, também elas dotadas.

A sua família tinha a tradição de se juntar, aos fins de semana, numa “sentada”, onde brindam, comem e se divertem durante dias seguidos. Cada um leva um prato diferente, para depois partilharem. E foi com base neste conceito que começou o primeiro negócio. Porém, aos 45 anos, Elsa foi obrigada a deixar a atividade porque teve um princípio de AVC.

Depois de se reformarem, compraram uns terrenos no sul de Angola, próximos da terra de Elsa, que é Lubango. Lá, está construído um condomínio, em parceria com uma empresa. O casal quer vender a parte deles e mudar-se para Setúbal. Estão na cidade desde 2016, mas não de forma definitiva. E quando vieram não tinham intenções de começar um projeto na restauração.

Na verdade, esta ocupação é uma maneira de proteger, mais uma vez, os filhos e os netos e de garantirem que há um futuro e um negócio de família. É uma lembrança, como explicam, de que nada do que conquistaram chegou sem esforço e luta de ambos. Miriam Fernandes, 47 anos, é a gerente do espaço e a filha mais nova de Elsa. O Tchissola abriu em outubro de 2023.

A experiência da NiS

A nossa equipa visitou o local para experimentar alguns pratos. Além de ser uma paixão de Elsa, o que verificam é que a comunidade africana, nomeadamente angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos é grande em Setúbal e, por isso, poderia funcionar. O que se pretende é dar comida de conforto, caseira e saborosa a todos os clientes. E uma coisa é certa: estão a conseguir.

Assim que entrámos sentimos, inexplicavelmente, uma sensação de bem-estar e de serenidade. Foi como se estivéssemos a entrar em casa, depois de um longo dia de trabalho, em que só queremos confort food, que nos vai aliviar da pressão e um espaço calmo para relaxar.

O que nos despertou a atenção foi também a decoração do espaço. Além dos vários “quadros” — que são sacos de supermercado feitos em parceria com uma artista africana —, todas as cadeiras estão estofadas com tecido de capulana, como dizem em Moçambique, ou samacaca, expressão usada em Angola. Os tecidos são comprados por Elsa, quando vai a Angola, que diz que não resiste e tem um baú cheio. Foi a família que quis marcar esta diferença no estabelecimento.

Para a mesa veio, inicialmente, a entrada. Provámos kitaba (2,5€), feita à base de jinguba (amendoim), jindungo (piri-piri) e sal. Pode escolher se quer ou não picante e podemos dizer que foi uma boa maneira de começar a refeição. Não podíamos deixar de experimentar a sopa muzongué (7,5€), que é um caldo de peixe com mandioca, batata-doce e banana pão com óleo de palma. Mesmo quem não gosta deste tipo de prato, dificilmente vai resistir.

Comemos, em seguida, o calulu de peixe (34€ para duas pessoas). Deixamos a nota de que Elsa vinha, a cada prato, dar uma explicação acerca do que era e como se comia. Neste caso, é um estufado de peixe fresco e seco com quiabos, beringela, espinafres e óleo de palma. Este foi o prato que mais surpreendeu e o nosso favorito. Há uma explosão de sabores e, cada ingrediente, complementa o outro na perfeição. O sabor do peixe seco é ligeiramente mais intenso do que o do peixe fresco.

É impossível vir a um restaurante de comida angola sem experimentar cachupa (14,5€). Foi uma autêntica viagem gastronómica a África, entre o feijão, o milho, as carnes e o arroz. Mais uma vez, em cada garfada, sentimo-nos em casa, mesmo que não sejamos naturais daquele país. Antes da sobremesa, guardámos espaço para a moamba de ginguba, ou seja, amendoim (15€). É uma forma diferente de provar o frango com os temperos típicos africanos. A carne estava tenra e bem confecionada e o molho era daqueles em que só apetece mergulhar o pão.

A seguir, prepare-se para provar o melhor bolo de chocolate do mundo (4,5€), porque é absolutamente irresistível. A mousse de mucua (3,5€) foi uma sugestão de Elsa e não desiludiu. Não é demasiado doce e é perfeita para os dias de calor. Para finalizar, e aqui, definitivamente, até quem não gosta de arroz-doce vai gostar desta versão: a cangica (3,5€) tem uma textura, uma cremosidade e um sabor viciantes.

O restaurante tem ainda um andar de baixo, que recebe eventos com lotação de 50 pessoas. De terça a sexta-feira, aos almoços, há pratos do dia portugueses, além da carta. Há também menus de grupo e serviço take-away.

Carregue na galeria para conhecer alguns pratos e o espaço que fica no bairro do Liceu.  

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Avenida Dr. António Rodrigues Manito, 94 A
    2900-063 Setúbal
  • HORÁRIO
  • Terça-feira a sábado, das 12h às 15h e das 19h às 23h
  • Domingo, das 12h às 15h
PREÇO MÉDIO
Entre 10€ e 20€
TIPO DE COMIDA
portuguesa, africana

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